Nós, os da esquerda

Confira a crônica da semana

Somos minoria, isso ninguém discute: apenas 10% da população mundial. Mas uma minoria de 760 milhões de pessoas espalhadas pelo planeta não é pouca coisa. E é importante lembrar que não se trata de opção. A pessoa nasce assim.

Há pelo menos um de nós em quase todas as famílias, das moderninhas às mais conservadoras. Podemos ser católicos ou evangélicos, orientais ou afrodescendentes. Ricos ou pobres, gordos ou magros. Homens, mulheres ou trans. Humanos, gatos ou cachorros. Onde você menos espera, há um canhoto em ação.

Em geral, a rotina de um canhoto transcorre sob certa normalidade até que a pessoa precise escrever bilhete ou chutar bola. “Você é canhoto!”, dirá alguém, como se a informação mudasse o rumo da humanidade.

“Sua mão sempre encobre o que você escreve?”, perguntam. Sim. No mundo ocidental, escreve-se da esquerda para a direita. Nos tempos da caneta-tinteiro, nossa mão esquerda ficava imunda ao fim de cada frase. A tecnologia nos igualou: ninguém é destro ao escrever no smartphone.

Quando eu era criança, em meados do século passado, houve um zum-zum-zum na família ao descobrir um canhoto infiltrado. “Ensina ele a escrever com a mão certa”, dizia uma tia toda vez que botava os olhos em mim.

Por sorte, meus pais não se deixaram influenciar. A julgar pelos artigos que li depois, me livraram de traumas provocados pela mudança forçada de mão — se bem que minha prima Maria do Carmo é canhota, só escreve com a mão direita, porque a mãe obrigou, e não me parece muito fora da casinha.

Devo ter me livrado da conversão à direita graças ao Rivellino e ao Gérson, que brilhavam na seleção brasileira — e eram os canhotos mais famosos da praça. Os dois deram status aos irmãos de lateralidade. Mas não nos livramos do inferno de usar carteira escolar com bandejinha do lado direito ou sofrer para anotar as aulas nos cadernos universitários, com espirais enormes do lado esquerdo.

Abridor de latas e tesoura são vexames garantidos para os canhotos. Não dá para usar a mão esquerda e manter a classe abrindo qualquer coisa com um objeto desenhado para destros. Também é chato usar o computador de mesa dos outros — o mouse vai estar sempre do lado errado.

Canhotos orgulham-se de ter em suas fileiras gente como os roqueiros Bob Dylan e Eric Clapton, o humorista Jerry Seinfeld e os pintores Picasso, Munch e Michelangelo. Também fecham com a gente Julia Roberts, Tom Cruise, Charles Chaplin, Paul McCartney e Ringo Starr. Viram? Pelo menos metade dos Beatles era canhota. Engulam essa, destros.

A crônica original acabava aqui. Pena que esta seja a crônica final. Não fiz as contas, mas calculo ter escrito setenta colunas ao longo de três anos, rachando o condomínio com o grande Ivan Angelo, num espaço que já fora também de Marcos Rey, Walcyr Carrasco e Matthew Shirts. Colecionei assuntos e leitores, ouvi elogios e puxões de orelha. Coloquei tudo num pen-drive e apaguei a luz. Como escreveu Adoniran Barbosa, “minha mudança é tão pequena que cabe no bolso de trás”. Agora, sim, a crônica chegou ao fim.

Continuarei escrevendo no blog www.vianices.wordpress.com.

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