Acabou a saliência

Confira a crônica da semana

Os últimos confetes ainda esvoaçam por aí. Nas calçadas, restos de fantasias aguardam os garis. Encontramos brilhos de glitter em partes do corpo que, francamente, nem o capeta explica. É preciso aceitar a dura realidade: o Carnaval acabou. Bloquinho, só em 2019. Estamos, oficial e religiosamente, na Quaresma.

Para os menos ligados às tradições católicas, Quaresma é o período de quarenta dias que separa a Quarta-Feira de Cinzas da Paixão de Cristo. É uma espécie de rehab para as almas embaladas nas marchinhas picantes. Uma segunda chance, digamos assim.

Ao contrário do que acontece nos dias de Carnaval, não se vê ninguém pedindo dicas aos amigos sobre as melhores procissões da temporada, com as beatas mais gatas e os sacristãos mais sarados. Quaresma é coisa séria.

No circuito igreja-praça, você nunca encontrará o chefe vestido de Doroteia nem verá a vizinha fantasiada apenas de purpurina no alto de um trio elétrico. Ninguém sai atrás da imagem da padroeira cantando “Vai, malandra” — no máximo, dependendo do lugar, o pessoal grita “Que tiro foi esse?”, mas já correndo para se proteger. Musicalmente, o repertório da Quaresma é bem limitado.

Pelos preceitos cristãos, esses quarenta dias deveriam ser vividos em ritmo de reflexão. A pessoa aproveitaria para zerar as saliências, torcendo para que nenhuma câmera de segurança tenha registrado aquele bloquinho em especial. E rezando para que as farras não tenham dado fruto.

Minha mãe contava que meu avô, pai dela, comerciante no interior do Nordeste, passava a Quaresma toda sem tocar em dinheiro — e nem existia cartão de débito naquela época. Era tudo na base da confiança. Essa parte da fé caducou por falta de uso.

Hoje em dia, pouco se mantém das atitudes contidas. Carne, por exemplo, não sai do cardápio de muita gente. No máximo, troca-se filé por bacalhau na Sexta-Feira Santa. Deus teria de relevar muita coisa se resolvesse fazer a chamada para o Juízo Final.

Na verdade, a Quaresma nem sempre teve tanto peso. Até o século IV, os cristãos dedicavam apenas os três dias anteriores à Sexta-Feira Santa a orações e jejuns. Foi só a partir do ano 350 que as autoridades religiosas estenderam o prazo para quarenta dias.

Numa época em que um homem de 30 anos atualizava o status para Velho Sábio da Montanha, quarenta dias devia ser realmente um tempo considerável. Talvez por isso a Bíblia e, por tabela, os católicos apostam firme no 40.

Jesus passou quarenta dias no deserto, meditando e sendo tentado pelo demônio. Foi a mesma quantidade de dias que durou o dilúvio do Noé. Quando fugiram do Egito, os judeus vagaram quarenta anos pelo deserto em busca da Terra Prometida, conduzidos por Moisés, o pior guia de turismo da história. Este, por sua vez, ficou quarenta dias no Monte Sinai fazendo o download dos Dez Mandamentos.

Hoje em dia, as pessoas passam a Quaresma pensando onde aproveitar o feriadão da Semana Santa. Quem tem filhos ou está de namoro novo ainda cogita comprar um ovo de Páscoa, mas a maioria quer mesmo é um amigo que tenha casa na praia — para emprestar, claro.

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