Youtubers mirins cobram até 5 000 reais por ‘review’ de boneca

Com brincadeiras, desafios, tutoriais e receitas, elas chegam a conquistar 100 000 novos inscritos a cada mês em seus canais de vídeos

À primeira vista, Letícia Pestana, de 8 anos, possui uma rotina parecida à das meninas de sua idade. Além de frequentar a escola em Moema, bairro em que também mora, vai às aulas de natação, balé e música e tem as princesas da Disney entre suas maiores paixões.

Mas as semelhanças param por aí: atualmente, ela é um dos maiores sucessos mirins do país no YouTube. Tudo o que faz no dia a dia (tomar o café da manhã, passear no parque ou desembalar um presente) é publicado no espaço, batizado de Canal da Lelê.

O conteúdo rende milhares de cliques e também algum dinheiro. A receita do trabalho financiou duas viagens à Disney, a dela e a da mãe, a bióloga Fabiana Barbosa, que é também a principal incentivadora do negócio. “A história da minha filha começou de maneira bem informal e acabou crescendo”, conta.

Letícia, do Canal da Lelê, com a mãe: cerca de 300 milhões de visualizações (Foto: Leo Martins) (/)

Em 2014, um clipe no qual a garota canta Let it Go em versão aportuguesada viralizou. Até hoje, mais de 45 milhões de internautas viram a performance. No total, o endereço possui cerca de 700 000 inscritos e chega a quase 300 milhões de visualizações. As produções são gravadas pertinho de casa, em um estúdio alugado, com duas câmeras digitais.

A cada semana, saem de lá dois novos vídeos. Em vários deles aparecem brinquedos como as bonecas Baby Alive e Monster High. “Tudo é comprado por mim. Recusamos permutas com fabricantes e ainda não vendemos publicidade”, afirma Fabiana.

Outra youtuber precoce da cidade, Amanda Carvalho, 12, já foi reconhecida por fãs nos parques de Orlando. No seu Vida de Amy, com mais de 390 000 inscritos, um dos hits ultrapassou 3,5 milhões de visualizações. Trata-se de um vídeo trivial sobre os itens de maquiagem e outros adereços mantidos em sua penteadeira.

“Além de me divertir, procuro motivar outras crianças como eu, que têm alguma deficiência”, diz a garota, que mora no bairro da Casa Verde. Ela lida com a surdez nos dois ouvidos desde o nascimento, e a fala pausada, necessária para se apresentar, com dicção quase perfeita, é trabalho duro da mãe, a fonoaudióloga Sheila Carvalho, 42. “Fico feliz em ajudá-la, mas só gravamos nos fins de semana, para não atrapalhar o rendimento escolar.”

Também vem de uma parceria entre mãe e filha o Crescendo com Luluca, com mais de 450 000 seguidores e protagonizado por Luíza Sorrentino, 7. Tudo é feito na casa da família, na Vila Matilde. Ao lado de Marcele Lucon Ghelardi, 38, Luíza cria esquetes cômicos como o Rico versus Pobre, no qual interpreta a mesma situação na vida de pessoas com e sem dinheiro. “É só uma brincadeira para nos divertirmos, não é para discriminar ninguém”, avisa a menina.

Amanda, de Vida de Amy: reconhecida por fãs até em passeio na cidade de Orlando, nos Estados Unidos (Foto: Selmy Yassuda) (/)

Moradora de São Bernardo do Campo, Sarah Domingues Cuin, 6, do canal Sarinha, debutou na rede em 2014, ensinando a fazer bolinho de chuva. Hoje, além de receitas, exibe aos seus mais de 480 000 seguidores tutoriais, paródias e novelinhas criadas por ela com a ajuda da mãe, Taís Domingues, 37.

As gravações consomem cerca de três horas por semana. A menina também faz publicidade dentro e fora do canal. Um review de boneca, por exemplo, pode chegar a 5 000 reais.

Segundo Clarissa Orberg, gerente de parcerias do YouTube, os canais infantis foram potencializados em julho de 2016 com a chegada ao Brasil de um aplicativo da empresa que seleciona conteúdos específicos para crianças. “Os pais começaram a ter mais segurança, e isso ajudou a dar uma guinada na audiência”, diz.

Sarah, do Sarinha: de receitas a reviews patrocinados, que podem custar até 5 000 reais (Foto: Taís Domingues) (/)

Especialistas como a psicopedagoga Irene Maluf não aconselham que crianças com menos de 2 anos tenham contato com aparelhos eletrônicos e veem a atividade de youtuber mirim como uma brincadeira bastante arriscada. “É muita publicidade e, principalmente, exposição”, alerta. “Isso estimula sentimentos que não são positivos para os menores, como vaidade e ansiedade.”

Outra preocupação é como eles vão lidar com esse material no futuro. “A criança não tem limites, expõe-se sem filtros, na inocência. Quando tiver 20 anos, todo o registro na internet poderá vir a tornar-se motivo de vergonha”, completa Irene.

 

 

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s