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Cheio de obras de arte, Cemitério da Consolação é o mais furtado da cidade

Necrópole concentra 22% de todas as ocorrências a estabelecimentos do tipo

Por Adriana Farias Atualizado em 13 abr 2018, 11h58 - Publicado em 13 abr 2018, 06h00

Considerado um museu a céu aberto, o Cemitério da Consolação, na via homônima, terá pouco a comemorar em agosto, quando completa 160 anos. Há quatro anos, o espaço detém o nada honroso título de necrópole mais saqueada da capital. Em 2017, foi alvo de 26 furtos e roubos – com até dez peças de bronze surrupiadas em cada um -, quase um quarto das ocorrências somadas em todos os 22 estabelecimentos públicos similares da cidade.

Trata-se de mais que o dobro dos casos registrados no ano anterior e do maior número desde 2010, quando essas estatísticas começaram a ser computadas pela Secretaria de Segurança Pública. Os dados foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

Túmulo de Monteiro Lobato: peças removidas Leo Martins/Veja SP

Um dos mais visitados do pedaço, o túmulo do escritor Monteiro Lobato ficou sem guirlanda nem portão após um furto em 2014. Do imponente mausoléu de três andares da família Matarazzo, o maior da América do Sul, levaram quatro placas e um jarro nos últimos três anos.

Mais recentemente, em fevereiro, a famosa estátua O Grande Anjo, de Victor Brecheret, chegou a perder os grampos que a prendiam no mármore, mas foi salva a tempo.

Até dono de jazigo se vê obrigado a correr atrás de criminosos, como aconteceu no começo do ano. “Eu vi o bandido levar várias placas de bronze, tentei persegui-lo, mas ele jogou a bolsa por cima do muro e fugiu”, conta o advogado José Roberto Bernardez, que sofreu um prejuízo de 50 000 reais com o sumiço de estátuas do túmulo de sua família. “O jeito foi colocar uma porta de madeira e placas de granito.”

Em 2014, a dona de casa Maria Helena Penteado teve de esconder um crucifixo de quase 1 metro dentro do túmulo do seu marido, pilhado pela terceira vez. “No dia 7 descobri que levaram mais dez placas”, lamenta.

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Acossados pelos roubos, os familiares pedem mais segurança. “Queremos policiamento fixo nas duas entradas e instalação de câmeras”, diz Francisco Machado, diretor do Movimento em Defesa do Cemitério da Consolação, que acionou o Ministério Público em 2016 para buscar uma solução.

Com 76 300 metros quadrados (cada m² é vendido hoje por quase 5 000 reais) e mais de 8 000 túmulos, o cemitério conta com apenas oito funcionários e não tem portaria nem câmeras de vigilância.

Os agentes da Guarda Civil Metropolitana, de dois a quatro por turno, também não dão conta da tarefa de fiscalização. “A iluminação à noite é muito ruim e dificulta o trabalho”, afirma o inspetor Carlos Alberto Caetano, comandante da área, responsável por seis prisões feitas ali desde janeiro.

No mesmo período, a Polícia Civil registrou cinco ocorrências e mapeou seis pontos propícios à roubalheira. Um deles fica na esquina da Rua da Consolação com a Rua Coronel José Eusébio, onde o muro tem menos de 1 metro de altura, pelo lado de dentro. Ali, os criminosos utilizam tábuas para deslizar objetos pesados para o lado de fora.

A dona de casa Maria Helena Penteado: crucifixo escondido dentro de túmulo do marido Leo Martins/Veja SP

“Jogaram até uma guirlanda de 200 quilos, que chegou a afundar o asfalto”, diz o delegado Julio Cesar Geraldo, do 4º DP. No mês passado, sua equipe deu início a investigações em desmanches e sites na internet para localizar os itens, sem sucesso ainda.

Por meio de nota, a Secretaria das Prefeituras Regionais, responsável pelo Serviço Funerário Municipal, informou que a última medida tomada no local foi a troca na administração, em junho de 2017. A pasta conta com a possibilidade de se livrar do problema, pois diz que o serviço deve melhorar apenas após a concessão dos cemitérios ao setor privado, um dos polêmicos planos da atual gestão municipal.

A questão é que o projeto de lei ainda não foi encaminhado à Câmara Municipal, pois está suspenso pelo Tribunal de Contas do Município desde setembro do ano passado devido a irregularidades.

O advogado José Roberto Bernardez, dono de um jazigo na necrópole: perseguiu homem em atitude suspeita que jogou mala com peças de bronze pelo muro e fugiu Léo Martins/Veja SP
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