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Fica, vai ter bolo

Confira a crônica da semana

Por Mário Viana 19 jan 2018, 06h00

Meu pai chegou a São Paulo no ano do IV Centenário, 1954. Era solteiro, semialfabetizado e tinha o sonho de um dia comer a tal da feijoada, de que já ouvira falar no interior de Pernambuco. Foi nesta cidade que ele lançou, há 64 anos, a pedra fundamental dos Viana de Araújo, um principado plebeu sem cofre nem coroa, limitado inicialmente aos confins da Zona Norte.

Para nós — meus primos, meu irmão, eu e os outros tantos filhos de migrantes e imigrantes —, São Paulo sempre foi um reino a conquistar. Até hoje, penso que é assim. Vivemos numa cidade que tem tudo, mas não dá nada de mão beijada. Sempre há uma fronteira a desbravar, seja no trabalho, seja na escola ou na rua. Viver em São Paulo é cruzar vários reinos ao longo do dia.

É possível passar a vida sem contato com outros universos dentro da cidade. Dá para crescer no mesmo bairro, trabalhar na vizinhança, casar-se com a figura legal da rua de cima e matricular os filhos na mesma escola em que você estudou. Quando as asas se abrem e você almeja outros ninhos, a coisa muda de figura.

Deve ser muito difícil ser preconceituoso numa cidade onde a visão de cada um é posta em xeque a todo instante. Embora ainda aconteça — ganhando status de notícia espalhafatosa —, não dá para se recusar a ser atendido por um balconista de uma etnia diferente da sua ou a receber instruções de um funcionário público trans. Guarde o espanto na caixinha de inutilidades.

São Paulo nunca vai ser o paraíso. O choque entre tantos mundos paralelos é constante e inevitável. Certamente será possível transformar tanto contraste em encontros de pura diplomacia. Doloroso mesmo é agasalhar sob o mesmo céu encoberto tantas desigualdades sociais.

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Na cidade mais rica da América do Sul, o número de moradores de rua seria suficiente para lotar um estádio olímpico. A quantidade de crianças pedindo moeda ou vendendo pano de prato é uma vergonha para qualquer autoridade da área social. Nossas vias vivem às escuras, o chão, cheio de buracos, e os parques, sem uma limpeza decente.

Não é moleza cuidar de uma cidade do tamanho de São Paulo. Também não é nada fácil morar na Zona Leste, trabalhar na Zona Sul e estudar na Zona Oeste, especialmente quando se depende de um transporte público caro, gigantesco e sucateado.

Os guerreiros urbanos de hoje são meninos e meninas cansados do corre-corre, mas decididos a viver com um mínimo de dignidade e conforto. São os mesmos sonhos do meu pai e dos outros que vieram com ele para a cidade que mais crescia no mundo. A vontade de uma vida melhor sempre cobra pedágio.

Reconhecer os problemas não significa rejeitar o berço. Paulistano, nativo ou não, abraça a cidade e tenta pelo menos dar um jeito no seu quintal. A gentileza começa dentro de casa e vai expandindo até a hora de juntar todo mundo para a festa de arromba.

São Paulo faz mais um aniversário e o arrasta-pé promete. A cantora do show principal não lhe agrada? Simples, não vá ao Anhangabaú. Escolha um parque, visite um museu, faça um churrasco com os amigos ou apenas fique em casa, lendo ou vendo TV. Tudo é festa no dia de São Paulo.

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