Avatar do usuário logado
Usuário

Frio na espinha

Por Ivan Angelo 18 set 2009, 20h18 | Atualizado em 5 dez 2016, 19h45

Na hora vizinha da meia-noite, o vento gelado na rua parecia ter suspendido as atividades humanas e seus ruídos: passos, vozes, música de um rádio alto num carro, tosse, limpeza pública.

O homem, lendo um romance policial dentro do seu apartamento aquecido, deu-se conta de repente daquele silêncio e pensou: deve ter esfriado, a rua está tão quieta. As pessoas, como as baratas, se escondem no frio – escreveu num bloquinho de anotações que tinha sempre ao lado. Não gostava de ter idéias e perdê-las.

Abriu sua porta-balcão e saiu no terraço para sentir a temperatura e olhar a rua. O tempo esfriou mesmo, pensou, deve estar fazendo uns 10 graus ou menos. Esfregou as mãos para gerar calor e já ia voltando para o conforto da sala quando viu, no 1º andar do prédio em frente, algo que o fez parar, atento e alarmado.

Um homem havia saltado de uma das janelas iluminadas do apartamento para a marquise. Usava boné escuro e vestia um colete preto, com letras amarelas que não se podiam ler dali, parecia Polícia Federal. Pela outra janela, fechada e iluminada, viam-se dois cães latindo, talvez presos. O homem de colete se esgueirou na marquise e ficou num canto – protegido ou escondido? – fumando.

Um ladrão?

Continua após a publicidade

Morador fugindo do ladrão?

Um amante em fuga, escondendo-se do marido que voltara de surpresa?

Um agente da Polícia Federal, quase surpreendido quando instalava microfones secretos para a operação Frio na Espinha?

Continua após a publicidade

As hipóteses passaram rápido pela cabeça do homem no terraço e ele correu ao interfone, ansioso para saber do seu porteiro se estava vendo o que se passava no 1º andar do edifício em frente. O porteiro disse que não, que não olhava janelas. O homem pediu-lhe que olhasse e o avisasse se visse algo suspeito. “Como assim?”, perguntou o porteiro. O homem só falou “Avisa!”, e correu para o terraço. Ao passar pela sala pensou em anotar no bloquinho: porteiros não sabem lidar com hipóteses que não sejam pacotes – mas apressou-se para o terraço.

O homem do colete não estava mais na marquise! A janela fora fechada, as luzes continuavam acesas.

Deve ter pulado para a rua, imaginou, 3 metros, moleza para um atleta da Polícia Federal. Olhou: ninguém na rua, só o frio. Ou então, pensou, ele entrou de novo pela janela, matou o marido traído e saiu tranqüilo pela portaria, pois porteiros não lidam com hipóteses, especialmente quando disfarçadas de Polícia Federal. Acordou várias vezes naquela noite, interrogando o silêncio.

Continua após a publicidade

De manhã, ninguém do seu prédio sabia de nada, nem tinha visto algo estranho. Pensou, conformado: daqui a uns dias vão ver na televisão um vizinho bambambã algemado, preso na operação Frio na Espinha, e vão dizer: ah, então era isso – lamentando não ter visto. Anotou no seu bloquinho: o passado é um prato que se come frio.

Conferiu o local da cena insólita nas noites seguintes, sem que ela se repetisse. Hipótese: o equipamento espião já estaria plantado, à espera de resultados.

Quatro dias depois, pela manhã, foi ao terraço de roupão a fim de sentir a temperatura, decidir qual roupa deveria vestir para sair. Estava friíssimo. Olhou para a marquise e lá estava o homem! De colete da Polícia Federal, boné, e fumando.

Continua após a publicidade

Havia uma diferença fundamental: estava sentado, balançando as pernas penduradas sobre a calçada, despreocupado. Apenas um homem sentado fumando.

Provavelmente a mãe do sujeito, o pai, o avô com bronquite, a mulher, as crianças, os cachorros, alguém ou todos, não suportavam a fumaça de cigarro e o homem acuado transformara a marquise em fumódromo particular. Mais prático do que descer até a rua. Colete e boné para se proteger do frio.

Não seria mais simples não fumar? – pensou o homem no terraço, olhando o céu cinza.

Fumantes são enigmas, anotou no seu bloquinho.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

Revista em Casa + Digital Completo
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Completo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 39,99/mês