O tio do pavê

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Ele faz parte do imaginário popular em qualquer festa de família. No fim do ano, é presença mais que garantida, espremido entre a árvore iluminada, os restos do peru devorado com farofa e algum enfeite do tipo Rudolf, a rena do nariz vermelho. O fim da ceia e a entrada da sobremesa são o seu grande momento, o seu discurso de agradecimento pelo Oscar recebido. O tio do pavê ataca sem dó nem piedade, sacudindo como um porta-bandeira a mais infame das piadas. O pavê não chega à mesa impunemente.

Como surge um tio do pavê? A ciência, que já conseguiu filmar até nascimento de estrela no universo infinito, desconhece a gênese do personagem. O tio do pavê surge, manifesta- se, materializa-se. Escarafunchei as receitas e não encontrei nenhum ingrediente além de ovos, açúcar, manteiga, chocolate em pó, café e bolacha champanhe. Sei de gente que inova e coloca milho verde, coco ralado e bombom. Mais nada.

O tio do pavê entra por sua própria conta e risco. Às vezes eu me pergunto se ele existe fisicamente. Se é alguém palpável, que toma ônibus e vai ao mercado. Não seria insanidade pensar que o tio do pavê é apenas voz, uma frase única que se autoproclama, quase uma entidade mística. As ondas de ar movidas no trajeto geladeiramesa criam a tal piada besta, é isso.

A verdade, no entanto, é que o tio do pavê existe. É o tipo que pergunta ao sobrinho solteiro quando pretende se casar e que indaga dos casados quando vão sair da preguiça e finalmente ter filhos. Trata o exame de próstata como uma piada, de gosto bem duvidoso, e sempre grita para a mulher mais próxima da geladeira: “Me traz uma cerveja!”.

O mais curioso é que o tio do pavê é um elemento autônomo na estrutura familiar. Alguém conhece a mulher dele? É ela (ou ele, não vamos limitar o tio do pavê à conduta heteronormativa) quem certamente passa o ano inteiro preparando o doce e estimulando o companheiro à mais infame das piadas. Sim, o tio do pavê entra sempre no momento certo, nem antes nem depois. É o timing perfeito. Não queira nos convencer de que aquilo é improviso. Ele treina, treina duro.

Mesmo que seja casado, o tio do pavê aparentemente não teve herdeiros. Não se conhece nenhum caso de primo do pavê. Nunca se ouve depois da fatídica frase a reprimenda “Ai, pai, de novo?”, com o tom envergonhado que todo adolescente tem de qualquer pterodáctilo com mais de 18 anos.

Não resta dúvida de que o tio do pavê existe. Alucinações coletivas são bastante raras e não costumam ocorrer em todas as reuniões familiares do mundo cristão ocidental. Atualmente, o tio nem precisa de festas para dar alô para a parentada.

Qualquer grupo de família no WhatsApp tem o seu tio do pavê: é aquele que acorda antes do sol e se deita no último suspiro do dia, marcando cada instante com toneladas de posts fofinhos. O tio virtual do pavê tem uma interminável coleção de ursinhos fofos, coelhinhos meigos e frases de autoajuda, sempre colocando Deus, amor e vitória sobre os inimigos numa mesma sentença.

A única pergunta a que ninguém responde é: por que diabos ainda teimam em fazer pavê para a sobremesa?

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