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Antigos clubes sociais inovam para sair de crise financeira

Locais centenários como Circolo Italiano, Esperia, Homs, Spac e União Fraterna buscam atrair novos sócios, frequentadores e renda

Por Matheus Prado, Mariana Rosario - Atualizado em 26 abr 2019, 11h33 - Publicado em 26 abr 2019, 06h00

Outrora uma sede de bailes gloriosos da comunidade italiana em São Paulo, a União Fraterna não tem mais sócios suficientes para encher um micro-ônibus. “São apenas catorze, todos com mais de 70 anos, e dois estão na UTI”, conta o vice -presidente do clube, Luiz da Silva Júnior. O espaço já teria fechado as portas não fossem o tombamento do edifício da Rua Guaicurus, na Lapa, e a ajuda da iniciativa privada.

Outra tradicional agremiação instalada em um grande prédio envelhecido, o Piratininga também passa por maus bocados na Alameda Barros, em Santa Cecília: dos 5 000 sócios nos tempos áureos, restaram 250. “Muitos perderam o interesse, outros morreram mesmo”, explica Carmen Silvia Camargo, funcionária do clube há décadas. Existem casos mais graves de locais que encerraram as atividades por causa do sumiço dos frequentadores e da falta de dinheiro.

João Victor Fiori, presidente da comissão jovem; Daniela Policela, coordenadora do curso de italiano; André Scarpitta, gerente-geral; Giovanni Manassero, vice-presidente; e Norma Maradei, diretora social (a partir do alto à esq., em sentido horário): três gerações do Circolo Italiano Ricardo D'Angelo/Veja SP

Foi o que aconteceu com o Zahle Clube, que funcionava até este mês em um endereço do Paraíso. Com apenas dezenove sócios na carteira, a agremiação vendeu o terreno à incorporadora Tegra e estuda se voltará a operar. Algo semelhante havia ocorrido em 2012 com o Clube de Regatas Tietê, que, atolado em dívidas, acabou extinto depois que a prefeitura lhe tomou o terreno, até então em comodato, às margens do Rio Tietê. “Como não tinha dinheiro para pagar aos funcionários demitidos, o presidente distribuiu mesas de sinuca, geladeiras e outros itens do clube”, conta Wagner Carniato, gerente na época. Após décadas de jantares dançantes, matinês, festas de 15 anos e competições acirradas, assim como uma série de restrições elitistas, os clubes sociais e esportivos da capital passaram a enfrentar uma crise a partir de meados da década de 80. Um dos fatores que explicam o fenômeno é o aumento da oferta de lazer na cidade. Exemplo disso são as quinze das atuais dezenove unidades paulistanas do Sesc que surgiram após 1982.

Carmen Silvia em baile do Piratininga: voluntária há mais de trinta anos Ricardo D'Angelo/Veja SP

“Outra mudança ocorreu no formato de moradia da classe média; muitas famílias optaram por condomínios com áreas de esporte”, diz o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, José Roberto Geraldine Jr. A experiência estrangeira recente mostra que ainda há espaço para esse tipo de atividade. Clubes hypados como o britânico Soho oferecem casas (hospedagem, área de lazer e trabalho) em três continentes a seu seleto grupo de associados. Mesmo aqui, um punhado deles ainda esbanja sedes com milhares de metros quadrados, faturamento milionário, quadro de 40 000 sócios e títulos com valores superiores a 90 000 reais, caso de Pinheiros, Paulistano, Hebraica e Paineiras do Morumby. Quanto aos demais, submersos em problemas, só lhes resta reinventar-se para sobreviver. Nesse cenário, vale realizar promoções e arrendar parte do terreno. Confira as iniciativas adotadas por quem tenta driblar a crise no setor.

