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Um amor assim

Confira a crônica da semana

Por Ivan Angelo
25 jan 2018, 06h00 • Atualizado em 25 jan 2018, 06h00
crônica um amor assim
 (Negreiros/Veja SP)
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  • Ninguém tem um amor assim. Não pede carro, não pede o último celular, não pede joia, não pede restaurante da moda, não pede bolsa Louis Vuitton — mas também não recusa. Levanta de madrugada para me levar um comprimido e um copo d’água. Leva meu cachorro para passear, um estouvado beagle fuçador, e não esquece aquele infame saquinho de recolher cocô na calçada. Um amor que chegou a pregar na geladeira, à guisa de lembrete e advertência, um ímã que diz em inglês “a princess never cooks” (uma princesa nunca cozinha), e daí que não frita um ovo nem um bife, mas, quando bate a larica, faz um brigadeiro espetacular.

    Ninguém tem um amor assim, que acaba todo dia e recomeça toda hora, me tira o sono e me faz dormir exausto, me tira do sério para dar risada e da alegria para o choro mais sentido, me põe nas nuvens e me joga na fossa, me encanta com suas artes e me irrita com seus apartes, sabe todas as músicas de cor e não se lembra de me dar recados, crê em coisas complicadas como milagres e não confia na coisa simples que é o amor, não acredita em alma penada mas acha que ali tem coisa, fala ao telefone apenas o necessário, como se fosse um homem — um amor tão contraditório que alguém chega a dizer: meu Deus.

    Nunca se queixou da espera na madrugada, pois dorme, santa. Um amor que pode dar a impressão de que é o amor verdadeiro, mas não, acho que é mania minha, ou eu não teria essa impressão de que, se acabar, eu morro.

    Ninguém tem um amor assim, obediente às ordens bíblicas: amai-vos um ao outro — e sobre, e sob, e entre, e pelo, e com, e, mais preposições houvesse, mais amor inventaria.

    O seu tanto recatada, mas quanta, quanta vontade de agradar, quanto perigo, como nas lagoas, lisas na superfície, redemoinhos invisíveis.

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    É de lua, alegre quase sempre, mas tristíssima às segundas-feiras. Pode ser de propósito, para eu redobrar meus cuidados, com medo de que numa segunda-feira dessas ela se desfaça no ar.

    Sabe uns carinhos mui safados.

    Um amor assim é mosca branca. Fala baixo nas situações mais estressantes, como conflito no trânsito, discussão com palmeirenses, rixa entre irmãos, expulsão de fura-fila, briga pelo lugar marcado no avião — e, no entanto, arma um barraco ruidoso a propósito de coisas insignificantes: por exemplo, uma negra bonita que olha para mim, pois sabe a amada de minha antiga queda pela beleza negra e de ancestrais deslizes em minha família nessa área. Mosca branca porque ela é fera executiva, tem um corpo que nem te conto, lábios de mel, cabelos negros como a asa da graúna, cinturinha de pilão, pernas esculturais, pés de fada, braços de bailarina, olhos de ressaca no mar, sorriso de pérolas, pele de pêssego e outras imagens desgastadas pela canção popular e pelos maus poetas do século passado.

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    Não é comum, admitam, um amor que não cobra, como é o meu; não cobra, bem entendido, uma pequena distração, o esquecimento de uma data, meu cansaço das sextas-feiras, prioridades, mas, ah, que furacão em caso de menosprezo, desatenção ou má palavra.

    Qual amor, como faz o meu, lhe passa o controle remoto da televisão assim que você se senta no sofá? E lhe cede a última panqueca no café da manhã? Acerta o relógio do seu carro no começo e no fim do horário de verão?

    Ninguém tem um amor assim.

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