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Galanteios

Confira a crônica da semana

Por Ivan Angelo 9 mar 2018, 06h00 | Atualizado em 5 set 2025, 19h33
Crônica Galanteios Ivan Angelo
 (Negreiros/Veja SP)
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A argentina Susana, nossa acompanhante turística por Buenos Aires, linda, linda, ao lhe ser perguntado o que achava de um galanteio vindo de um desconhecido na rua — aquilo que os argentinos chamam de piropo, palavra ibérica comum ao espanhol e ao português, que o dicionário deles dá como lisonja, requiebro e o nosso dá como galanteio, elogio —, pois bem, para ela, o requiebro, mesmo con intención, se fosse criativo e não grosseiro, era bem-vindo, graça que podia consertar um dia torto.

Isso de galanteios é coisa antiga. O memorialista carioca Luís Edmundo, em O Rio de Janeiro do Meu Tempo, e esse tempo era o fim do século XIX e o começo do XX, fala das “gracinhas de rua” atiradas às moças, dá exemplos como este: “Tanta moça bonita e a minha mãe sem nora!”, e ainda diz que tais graças “já eram dos velhos tempos”. Machado de Assis, no conto A Inglesinha Barcelos, de 1894, põe a personagem a passear na rua com a mãe, e elas ouvem: “Que moça bonita! (…) Joaninha, em vez de corar, voltou-se para ver o autor do cumprimento”. Voltar-se já era assanhamento. Naqueles tempos respeitosos, o “cumprimento” corresponderia ao “linda!” de hoje.

Cada época tem seu estilo. Há muito saiu de moda a piscada de olho. A marchinha carnavalesca dos anos 1930 que fala “de tanto piscar o olho já ficou sem a pestana” nem seria entendida. A piscada de olho, ridícula hoje, buscava cumplicidade. O assobio, então, que atualmente rareia, mas que ainda se ouve, é a cafajestada insuperável. Já foi aceito, ou tolerado, ou engraçado, sei lá o quê. Era ouvi-lo na rua e os homens em volta procuravam com os olhos não o assobiador, mas o objeto dele, para não perderem o espetáculo. Não raro quem vinha de lá vislumbrava na deusa um sorriso de íntimo orgulho, que o assobiador não via porque ela já havia passado.

Houve a época do footing — que era ele senão a oferta e a procura de namoro organizadas em corredores de homens nas praças e avenidas, pelo meio dos quais moças de braços dados desfilavam recolhendo olhares e ditos? Era um jogo consentido; elas desfilavam para isso, para ouvir galanteios; havia limites no palavreado.

Hoje há um repúdio a qualquer palavra, mesmo inofensiva, que um homem dirija a uma mulher na rua. Cada época tem seus grilos. Uma pesquisa mais ou menos recente mostrou que 83% das mulheres não gostam de “cantadas” na rua — e ainda bem. Chega de grosseria, de cafajestada, de invasão, de baixaria! Fui procurar detalhes e topei com a lista de palavras mais comuns nas “cantadas” (ponho aspas porque acho a expressão inadequada), consideradas agressivas, ofensivas, invasoras do espaço da mulher na rua. A campeã, a mais ouvida: “Linda!”. Mais para baixo é que vinham “gostosa” e que tais. Uma pesquisadora explicou que é falácia chamar isso de elogio, mesmo o “linda”; é preconceito machista, é o homem dar-se ao direito de fazer o que quiser, é o primeiro passo de uma escalada: cantada, assédio, estupro. Ora.

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Expressão de incontido deslumbramento pode-se ter diante de uma obra de arte, uma flor, uma paisagem, um ipê florido, um lance esportivo — tudo o que nos surpreenda pela beleza —, e diante de um ser humano, não? Esse encantamento nem sempre é machismo; pode ser, mas nem sempre é expressão de poder masculino. Radicalismos são assim, erram o ponto, escapa-lhes a alma variada do homem.

Minha filha de 2 anos e meio é alvo de incontidos elogios na rua, de mulheres, de homens: “Linda!”; “Que olhos!”; “Que cabelos!”; “Ai, meu Deus, que graça!”. Quando ela tiver 20 anos, espero que o deslumbramento continue.

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