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Educar meninos é parte fundamental do combate à violência contra mulheres, diz psicanalista

Para Carolina Delboni, Brasil precisa investir em educação digital, sexual e de gênero

Por Laura Pereira Lima
5 mar 2026, 19h27 •
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Carolina Delboni, psicanalista especializada em adolescência (Acervo Pessoal/Reprodução)
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  • O recente caso de estupro coletivo de uma menina de 17 anos no Rio de Janeiro gerou indignação pública em todo o Brasil. O crime, que teria sido cometido por quatro jovens adultos e um adolescente, reacendeu o debate sobre violência sexual e cultura do estupro no país, que registra cerca de seis vítimas de feminicídio por dia e um estupro a cada seis minutos.

    A psicanalista Carolina Delboni defende que a solução para índices trágicos como esses está na educação dos meninos, ainda muito pressionados por expectativas de performance de gênero e sem acesso a um letramento de gênero, nem na escola e nem em casa.

    “Tem três coisas que vão andar juntas para combater esse cenário: educação digital, educação sexual e educação de gênero. Enquanto não entendermos isso, vamos continuar brigando com esses índices de violência e feminicídio”, afirma Delboni, que é formada em Pedagogia e Psicanálise do Adolescente e é mãe de Pedro, Lucas e Felipe.

    Quais são os problemas da educação dos meninos atualmente?

    Os meninos são e sempre foram educados para serem o estereótipo de homem; fortes, viris, másculos, para assumirem posições de controle e protegerem as mulheres. A gente educa de maneira inconsciente para uma masculinidade que não cabe mais no mundo, porque é uma masculinidade extremamente violenta.

    Na contramão, tem meninas e mulheres cada vez mais à frente dos seus direitos, dizendo que esse tipo de masculinidade não será mais tolerada. Tem meninos que estão olhando para isso pela primeira vez e não sabem o que fazer, porque de um lado, a cultura e a sociedade dizem que eles precisam desenvolver músculos e serem fortes, e do outro, dizem para eles que podem se emocionar, podem dançar, vestir o que quiserem. Os adolescentes estão procurando a identidade deles, tentando se achar no mundo e recebendo mensagens opostas dos dois lados.

    Na escola, há uma falta rodas de conversa, espaços para eles abrirem o pensamento deles, tirarem as dúvidas, se abrirem emocionalmente, sem serem julgados ou apontados como futuros homens violentos.

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    O que as escolas podem fazer?

    O que eu acho mais importante é educar meninos e meninas juntos.

    Os meninos precisam entender como o corpo das meninas funciona, o que é menstruação… Porque isso gera empatia, começa a quebrar um monte de camadas de julgamento e de pré-julgamento que temos na sociedade. Com isso, você aproxima meninos e meninas, e colabora para que as meninas consigam também se relacionar com os meninos de maneira mais aberta, entendendo que muitas vezes aquele menino também tá aprendendo junto com ela. Isso não justifica nenhuma violência, mas entender que ambos estão aprendendo, porque ambos estão em processo de formação.

    Outro coisa é ouvir esses meninos, em rodas de conversa, e explicar direitinho todos esses termos como machismo, misoginia, feminicídio, consentimento.

    Como falar com os meninos sem um tom acusatório?

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    A gente só vai mudar esse cenário de violência de gênero quando os meninos entenderem, em rodas de conversa, por exemplo, que quando falamos de machismo, não estamos tirando algo deles, não os estamos agredindo ou culpando de nada.

    Se a gente apontar o dedo para todos os meninos, e aí não digo homens, mas meninos, e dizer que todos eles são violentos, a gente não está dando a chance de uma mudança social.

    E dentro de casa?

    É provável que o conjunto dessas ações de políticas públicas com campanhas e a educação dentro das escolas acabe chegando nas famílias. Estamos falando de famílias que, assim como a sociedade de maneira geral, provavelmente não têm letramento de gênero. É preciso entender que essa violência de gênero, está na expressão da fala, no gesto, no comportamento, em coisas pequenas do cotidiano.

    Um homem que não sabe como funciona uma máquina de lavar louça ou uma máquina de lavar roupa é um traço do machismo, por exemplo. Dividir essas tarefas de maneira igual é essencial.

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    O que os pais e os homens ao redor daquele menino podem fazer para serem bons exemplos?

    Antes de tudo, os homens precisam procurar se letrar. Depois, é importante ter conversas muito abertas e honestas com os próprios filhos, de homens para meninos, entendendo que eles têm uma responsabilidade masculina dentro dessa casa, de cuidar, educar e transmitir esse conhecimento. Acho que os homens têm um papel muito importante de falar com esses meninos sobre consentimento, sobre respeito, sobre pornografia, sobre primeira relação sexual…

    Outro ponto é não reproduzir nas relações deles com os próprios amigos e familiares comportamentos machistas, como piadas com gênero. É preciso também mostrar para esses meninos que é possível estar vulnerável diante de uma situação e não perder a sua masculinidade.

    Como a educação dos meninos pode contribuir para um cenário menos desesperador para as mulheres?

    Ela é vital. Acho que tem três coisas que vão andar juntas para combater esse cenário: educação digital, educação sexual e educação de gênero. Enquanto a gente não entender que essas três coisas são vitais pra gente formar e e colocar no mundo de maneira respeitosa, gentil, meninos e meninas, a gente vai continuar brigando com dados e índices de violência e feminicídio.

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