Circolo Italiano em 1930: baile de Carnaval lotado Divulgação/Divulgação

Festerê rentável

A União Fraterna vive de fachada, literalmente. Sem grande contribuição de sócios, o clube ficou atolado em dívidas e esteve perto de encerrar as atividades. Graças ao tombamento do prédio, com um icônico letreiro colorido, a gestão conseguiu em torno de 250 000 reais em recursos com a prefeitura para obras de emergência. Após a recuperação, diversos interessados têm aparecido para alugar o local. Os preços variam de 6 000 a 12 000 reais para festas de até 400 convidados. Não é o único a apostar nisso. Dono de um bem cuidado complexo aquático, o Juventus, na Mooca, depende de um concorrido salão de festas para fechar as contas. Com capacidade para cerca de 4 000 pessoas, o lugar recebe shows de artistas como Péricles e Wesley Safadão. São, em média, seis eventos ao mês, o que rende um faturamento aproximado de 180 000 reais. Outro pedaço de agitação que também garante dividendos extras ao clube é a boate com capacidade para 300 pessoas, localizada no prédio principal do complexo. Uma empresa organizadora de bailes paga 3 000 reais mensais para utilizar o espaço. “Lutamos com dificuldade, mas estamos controlados perto de outros clubes”, diz o presidente da organização, Domingos Sanches. Com uma dívida da ordem de 20 milhões de reais com a prefeitura, algo trivial entre os clubes, o Clube Piratininga também terceiriza os bailes realizados por ali até três vezes por semana. Apesar disso, a diretoria não tem muita esperança de reverter a situação de penúria se não conseguir ajuda. “Às vezes parece que estou aqui maquiando um defunto”, resume o presidente, João Guimaro.

Memorial do Spac: glórias do tempo de Charles Miller Alexandre Battibugli/Veja SP

Promoção de títulos

“Não perca essa oportunidade, associe-se ao Clube Atlético São Paulo (Spac)! Um oásis no coração de São Paulo”, convida um anúncio no site. Acostumada às filas de espera nas décadas de 80 e 90, a tradicional agremiação paulistana recorreu a uma liquidação para manter as cerca de 1 000 vagas disponíveis. Foram colocadas nas prateleiras duas levas de cinquenta unidades, com preço fixo de 15 000 reais e joia incluída. O valor é 8 000 reais mais barato do que o habitual e conseguiu render 75 novas adesões ao grupo, que tem sedes no bairro da Consolação e em Santo Amaro. Com gastos que superam 18 milhões de reais e receita de pouco mais de 19 milhões, a engrenagem funciona de forma apertada. “Ou você inova ou é melhor fechar, porque não paga as contas”, diz o empresário Francisco Graziano Neto, atual presidente. Em operação semelhante, o Juventus ofereceu 500 novos títulos remidos — isentos de mensalidade — que levaram a um ganho extra de 3 milhões de reais durante os anos de 2017 e 2018.

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União Fraterna: prédio com icônico letreiro colorido é tombado Vinicuis Langer Greter/Veja SP

Adeus a joia, título, bola preta…

Sede lotada em plena tarde de terça-feira. Não é o que se espera encontrar em um clube social com a imagem vinculada ao passado, mas é a realidade no Esperia. Para buscar um destino diferente do de seu vizinho Tietê, que sucumbiu à crise, a administração decidiu adotar uma medida drástica para se adequar aos novos tempos. Acabou com o sistema de cotas e implementou planos de curto e médio prazos para os associados. Existem versões de seis meses a dois anos de duração com mensalidades fixas entre 200 e 300 reais por pessoa mais uma única taxa de administração, na monta de 400 reais. Filhos de 10 a 17 anos pagam metade e os com menos de 9 anos têm isenção. O clube, que chegou a contar com mais de 20 000 sócios na década de 80, hoje conseguiu atingir o número de 8 000 pessoas a duras penas, após a adoção das novas medidas. “Mas ainda estamos longe do azul”, lamenta o presidente, Osmar Monteiro. No balanço apresentado pelo Esperia das receitas e despesas do ano de 2018, ficou registrado um déficit de mais de 2 milhões de reais.

Salão nobre no Circolo Italiano: das festas ao sumiço da colônia Ricardo D'Angelo/Veja SP

Cursos realmente abertos

Em sua origem, muitos clubes serviram para manter uma determinada comunidade mais unida. No Circolo Italiano, por exemplo, os imigrantes reuniam-se para matar a saudade da terra natal e relembrar suas tradições. Hoje, no entanto, a dinâmica mudou. Os sócios antigos debandaram, os encontros segmentados desapareceram e o espaço nobre no Edifício Itália está às moscas. Para piorar, o clube teve de se desfazer da sede de campo, na região do Morumbi, em 2014. De modo a transformar esse quadro, uma das soluções encontradas foi reviver as aulas do idioma nativo ministradas por ali em outros tempos. “É uma forma de manter a ‘italianidade’, mas sem necessariamente fazê- lo apenas para a comunidade italiana”, diz Daniela Policela, coordenadora do curso. Atividades do tipo surgiram ali na década de 50, mas eram oferecidas gratuitamente e apenas a sócios. Agora, as classes são abertas a qualquer paulistano e constituem uma das grandes fontes de receita, juntamente com o restaurante e o aluguel de espaços. Divididas entre os níveis básico e superior, além de conversação, as turmas contabilizam mais de 200 alunos. Os interessados devem desembolsar 1 450 reais por semestre, em cinco parcelas, com o material incluído. Instalado às margens da Represa de Guarapiranga, o Yacht Club Santo Amaro também passou a diversificar suas operações para não precisar levar a mensalidade às alturas. Funciona ali uma escola de vela para crianças não associadas (400 reais mensais) e adultos (800 reais mensais). Como atrativo, essa turma pode treinar no mesmo espaço utilizado pelos principais atletas profissionais do time.

