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Entre as acácias

Por Ivan Angelo 18 set 2009, 20h19 | Atualizado em 5 dez 2016, 19h44

Paciência, meu jovem: carreira de escritor – poeta, romancista, contista – no início é assim, sofrida e incerta. Nem é uma profissão; é, como se diz, uma atividade. Não há mercado, vagas, demanda. Há editores de livros que vêem até com alguma irritação essa coisa de gente tentando começar: eles buscam nomes famosos, sucessos, confissões picantes; no mínimo, procuram boas apostas, não riscos. Já os escritores querem… Que querem mesmo os escritores?

Publicar. Querem leitores. O problema é que os iniciantes começam sem eles. Alguns vão atrás de leitores especiais, escritores conhecidos (seus desconhecidos), na esperança de que os leiam, e recomendem, ou instruam.

Já passei por isso, mas não foi bem assim. Apenas um conto submeti a um leitor menos íntimo, escritor de outra confraria, velho freqüentador da mesma livraria. Não para pedir conselhos – ah, jovem confiado e topetudo! –, e sim pensando em assombrá-lo com um talento ainda irrevelado. Ele andou pendurado no meu braço por todo o quarteirão, voltas e voltas, inesgotável de conselhos… Estaria me paquerando? Por isso, nunca mais. Federico Fellini, em Os Boas-Vidas, mostra um velho ator cantando o candidato a autor que lhe levara originais para ler – foi um choque traumático para o jovem provinciano, personagem autobiográfico do diretor. Há devassos também entre as acácias.

Ao escrever “entre as acácias” estou citando o Carlos Drummond de Andrade de um divertido poema muito mal-humorado sobre o – como chamá-lo? – assédio autoral. Está em Viola de Bolso II. Os primeiros versos não fazem cerimônia: “Ah, não me tragam originais / para ler, para corrigir, para louvar / sobretudo, para louvar”. O poeta pede: “Poupem-me por favor ou por desprezo / se não querem poupar-me por amor”. Argumenta: “Nem sequer li os textos das pirâmides / os textos dos sarcófagos / estou atrasadíssimo nos gregos / não conheço os Anais de Assurbanipal, / como é que vou – / mancebos, / senhoritas / –chegar à poesia de vanguarda / e às glórias do 2000, que telefonam?”. Afinal: “Nunca pulei muro de jardim / para exigir do morador tranqüilo / a canonização do meu estilo”. E diz que os talentosos não precisam da sua ajuda: “Passam gênios talvez entre as acácias / sinto estátuas futuras se moldando / sem precisão de mim”. Lindo decassílabo: passam gênios talvez entre as acácias.

Um poeta amigo meu recebeu um dia uma poetinha tão extraordinariamente linda que a beleza dela contaminou os poemas, espalhou-se como melado pelos versos e adoçou a sua opinião. Comenta ele, hoje: “Nasceu mais um engano”. Drummond, em Passeios na Ilha, fala dessas obras visitantes e da situação delicada: “Finalmente há a hipótese de a obrinha ser boa, mas isso, que se saiba, nunca aconteceu em casos de visita domiciliar”.

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E não é coisa de hoje. Samuel Johnson (1709-1784), famoso pensador e literato inglês, devolveu o manuscrito a um jovem escritor com palavras cruéis que ficaram famosas: “Seu livro é bom e original. Infelizmente, a parte que é boa não é original, e a parte que é original não é boa”.

A mais encantadora das desculpas desses leitores relutantes foi dada pelo poeta gaúcho Mário Quintana a uma senhora que lhe estendeu um calhamaço datilografado para ler: “Leio, leio sim, minha querida. Mas ainda não li Goethe, não li Rilke, nem Schiller, nem Byron, nem Tasso. Todos esses estão na sua frente, está bem?”.

Você tem uma saída: o concurso literário. Os escritores do júri vão ter de ler o seu texto, sem escapatória. Em vez de um leitor, cinco! Com uma boa classificação, aparecem os editores. Mesmo aí, jovem, o insucesso não é definitivo. Até Guimarães Rosa perdeu concurso.

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