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Os bastidores do restauro da Capela dos Aflitos: do relógio desaparecido aos achados arqueológicos

Símbolo da resistência negra e indígena na Liberdade, templo centenário ganhou restauro de R$ 3,2 milhões

Por Laura Pereira Lima 1 jul 2026, 17h24
Fachada de uma igreja branca com torre sineira e relógio, em rua estreita com prédios antigos e um carro branco com entulho no teto. Duas pessoas trabalham na entrada da igreja, que tem portões de vidro e metal. Um prédio verde com janelas gradeadas e grafites aparece à esquerda, e um prédio bege ao fundo
Capela dos Aflitos: templo de resistência negra e indígena (Leo Martins/Veja SP)
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É fácil atravessar a Liberdade sem perceber o que permanece escondido sob a paisagem, caracterizada pelas lanternas vermelhas, fachadas coloridas e restaurantes asiáticos que transformaram o bairro em um dos destinos mais visitados de São Paulo. Antes de se tornar símbolo da imigração japonesa, porém, a região foi marcada pela violência contra populações negras e indígenas escravizadas — e pela resistência dessas comunidades. Desse passado restam poucos vestígios, entre eles a Capela Nossa Senhora dos Aflitos, reaberta no último sábado (27), após quinze meses de restauro.

A capela foi construída em 1779 em um terreno próximo ao Cemitério dos Aflitos, onde eram enterradas pessoas marginalizadas pela sociedade da época — muitas delas vítimas da forca instalada na atual Praça da Liberdade. Mais de dois séculos depois, o tempo já deixava marcas profundas na construção quando o arquiteto Igor Carollo assumiu o projeto de restauração.

Originalmente, a construção foi erguida em taipa de pilão, um sistema composto por uma estrutura em madeira preenchida por terra úmida. Quando entra em contato com a água, a taipa de pilão começa a erodir, o que aumenta o risco de desabamento. “Um edifício em concreto armado tem um prazo de vida de 70, 80 anos. Essa capela tem quase 300 e está de pé, mesmo diante de toda a negligência da história. A taipa é muito duradoura, desde que esteja bem vedada”, explica o arquiteto e restaurador.

O problema era justamente a vedação. Em 1996, um incêndio danificou a cobertura da capela e, sem recursos para uma reconstrução definitiva, a comunidade instalou um telhado provisório, feito com tábuas finas de pinus e calhas mal dimensionadas. Durante o restauro, toda a cobertura foi refeita, assim como as instalações elétrica e hidráulica, a climatização e o sistema de combate ao incêndio.

Confira o antes e depois do restauro

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Em 2023 (Leo Martins/Veja SP)
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Em 2026 (luminárias foram retiradas após reivindicação do movimento negro e indígena) (Leo Martins/Veja SP)
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A intervenção alcançou ainda elementos históricos da construção. O piso de cerâmica, que havia perdido completamente o esmalte, foi substituído por réplicas; os sinos, sem funcionar havia mais de um século, foram desmontados e restaurados com a preservação de suas peças originais; e a fachada recuperou um relógio desaparecido desde a década de 1950. A nova peça reproduz um modelo identificado em uma fotografia de 1937 feita para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), um dos raros registros históricos.

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(Leo Martins/Veja SP)

“Como a capela não tem registros históricos, fomos usando os materiais como memória”, conta o arquiteto, que analisou marcações com logo de fábricas no piso de cerâmica e desmontou tijolos para encontrar a marca da olaria. Essa investigação foi revelando as diferentes intervenções feitas no edifício ao longo dos séculos. “Estruturalmente, ela é uma grande colcha de retalhos. Se caía um pedaço, subiam uma parede de tijolos, ou faziam uma taipa de mão, em vez da taipa de pilão”, explica Igor.

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(Leo Martins/Veja SP)
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Os vestígios da construção levaram à pergunta: o que, afinal, é o original? Em vez de buscar uma versão fiel à de 1779, a equipe optou por retirar apenas os elementos que comprometiam sua estrutura e preservar tudo o que carregava valor histórico e afetivo para seus frequentadores. “O que realmente faz o patrimônio ser o que é são as pessoas, a relação com a comunidade”, defende.

O próprio restaurador tem uma história pessoal com o local. O restauro da Capela dos Aflitos foi tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), defendido em 2019. “Minha avó sempre falava desse lugar. Ela o frequentava desde criança, levada pela mãe”, lembra.

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Igor Carollo: arquiteto e restaurados (Leo Martins/Veja SP)

Ao fim do trabalho, ele doou o projeto para a Arquidiocese de São Paulo, que administra a igreja. Os recursos para a obra só vieram em 2024, com a primeira edição do Programa de Ação Cultural (ProAC), do Governo de São Paulo, que disponibilizou R$ 2 milhões para a intervenção. Mais R$ 1,2 milhão foi repassado pela prefeitura. Ainda assim, o orçamento total não foi suficiente para restaurar todos os elementos da capela e o altar, com a representação de Nossa Senhora dos Aflitos, por exemplo, ainda aguarda financiamento.

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O restauro da capela é fruto de um movimento que ganhou força em 2018, quando uma obra no terreno vizinho revelou nove ossadas associadas ao antigo Cemitério dos Aflitos. O achado reacendeu uma discussão sobre a presença negra e indígena na Liberdade e deu origem a iniciativas como a União dos Amigos da Capela dos Aflitos (Unamca), que passou a reivindicar a preservação da construção. O debate ganhou ainda mais visibilidade naquele ano, quando a mudança do nome da estação de metrô para Japão-Liberdade levou a denúncias de apagamento da história negra e indígena no bairro.

“É quase um milagre a capela ter sobrevivido. Houve muita oração das rezadeiras e devoção ao Chaguinhas”, diz Wesley Vieira, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da Unamca. Chaguinhas, santo popular condenado à forca no século XIX, e lembrado por ter sobrevivido às três primeiras tentativas de execução, continua a ser venerado na capela. Segundo a tradição, foi ali que ele passou suas últimas horas antes de ser levado para ser enforcado.

As descobertas de 2018 mudaram a forma como o restauro foi conduzido. Diante da possibilidade de novos vestígios do antigo Cemitério dos Aflitos, a obra passou a contar com uma equipe de arqueologia, que escavou as fundações da capela e encontrou novos remanescentes humanos.

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Sítio arqueológico: escavações nortearam o restauro (Zanettini Arqueologia/Divulgação)
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No velório, foram identificados cinco sepultamentos preservados em seu contexto original. Já na sacristia, vieram à tona vestígios de oito ou nove indivíduos que, segundo Fabio Guaraldo, chefe do Centro de Arqueologia do Departamento de Patrimônio Histório (DPH) da prefeitura, provavelmente foram reenterrados anos após o sepultamento.

Além dos corpos, foram encontradas cerâmicas, colares de contas e uma bolota de argila, provavelmente associada a alguma oferenda. “O que esses novos achados permitiram descobrir é que, apesar de o cemitério ser um lugar onde se enterravam pessoas marginalizadas, elas não eram enterradas de qualquer jeito. Existia uma sociabilização, que envolvia ritualização e religiosidade”, explica Fabio Guaraldo.

O restauro terminou. A investigação sobre sua história, ao que parece, está apenas começando.

Publicado em VEJA São Paulo de 3 de julho de 2026, edição nº3002.

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