Erika Hilton fala sobre aborto, escala 6×1, feminicídio e mais batalhas no Congresso
Eleita a melhor deputada federal em 2025 por voto popular, a paulista compartilha detalhes sobre projetos de lei que articula em Brasília
Criada entre a periferia de Franco da Rocha e Itu, no interior paulista, Erika Hilton, 33, trilhou uma trajetória digna de filme. De família religiosa, ingressou no movimento estudantil na faculdade e enveredou sem volta pelos caminhos da política. Hoje, eleita duas vezes melhor deputada federal pelo Prêmio Congresso em Foco, a parlamentar leva sem medo para as redes sociais as pautas que defende com um talento nato para a comunicação.
Neste ano de eleição, ela será nomeada pelo PSOL para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, onde tramita o projeto de lei 820/2025, de autoria dela, que legisla sobre a anistia para mulheres condenadas e presas por aborto ilegal desde 1940. “O perfil das condenadas é de mulheres pretas, periféricas e de baixa escolaridade. É um dado histórico e urgente. Vamos articular ao longo deste ano para que essa matéria esteja pronta para ser votada”, afirma a deputada, que denunciou no Conselho Nacional de Justiça o desembargador responsável pela absolvição do homem acusado por pedofilia em Minas Gerais.
Em um momento de repercussão de casos de feminicídio e estupro, a política frisa o papel do Legislativo como garantidor dos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres brasileiras. Confira a entrevista.
A OMS estima que 800 000 mulheres realizam abortos anualmente no Brasil, e o SUS indica que somente 200 000 procuram os serviços de saúde. Como o projeto de lei para anistia pode impactar nesse cenário alarmante?
Ele vai trazer uma certa tranquilidade, porque o maior medo delas em procurar o serviço de saúde é exatamente o risco de serem condenadas. É necessário garantir que o acesso ao aborto seguro não seja exclusivo a uma casta da sociedade. Quando vemos esses números alarmantes, podemos falar em desigualdade social e preconceito racial, porque a marca da criminalidade sempre recai sobre os corpos mais vulneráveis.
A aprovação seria um passo contundente em direção à legalização do aborto no Brasil?
Com certeza, mas é delicado. Fico pensando: conseguimos debater anistia no momento em que se falava dela para golpistas, para pessoas que atentaram contra a democracia. E agora esses são os antagonistas no debate do aborto legal, do direito da mulher ao próprio corpo. Isso exemplifica muito o quanto a conversa sobre a legalização do aborto está em uma esfera da hipocrisia. É seletivo o que é considerado crime para os que vão na contramão dessa proposta.
Com mais mulheres no Congresso seria possível tramitar de forma mais célere projetos como esse?
Não basta mais mulher, é preciso mulheres com compromisso de causa. Nós temos parlamentares no Congresso Nacional que não representam uma agenda feminina. No debate da campanha “Criança Não É Mãe”, vimos algumas defendendo que vítimas de estupro levassem adiante uma gravidez. Também vimos mulheres votando em anistia para partidos que não cumpriram cota para as mulheres. Nesses exemplos, não estamos falando de pautas de esquerda, mas sim da dignidade da vida humana. A presença feminina é fundamental para a transformação dos espaços de poder que historicamente são brancos e masculinos. Mas temos projetos patriarcais que fazem mulheres de fantoche.
Com sua denúncia, o CNJ vai investigar a absolvição no Tribunal de Minas Gerais do homem acusado por pedofilia. Qual seria o caminho legislativo para barrar esse precedente?
Quando falamos de sistema judiciário, falamos de uma cúpula do Estado muito protegida. Então, a gente tem estudado quais são os caminhos para garantir a dignidade e a proteção dessas meninas, mas também uma penalidade maior para esses magistrados. Tivemos recentemente uma vitória importante: a explicitação no Código Penal de que será sempre considerada crime de estupro qualquer relação sexual com menores de 14 anos. Mas precisamos mirar no Judiciário de alguma forma para garantir essas sentenças.
O que evidenciam casos como a série de estupros coletivos no Rio de Janeiro?
Eles são consequência dessa crescente cultura red pill e incel que é pulverizada nas redes sociais. É um discurso misógino que extrapola o virtual e impacta diretamente na violência contra as mulheres. É preciso um olhar atento e, sobretudo, rápido.
O estado de São Paulo registrou recorde de feminicídios em 2025, desde o início da série histórica em 2018. É um sintoma desse cenário?