Prédio original do Spac, na Consolação: fundado em 1888 Divulgação/Divulgação

Gestão profissional

Parte integrante dos problemas de sobrevivência, as “gestões associativas” também prejudicaram bastante as administrações. Essa é praticamente uma unanimidade entre os presidentes das agremiações. Além dos conflitos internos, a falta de transparência em relação aos gastos e investimentos tornou-se uma barreira na relação entre direção e sócios. Uma necessidade cada vez mais urgente é levar os clubes a funcionar como empresas. No Spac, por exemplo, o presidente Francisco Graziano Neto, eleito de forma tradicional, tem trabalhado como gestor profissional. Sua missão à frente da diretoria é renegociar contratos de fornecedores e enxugar a folha de pagamento. Em paralelo, ele passou também a publicar balanços financeiros, editais e atas de reunião no site do clube. Esse processo foi implementado em outras casas, como o Esperia. Trata-se de um modelo adotado por um “primo rico”, a Hebraica, que contratou um CEO e mesclou equipes associativas com profissionais. “O formato de cogestão potencializa uma governança democrática e ajuda a pôr na mesa tudo o que o sócio demanda”, diz o gestor Gabriel Milevsky.

Nacional Atlético: área ao lado de vagão do século XX virou bar Alexandre Battibugli/Veja SP

Terceirização dos espaços

Para o Nacional Atlético Clube, o terreno de mais de 80 000 metros quadrados na Barra Funda é seu maior patrimônio e um trunfo para não sucumbir aos efeitos do tempo. Parte da receita para manter o time de 1919 vem da terceirização de áreas para as escolinhas dos clubes europeus Barcelona e Paris Saint-Germain, essa última instalada neste ano. Juntas, as equipes desembolsam cerca de 30 000 reais mensais para usar dois campos de futebol durante a semana. Estrutura tradicional do clube, um vagão de trem reformado ganhou um bar terceirizado como vizinho. Uma estratégia mais agressiva de uso do complexo, no entanto, deve começar a ser implantada até 2021. “Queremos fazer um esquema parecido com o do Palmeiras e da WTorre”, diz o vice-presidente do Nacional, Edison Gallo, em referência à parceria que deu origem ao Allianz Parque. De acordo com ele, há interessados em instalar no lugar empreendimentos que vão de hospital a uma arena para shows. O complexo como se conhece hoje deve ser demolido. Só não entrarão na jogada o Estádio Nicolau Alayon e suas arquibancadas cobertas. Ambos são tombados pelo Conpresp, conselho municipal de preservação do patrimônio histórico, e não podem ser alterados. O Club Homs, na Avenida Paulista, também lucrou com a chegada de forasteiros. Por ali, dão expediente uma unidade da rede de academias Smart Fit e uma filial do restaurante Bovinu’s.

Festa no Tietê: aniversário do Esperia em 1932 Divulgação/Divulgação

Operação millennials

Outra preocupação constante no setor é o envelhecimento do quadro de associados, que não costumam deixar herdeiros interessados em seguir frequentando o espaço. Para atrair os mais jovens, o Club Homs passou a liberar a entrada dos netos de sócios de até 18 anos sem nenhum tipo de acréscimo na mensalidade. O regimento oficial garantia esse benefício apenas aos filhos. “O clube está envelhecido, estamos tentando trazer os jovens, senão vai acabar”, afirma o presidente, Walter Abib Abud. Outras ações, como a realização de festas e luaus, também foram apostas para rejuvenescer o quadro, mas não tiveram muito sucesso. Apesar de alguns jovens darem as caras em atividades esportivas, como o futebol durante a semana, os clientes mais assíduos do local continuam sendo os da terceira idade, que aproveitam a sala de carteado nos fins de semana. Um alento para a turma do Homs é que a captação dos jovens tem surtido efeito no Paineiras do Morumby, um dos mais ricos da metrópole. Por lá, a diminuição de taxas levou 600 filhos de sócios a voltar a frequentar o pedaço no último ano.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 1º de maio de 2019, edição nº 2632.

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