Espertinhos

Confira a crônica da semana

Por Ivan Angelo (ivan@abril.com.br)

Conheço uns meninos, e sei de outros, de palavra esperta, saídas engenhosas, ideias que surpreendem e divertem. Falo deles.

Semana Santa, a família assistia na TV ao julgamento de Jesus conduzido por Pôncio Pilatos. Quando chegou a parte da condenação à morte na cruz, narrada pelo evangelista João, “Jesus saiu carregando a sua cruz para o lugar chamado Calvário”, meu neto, 9 anos, perguntou com espanto: “Ele foi carregando a cruz?” “Foi.” “Pra morrer pregado nela?” “É.” “Fala sério.” “Foi carregando, cara.” “Caraca! Eu não carregava.”

Na sala de aula, a professora perguntou às crianças o que queriam ser quando crescessem. Polícia, médica, jogador, bailarina — era o que vinha nas respostas. Chegou a vez do meu sobrinho-neto, mineirinho, que adora ver desenhos na televisão: “Eu quero ser santo”. “Oh, Daniel, que diferente! E por quê?” “Pra ter superpoderes.”

No verão passado, deram um par de boias de piscina para os bracinhos da Duda, que ainda não sabia nadar. As figurinhas que ilustravam as boias, dos dois lados, eram o Hulk, o Thor, o Batman e o Wolverine. Alguém lamentou que não fossem princesas e comentou que aquelas eram boias de meninos, e ela: “Eu prefiro. Princesa não tem poderes”.

O pai, Álvaro, professor de filosofia, escritor, lia todas as noites uma historinha para a filha de 4 anos dormir, naquele tom aveludado que induz o sono. Uma noite, resolveu ler para ela um trecho do livro de filosofia que estava estudando, em alemão, e usou o mesmo tom de todas as noites. Quando fez uma pausa muito longa, a filhinha, meio dormindo, olhinhos fechados, murmurou: “E depois?”.

Vivemos tempos mais lógicos, menos mágicos. Minha vizinha lia para o filho a história dos três porquinhos, aqueles que constroem três casas para morar: o mais preguiçoso fez uma de palha, o do meio fez uma de madeira e o mais ajuizado fez de tijolos. Assediados pelo lobo, que pretendia devorá-los, correram para suas casas. Quando o lobo soprou, soprou e derrubou a primeira casa, a de palha, o garotinho interrompeu: “O segurança não tava lá?”.

O filho da Val, a diarista que me ajuda a tocar a vida, veio um dia ao meu apartamento. Tem 6 anos. Conheceu meu escritório e reparou na quantidade de coisas amontoadas — livros, caixote de brinquedos e bonecas da minha filha, mala de viagem, chapéus, caixas diversas, carrinho da Disney, cadeira com roupas, mesa, papelada, lâmpada de pé. Talvez por ver na TV filmes de ambiente americano, diz para as pessoas que na minha casa tem um sótão.

O avô português do fotógrafo Paulo Leite mandou fincar um mastro na frente da sua casa, em Inhaúma, Rio de Janeiro, para hastear a bandeira no Dia da Independência. Não sabia cantar o complicado Hino Nacional Brasileiro e pediu ao neto de uns 10 anos que o cantasse. Ele também não sabia. “O que você sabe cantar?”, perguntou o avô. “Periquitinho Verde”, disse o neto. (É uma marchinha de Carnaval dos anos 30.) “Então canta.” O menino cantou, e a bandeira subiu com a voz miúda dele entoando : “Meu periquitinho verde, / tire a sorte, por favor, / que eu quero resolver este caso de amor / pois se eu não caso / nesse caso eu vou morrer”.

Observo dois meninos de uns 5 anos brincando separados no parquinho do clube Alto de Pinheiros. Um deles, loirinho, usando quipá, aproxima-se do outro: “Oi, eu sou judeu.” O outro olha indeciso, talvez rolando a palavra desconhecida no seu banquinho de dados, e se sai com esta: “Eu sou menino”.

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