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Dois aninhos

Confira a crônica da semana

Por Ivan Angelo 7 jul 2017, 17h14
Crônica – Dois aninhos
 (Negreiros/Veja SP)
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Carolina chega aos 2 anos e está assumindo novas e importantíssimas responsabilidades. a missão exige vontade, concentração, capacidade de renúncia a qualquer coisa que no justo momento se apresente como mais atraente. Largar uma coisa por outra é questão vital que se repete ao longo da vida — que se repetirá na dela, e é bom ir treinando. Essa renúncia tem mais significado do que abandonar um brinquedo para ir comer, ou deixar o desenho da Peppa para ir dormir; é largar coisas divertidas como essas para fazer algo que não lhe dará a satisfação física de comer ou de dormir, é trocar o prazeroso do momento por coisas vagas que passam a bulir em seu cerebrozinho, significando: conquista pessoal, vitória, crescimento, etapa vencida. Carol, minha Carolzinha de 2 anos, está aprendendo a fazer xixi e cocô sem aquela desatenção que a fralda facilita. Ela mesma começou a anunciar os eventos, sinal de que busca ajuda sobre o que fazer, indicação de que não consegue lidar sozinha com aquilo. a cômoda fralda tornou-se incômoda. nesse afã, as vitórias são comemoradas; os fracassos, minimizados. Ela cresce, entre umas e outros.

Para dar nome a esse momento delicado da vida dos bebês, usa-se agora o termo desfraldar. Já não me lembro como se dizia em outros tempos, acho que era “tirar a fralda”, que é a mesma coisa, com mais palavras. Desfraldar era, e é, alçar a bandeira no mastro; no dicionário, significa “soltar ao vento”. Faz sentido, quanto às bandeiras e aos bumbuns dos bebês.

Passado o momento, instituído o peniquinho ou a privadinha, haverá recaídas, lençóis terão de ser trocados na madrugada, muitas vezes o tempo será curto para o êxito daquela corrida até o lugar certo. Uma amiga minha viu a batalha da filha na madrugada estender-se até os 9 anos de idade. algo deu errado, no começo. Atenção, paciência, delicadeza, carinho previnem problemas.

Esse não é, entretanto, o único item na agenda diária apertadíssima de Carol, nem é o único importante.

Tantas coisas para aprender, ó céus! Tudo ao mesmo tempo, a vida não lhe dá folga! aprender a pular, como as crianças maiores que ela observa entre maravilhada e invejosa a saltitarem no pula-pula, e tenta, pesadinha, perninhas ineptas para o impulso, só o tórax sobe imitando voo; aprender a trepar sem errar o pé, naquele apalpar incerto procurando apoio; a segurar objetos com mãos mais certeiras, que os tornem úteis aos seus propósitos ou a suas descobertas; aprender a levar a colher à boca na posição mais adequada, que lhe dê o prêmio de uma boa colherada da sopa ou da comidinha; aprender a chupar bebidas pelo canudinho, como vê fazer adultos e crianças, só que em vez de chupar ela sopra, produzindo borbulhas, e tenta, tenta, até que um dia, oh surpresa, boca cheia demais, vazando; aprender a beber no copo sem entornar no peito, dificuldade de controlar a inclinação do copo e o volume do líquido que vem; aprender a soprar, seja para apagar velinha de bolo de aniversário, seja para fazer bolha de sabão; a pedalar o triciclo, aquele mistério dos pés que se revezam em pressão e relaxamento, o difícil é saber quando; aprender a encaixar coisas nas coisas, intrigada com o mistério das formas e dos tamanhos; e ela tem acima de tudo a trabalheira de a todo momento nos fazer entendê-la, obtusos que somos, tantas vezes incapazes de sacar que “nôia” é cenoura, “chêlo” é travesseiro, “becho” é berço, “cuio” é escuro, “chende” é acende a luz.

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Ela aprende, nos ensina e cresce; nós, com ela, aprendemos e crescemos.

ivan@abril.com.br

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