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Fim do Grand Hotel Ca’d’Oro

Com quase seis décadas de história, o primeiro hotel de luxo da cidade fecha as portas no próximo domingo (20)

Por Henrique Skujis 10 dez 2009, 13h49 | Atualizado em 1 jun 2017, 18h47
restaurante Cadoro_2143
restaurante Cadoro_2143 (Fernando Moraes/)
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Na manhã da última terça-feira, o silêncio que reinava no lobby do Grand Hotel Ca’d’Oro misturava um pouco de tristeza, muita reverência e uma clara sensação de missão cumprida. Ele gantes, com uniformes ainda impecáveis e a cordialidade que fez história no número 129 da Rua Augusta, seus funcionários perambulavam de cabeça erguida, apesar da feição séria, sem o habitual sorriso no rosto. O recepcionista Ricardo Noçais, 64 anos, o mais antigo empregado, assumia com serenidade o inevitável epílogo do primeiro cinco-estrelas da cidade. “Não há mais nada a fazer”, repetia ele, que começou sua carreira aos 22 anos como mensageiro, ainda quando o empreendimento ficava na Rua Basílio da Gama. “Só de pensar no fim, não sinto o chão”, afirmou. “Vou abrir uma sorveteria em Jarinu.”

Fundado em 1956, o Ca’d’Oro agendou seu check-out para o próximo domingo (20) — o famoso restaurante, que nasceu três anos antes, encerra as atividades na sexta-feira. Entre os poucos hóspedes que zanzavam sobre o piso de mogno estava o dono de uma faculdade, que se sentou para almoçar à mesma mesa de sempre, diante da Vendemmia, pintura do italiano Vincenzo Irolli. Do elevador saiu o pianista Arthur Moreira Lima. “Não consigo acreditar”, disse o músico carioca, que há décadas se hospeda na suíte 588. “Nenhum hotel no Brasil tem essa classe e essa tradição”, afirmou, enquanto apontava para o piano Erard fabricado na França em 1850 e para as obras de arte compradas por indicação do fundador do Masp, Pietro Maria Bardi.

 

Fernando Moraes

Restaurante do Hotel Ca’d’Oro já está vazio

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Para José Ernesto Marino Neto, da consultoria BSH, especializada em hotelaria, o Ca’d’Oro sucumbiu à decadência do centro. “A hotelaria reflete a cidade”, explica Marino. “Com o surgimento de novos polos comerciais, a região deixou de requerer uma hospedagem de luxo.” Fabrizio Guzzoni, neto do fundador e atual gerente-geral, cita a chegada dos flats nos anos 90 como outro fator para a derrocada. Na semana passada, apenas noventa dos 270 quartos estavam abertos. Dos mais de 500 funcionários que trabalharam nos anos 80, menos de noventa seguiam empregados. A ocupação na terça-feira não chegava a 20%. No restaurante, onde reinou o bollito à pia montesa, apenas três pessoas almoçavam.

 

Fernando Moraes

Noçais funcionário Cadoro_2143
Noçais funcionário Cadoro_2143 ()
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Noçais, o funcionário mais antigo: “Vou abrir uma sorveteria em Jarinu”

 

A lista de hóspedes cé – lebres que passaram pelo Ca’d’Oro é longa. O presidente João Baptista Fi – gueiredo chegou a despachar de lá. José Sarney e Fernando Henrique Cardoso também pernoitaram nas espaçosas suítes. Di Cavalcanti pintou ali sua musa Marina Montini e tentou diversas vezes pagar a estadia com obras. O rei Juan Carlos, da Espanha, solicitou uma cama especial para seus quase 2 metros de altura. Além de usar seu próprio queijo ralado, o tenor Luciano Pavarotti exigiu uma balança capaz de suportar seu peso. Vinicius de Moraes varou madrugadas no bar. Na semana passada, além de Arthur Moreira Lima, o ministro Tarso Genro era esperado. Ao menos dois andares são ocupados por moradores fixos: um juiz, que pagaria 6 000 reais por mês, e a dona de uma grande rede de lojas, que vive ali há mais de duas décadas. As sucessivas tentativas de revitalizar o centro sempre foram um alento para os atuais donos. “Esperamos. Tentamos. Não deu”, resumiu Guzzoni. “Mas não estamos encarando esse momento como o fim. Vamos atrás de parceiros para viabilizar uma reforma e reabrir até a Copa de 2014.”

 

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