Estamos vivendo um período crítico. É uma epidemia de violência contra as mulheres. O feminicídio é o ápice, mas há uma série de outras violências por trás. E temos uma fragilidade na proteção dessas vítimas referente aos mecanismos de fiscalização. Estou debruçada nesse tema há semanas para entender como fortalecer mais a legislação.
Deputada, quão hostil ainda é o campo político para as mulheres?
Mil por cento. Hoje, eu falei com um importante líder da direita ao telefone e ele fez uma brincadeira de que não entra em uma briga com uma mulher, porque sempre perde. Depois que eu desliguei o telefone, fiquei pensando que no campo da política isso não é algo verdadeiro. Porque lá, vamos ver os homens sempre truculentos. O exercício da política ainda é muito violento para as mulheres parlamentares, especialmente se ela é trans, negra ou indígena. Temos dificuldade de fazer política por conta disso, o que reflete na nossa legislação. Somente a palavra gênero num projeto de lei atrasa, retarda, impede de caminhar porque há um um ódio à ela, uma dificuldade de compreendê-la. Odeiam a nossa presença, mas mais do que isso, legislam o tempo todo para que a lei precarize a vida das mulheres fora do Parlamento também.
Sobre o projeto de lei pelo fim da escala 6×1, acredita que o alinhamento coordenado pelo presidente Hugo Motta vai permitir essa tramitação ainda no primeiro semestre?
A minha confiança está toda no alinhamento e nas palavras do presidente da Câmara. Eu estive com ele na semana passada, inclusive, para perguntar sobre a declaração dada pelo Antônio de Rueda (presidente do partido União Brasil) sobre impedir o fim da escala 6×1. O presidente me tranquilizou, disse que o projeto vai caminhar, que ele deve ser votado em maio, quer votar isso no mês do trabalhador. Agora, claro, é preciso ser vigilante porque o jogo da política muda o tempo todo.
Em 27 de fevereiro, a senhora acionou a PGR contra Nikolas Ferreira (PL-MG) por bloquear uma via durante os trabalhos de resgate em Minas Gerais. Não é o primeiro embate que tem com ele. Existe espaço para o diálogo institucional entre vocês?
É muito difícil pensar em um espaço de diálogo institucional com o deputado Nikolas. Não ignoro que a política precisa ser feita na base do diálogo, inclusive com nossos opositores, mas existe um limite. É o desrespeito, o ódio, o preconceito. A política tem que ser feita com seriedade. A política do Nikolas é uma política de espetáculo, da enganação, do ódio, movida pelos sentimentos mais asquerosos que adormecem no seio da sociedade.
Ano passado, a senhora se pronunciou contra as acusações que recebeu em relação a contratações de dois dos seus assessores. Como é lidar diariamente com esse tipo de polêmica, tendo uma atuação tão firme nas redes sociais?
É difícil. Eu pensei, dentro desse ambiente masculino que vivo no Parlamento: bom, se fosse qualquer um desses homens, isso jamais teria sido colocado em questão. Eles tentam desqualificar e desmerecer você, a sua equipe, as suas características físicas, porque não conseguem desqualificar o seu trabalho. É muito desgastante, porque isso demanda um tempo e uma energia que poderia estar sendo empenhada em outras frentes de atuação. Nesse caso, foi um processo vencido com decisão judicial, um arquivamento. Nós temos uma vitória pública e jurídica, porque eu não recuei em um milímetro, não me acovardei um segundo.
Deputada, quanto tempo acha que vamos levar para ter outra mulher presidente? Tem vontade de ser essa mulher?
Olha, eu ouço muito esse clamor. Brincam, comentam nas minhas redes sociais etc. Eu confesso que isso me chega com alegria, mas também com um certo espanto. Porque a maneira como o impeachment foi tramado, com os ataques misóginos, mostra o quanto o ódio às mulheres é um elemento profundamente forte na política. Eu acho que nós vamos demorar um tempo para ter uma nova mulher na Presidência. Temos que consolidar uma estrada. E eu ainda sou muito jovem, tenho uma trajetória muito longa pela frente, muito a aprender. Mas me sinto honrada de imaginar que um dia uma parcela da sociedade pode requerer uma mulher como eu ocupando um cargo como esse.
Publicado em VEJA São Paulo de 6 de março de 2026, edição nº 2985





