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Presentes da discórdia

Por Mário Viana 10 jun 2016, 20h31 | Atualizado em 4 set 2025, 18h12
Crônica: presentes da discórdia
Crônica: presentes da discórdia ( Attilio/)
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Entre os comerciantes, 26 de dezembro é o dia mundial da troca de presentes. Tamanho errado, gosto duvidoso, livro repetido, tudo justifica a troca. Não li nada sobre as estatísticasde outras datas comemorativas, mas deduzo que o Dia dos Pais também esteja na lista dos mais trocáveis. Gravatas, meias e cuecas com figura do Homer Simpson são devolvidas em profusão. Ou, pelo menos, deveriam ser.

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Dia das Mães — é até feio reconhecer — é outra data que deve render muitos escambos, já que muita gente nem imagina que número de sapato calça aquela que lhe deu a vida. Agora, a única ocasião em que o mínimo deslize na hora do presente se torna crime inafiançável é o Dia dos Namorados.

Errar no presente para a fofa ou o fofo pode resultar numa dor de cabeça por muitos e muitos anos. Décadas, talvez. Em meio aos festejos das bodas de ouro, ela vai abrir o vidro de remédio para pressão e comentar com os netos: “O Adalberto nunca acertou meu número. Teve um 12 de Junho em que ele me deu uma blusa GG. Eu era P!”. É melhor não contestar. Muito menos lembrar que, atualmente, a blusa GG cairia como uma luva.

Ganhar presente “errado” no Dia dos Namorados realmente é bem chato. Não dá para disfarçar o desapontamento: “Será que ela pensa que eu gosto mesmo de charuto cubano? Eu sofro de asma!”. No caso de roupa para a namorada, a questão é ainda mais delicada. Se você dá um número grande, isso vai ser interpretado como “ele acha que euestou um hipopótamo!”. Se der P e não servir, pior ainda. “Meu Deus, eu estou um hipopótamo!”

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Vamos partir do princípio de que os ofendidos têm razão. Namorados já desfrutam certa intimidade, mais que aquelaentre pai e filho, por exemplo. Alguns casais já saboreavama tal intimidade antes mesmo de namorar oficialmente. Um presente mal dado equivale a fazer gol contra na final do campeonato — e sair comemorando.

Na verdade, presentear é quase uma ciência. Pressupõe aguçado senso de observação, sensibilidade para escolher o regalo certo e criatividade, para não dar nada repetido — livro da moda é um clássico de presente trocável. Uma vez dei um uísque caríssimo como presente de casamento para noivos de uma religião que proibia o álcool. Só descobri na festa, em que serviram apenas guaraná. Sem gelo.

É claro que ninguém consegue saber tudo: enquanto eu não tenho a menor intimidade com a bola, certos craques do gramado só encontraram a língua portuguesa rapidamente em um churrasco na praia. Assim também há pessoas que simplesmente não sabem comprar nada. Pense em quantos homens você conhece que não sabem o tamanho da própria cueca (neste momento, todos os homens que me leem devem ter feito uma pausa e pensado: “Que tamanho eu uso mesmo?”).

Também não aconselho adaptar presentes — aquele suéter comprado para o namorado anterior cairia bem no atual, caso este gostasse de peças em cores cítricas. Não gosta. Tenho um amigo (vamos chamá-lo de Américo) que compra produtos genéricos ao longo do ano: pijamas, camisas, louças, tudo o que ele encontra em oferta e que pode agradar a algum aniversariante no futuro. Quando chega a ocasião, Américo corre ao armário e saca de lá um presente. Sempre dá certo com ele, mas não se anime. O método, que pode ser prático para agradar a amigos, não funcionaem caso de namorados. Nem tente.

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