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“O governo deveria nos manter fechados e pagar as contas”

Aos 74 anos, Edgard Radesca, fundador do Bourbon Street, fala sobre as dificuldades do setor de música ao vivo na cidade

Por Saulo Yassuda Atualizado em 23 mar 2021, 17h35 - Publicado em 19 mar 2021, 06h00

Aos 74 anos, o fundador da casa de espetáculos Bourbon Street, premiada quatro vezes por VEJA SÃO PAULO COMER & BEBER, e organizador de festivais como Bourbon Festival Paraty, fala sobre as monumentais dificuldades do setor da música ao vivo:

Qual é a situação do Bourbon Street?

Estamos em uma operação para desligar algumas geladeiras, passar produtos de uma para outra e diminuir a conta de energia (o empresário deu a entrevista do escritório do estabelecimento). Ficar ligado sem operação é muito ruim. Os produtos estragam. Chope vence imediatamente, há dois ou três barris que perdemos. O prejuízo total é enorme. Praticamente, não funcionaremos no mês de março, mas as contas continuam: impostos, folha de pagamento, energia… Só de IPTU são quase 8 000 reais mensais.

Por mais quanto tempo a casa conseguirá permanecer aberta?

Eu sou um otimista. Mesmo nessas circunstâncias, se eu for olhar o financeiro e as contas, diria quatro meses. Talvez cinco, sem nenhum aporte. Se conseguisse empréstimos, talvez mais um tempo. Estou em busca de patrocínio, do que chamo de patrocinador mecenas. Ele apoiaria uma casa que é um ícone da cidade durante a travessia desta segunda onda (da pandemia) e ganharia imediatamente um retorno institucional ao anunciar que vai apoiar. E, depois, continuaria como um patrocinador normal, com suas benesses.

Para a abertura do Bourbon Street, em 1993, o senhor e seus sócios na época fizeram uma vaquinha para trazer B.B. King para se apresentar e deu certo. Pretende fazer o mesmo para salvar o estabelecimento?

Esse é um outro caminho, que seria um crowdfunding. Mas estamos estabelecendo ainda como seriam essas cotas, possivelmente com valores maiores.

Precisou fazer muitas demissões?

Demiti quase toda a equipe de 38 pessoas no início da pandemia. A rescisão foi parcelada. Em outubro, retornamos às atividades com vinte e poucas, parte delas de antigos funcionários.

Como foi a recepção do público na reabertura, com horários alternativos e protocolos de segurança?

Antes da pandemia, trabalhávamos de terça a domingo. Voltamos de quinta a domingo. Com as restrições, fomos diminuindo os dias de funcionamento mais ainda e, na última fase, operávamos só de sábado e domingo. Reabrimos com novidades, com a casa repaginada e o Jazz Café, um espaço novo dentro do Bourbon. Abrimos as janelas, mudamos o ambiente e integramos o bar e o salão à rua. Não é só uma mudança de espaço físico, é de mindset, o que o Bourbon quer ser.

Como fica o setor na pós-pandemia?

Tem gente que aproveita não estar trabalhando e faz balada e vira difusor do coronavírus. Vemos um caso ou outro divulgado, mas há possivelmente trinta vezes mais. Esses são os crápulas, que não fazem isso para sua extrema sobrevivência, como aquele que tem de vender água no sinal porque não tem comida. Temos um problema cultural de falta de atenção ao outro. Para depois da pandemia, fica o show híbrido, a transmissão on-line, que gera um alcance. Você transmite apresentações que simultaneamente realiza no presencial. Continuam não só em casas de espetáculos, mas em festivais e eventos menores, mesmo que se tenha possibilidade de ser 100% presencial.

No Bourbon, já se apresentaram artistas como Ray Charles, Nina Simone e, mais recentemente, Gary Brown. Trazer ao Brasil artistas estrangeiros ficará ainda mais difícil?

Com esse câmbio, fica difícil. Se pensarmos, em 1994, quando entrou o real, ele valia mais que o dólar. Teve época que era 1 para 1, um sonho. Com o dólar a 6 para 1, temos um efeito para o Brasil que vai durar. Teremos atrações internacionais só pelo streaming ou por patrocínios, que estão cada vez mais difíceis. Você paga cachê, impostos do cachê, passagem, hospedagem, transporte, alimentação…

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“O Bourbon Street consegue permanecer aberto quatro meses. Talvez cinco, sem nenhum aporte. Estou em busca de patrocínio”

No Bourbon Street, há um lado gastronômico forte, mas o lugar também é uma casa de shows. Qual das duas áreas está mais em risco?

A música. Tem os pubs com música ao vivo que estão oscilando no funcionamento, conforme o abre e fecha. Vários fecharam. E tem os bares de jazz, que também são lugares menores. O Bona Casa de Música está vivo, tentando se manter. Você tem o All of Jazz, que é uma casa pequena e que abre conforme a dança. O Blue Note não está abrindo hoje, mas tem patrocínio.

Há os casos do Ó do Borogodó, que faz arrecadações para sobreviver, e da Casa do Mancha, que fechou.

O Ó do Borogodó é a casa do samba. Estão na luta. O Casa do Mancha não conheci. O dono era um cara legal, empreendedor, tenho muita simpatia. No Brasil, tenho certeza de que tem muita casa fechada. É uma pena, porque tanto os restaurantes quanto as casas de música ao vivo não tiveram suporte do governo, como no exterior. Deviam dizer para fecharmos, para não aglomerar nem ter transmissão do coronavírus, (e as autoridades) pagariam as contas com o auxílio. Isso aconteceu em vários países. Fechado, recebese uma ajuda que não vai deixar você rico, mas vai pagar suas contas. O governo federal fez uma linha de crédito, porém muita gente não conseguiu pegar empréstimo.

Existe união entre os empresários que comandam casas de música?

Os restaurantes, nos quais me incluo pela vertente da gastronomia, têm a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) e a ANR (Associação Nacional de Restaurantes). Há essas associações que estão tentando lutar pelos restaurantes. De donos de casa de música, tem grupos de WhatsApp. Não existe uma associação das casas, como poderia ter.

Como está a vida dos músicos?

Nas lives, há a possibilidade de tocar, mas nem todo mundo consegue. É uma classe que está muito sofrida. Há notícias de gente que está cozinhando ou costurando para fora, para trazer comida. Se é um músico com banda, que tem uma atividade regular, faz suas lives e tenta captar um dinheirinho pelo QR code. Teve no início da pandemia aquele boom das lives, mas hoje caiu muito a audiência, e a monetização para o músico cai junto. Eles estão apanhando muito. E não existe só o músico, tem o técnico de som, o roadie… É gente de teatro, de circo, toda uma atividade cultural espremida. Eles tiveram um respiro com a Lei Aldir Blanc, que irrigou diversos segmentos nos últimos meses.

O senhor tem quase trinta anos de serviços prestados à música. Durante a pandemia, pensou em se aposentar?

Não passa pela minha cabeça. Vou trabalhar até o último dia da minha vida. Trabalhar é vida e energia aplicada, é construção, é conhecimento que você passa.

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Publicado em VEJA São Paulo de 24 de março de 2021, edição nº 2730

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