Cidade com mais centenários do Brasil, São Paulo tem ritmo acelerado de envelhecimento
Com 1 761 paulistanos acima de 100 anos, a capital paulista enfrenta debates sobre qualidade de vida na terceira idade
Levantar-se pela manhã, escovar os dentes e tomar café é rotina inegociável para Anízia Lima, que, aos 100 anos, vive de forma lúcida e ativa ao lado dos filhos Marinalva, 79, e Paulo, 83, em uma casa em Cidade Ademar, na Zona Sul. “Estou vivendo e quero ainda mais”, revela ao relembrar sua trajetória.
Somam-se a ela outros 1 761 paulistanos com um século ou mais de vida, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número impressionante é 82% maior em relação aos dados de 2010, quando a capital tinha 966 centenários.
Além de ser a cidade com mais pessoas nessa faixa etária no Brasil, São Paulo está em ritmo acelerado de envelhecimento: a chamada terceira idade representa 17,7% dos habitantes do município — superando o percentual de crianças até 14 anos (17,1%) e de jovens de 15 a 24 (13,7%) —, enquanto no cenário nacional os idosos formam15,6% do total de brasileiros.
As estatísticas refletem fatores como avanços nas tecnologias médicas, campanhas de vacinação em massa e ações de agentes comunitários de saúde. Para Rosa Marcucci, coordenadora da Área Técnica de Saúde da Pessoa Idosa da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), é necessário, no entanto, que a cidade esteja preparada para assegurar a longevidade com bem-estar não só biológico, mas também psíquico e social.
“O idoso precisa ser contemplado de modo multidimensional, com cuidados que ultrapassem o enfoque apenas clínico e envolvam a saúde mental e a manutenção das relações com a família e a vizinhança”, defende.
A iniciativa da rede municipal de saúde que tem se destacado na preservação da vitalidade sênior é o Programa Acompanhante de Idosos (PAI), laureado, inclusive, com o prêmio espanhol Boas Práticas 2022, da Fundación Pilares. Criado em 2008, o programa conta atualmente com setenta equipes regionais que prestam serviço domiciliar a pessoas idosas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, sobretudo as que apresentam exclusão social devido à insuficiência de suporte.
A assistência inclui apoio em atividades cotidianas, exercícios físicos e incentivo ao desenvolvimento pessoal. Com atendimentos semanais feitos por uma assistente social, dona Anízia e seus filhos integram os cerca de 8 200 idosos assistidos pelo PAI.
“Apesar das restrições de mobilidade inerentes à idade, nosso objetivo é trabalhar a prevenção do declínio físico e cognitivo. Elaboramos um projeto terapêutico singular para cada um, de forma a entender suas respectivas necessidades e resgatar suas potências”, explica Eliana Yoko Yagi, coordenadora do núcleo que acompanha a família.
A qualidade do envelhecimento pode ainda ser impactada por marcadores sociais que diferenciam essa faixa da população, como renda e condições de moradia. Um morador de Cidade Tiradentes, por exemplo, no extremo leste, vive em média 62 anos. Já no Alto de Pinheiros, bairro nobre da Zona Oeste, a expectativa de vida é de 82, de acordo com o Mapa da Desigualdade de São Paulo da Rede Nossa São Paulo.
Flavia Ranieri, arquiteta especializada em gerontologia, destaca a acessibilidade urbana como um dos pilares fundamentais para uma vida longeva estável e com menos riscos à segurança. “A arquitetura deve propiciar espaços adaptados para não romper a conexão do idoso com a cidade. Uma vez que ele deixa de frequentar um local por não conseguir usar as escadas, por exemplo, há uma completa segregação”, afirma.
Para ela, algumas medidas que tornam os espaços mais acessíveis são o calçamento adequado das vias para a utilização de serviços próximos, a ampla distribuição de banheiros públicos, bebedouros eficientes e lugares para sentar.
O isolamento causado por precariedades estruturais também implica prejuízos na vida social dos idosos. É o que sugere a psicóloga da área de envelhecimento humano Verônica Bohm: “A sociabilidade e a convivência intergeracional são aspectos cruciais na preservação da saúde, são estímulos cognitivos constantes”.
Publicado em VEJA São Paulo de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984.





