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Despoluição no Pinheiros: as novas ações que podem deixar o rio respirável novamente

Após vídeo que mostra cardume de peixes na região animar paulistanos, a Vejinha mergulha no projeto de limpeza para descobrir a viabilidade de revitalização

Por Pedro Carvalho Atualizado em 22 abr 2021, 19h07 - Publicado em 23 abr 2021, 06h00

Eram 8h20 da manhã do dia 7, uma quarta-feira de sol, quando Itamar Rodrigues, 56, diretor de geração da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), passou pela ciclofaixa do Rio Pinheiros e viu um cardume de tilápias próximo à margem, na altura do Parque do Povo. Ele sacou o celular e filmou a cena. Duas horas mais tarde, enviou o vídeo ao governador João Doria, que o postou nas redes sociais e conseguiu viralizá-lo. “Quem caminha por aqui todos os dias percebe a melhora das águas”, diz Rodrigues.

A imagem alvissareira empolgou não apenas o governador, mas milhares de paulistanos. Não deve, porém, ser tomada por aquilo que não é. Os peixes, na única hipótese plausível para os especialistas, vieram do lago do Parque Ibirapuera nadando pelo Córrego do Sapateiro, que deságua naquele ponto do Pinheiros. “A água desse córrego é limpa, por isso os peixes estavam próximos à foz, na tentativa de respirar. Caso se afastassem, muito provavelmente não sobreviveriam”, diz Gustavo Veronesi, coordenador do projeto Observando os Rios, da SOS Mata Atlântica.

De qualquer forma, é impossível ignorar a transformação que acontece no principal curso d’água que corta as zonas Sul e Oeste da cidade. O projeto de saneamento que pretende torná-lo “respirável” no segundo semestre de 2022, uma das principais bandeiras políticas de Doria, acaba de atingir a marca de 45% das ligações de esgoto feitas. Esse mutirão de saneamento nos bairros que formam a bacia do Rio Pinheiros, onde moram 3,3 milhões de pessoas, é o cerne da investida. Ao final, serão 532 000 endereços que deixarão de despejar esgoto nos 24 afluentes do rio — em vez disso, o material seguirá para tratamento na estação de Barueri.

Até o início do ano passado, 2 800 litros de esgoto eram lançados por segundo no Pinheiros. (Não se trata da vazão total de seus afluentes: é só a parcela desse fluxo composta de esgoto, mesmo.) O número já baixou para 1 800 litros. Ao final do projeto, calcula-se que serão pouco mais de 100 litros por segundo. “Sempre se soube que a única maneira de limpar o Pinheiros é parar de sujá-lo”, diz Benedito Braga, presidente da Sabesp — que ajudou a convencer o governador a apostar nessa solução, embora técnicos de seu entorno ainda sugerissem ideias cosméticas (e ineficazes) como a flotação de resíduos, técnica que consumiu 250 milhões de reais (em valores atuais) em gestões tucanas anteriores e deu em nada. A iniciativa em curso vai custar 2,3 bilhões de reais em dinheiro público ao longo de quatro anos.

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O principal mérito do projeto é ter mudado a maneira como o governo paga pelas obras de saneamento — a nova fórmula nunca tinha sido usada pela Sabesp em programas de maior porte. As cerca de quarenta empresas envolvidas no programa Novo Rio Pinheiros só recebem quando metas são atingidas, a saber: o esgoto tem de estar coletado e a qualidade da água deve ter melhorado. “Antes, o trabalho era pago por material usado e outros fatores. As empresas executavam a parte mais fácil dos serviços e, na hora de fazer as ligações porta a porta, enrolavam. Já tinham recebido o valor principal”, diz Marcos Penido, secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente do estado.

A fórmula acelerou um projeto que é mais amplo e está em andamento há décadas. O programa atual é parte do esforço de despoluição do Rio Tietê, lançado pelo estado de São Paulo em 1992 por ocasião da reunião de líderes globais daquele ano, a Eco-92. Na época, a região metropolitana da capital tratava 24% de seu esgoto. Hoje, são 83%. Além de turbinar a vontade das empresas, o atual governo concentrou as obras em uma única bacia, para revitalizar um importante rio a tempo das eleições seguintes, tentando derrotar a máxima de que obras de saneamento não rendem votos por ser “invisíveis”.

Afora as ligações de esgoto, o projeto fará cinco miniestações de tratamento em córregos de favelas onde não era possível conectar as moradias à rede — por se tratar de terrenos invadidos ou não regularizados. “O ideal seria terem feito um programa habitacional em paralelo. Teremos uma situação em que os córregos estarão sujos nas áreas pobres e a mesma água chegará limpa ao Pinheiros”, diz Veronesi, da SOS Mata Atlântica. “A crítica é justa”, concede Penido. “As unidades de tratamento são uma solução provisória. Pelo menos não usamos a questão como desculpa para não despoluir a bacia”, ele diz.

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Montagem com três imagens. À esquerda, homem retira uma bicicleta de uma margem do Rio Pinheiro em que há muita mata em volta. Na imagem à direita, um caminhão estacionado lotado de pneus em sua caçamba. Na última, margem do Rio Pinheiros com várias capivaras deitadas na grama.
Lixo que é levado pelas chuvas ao Pinheiros e algumas das oitenta capivaras detectadas nas margens Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente/Divulgação

A meta é que o Pinheiros, no fim de 2022, tenha um DBO (demanda bioquímica de oxigênio) abaixo de 30 miligramas por litro. Historicamente, o índice ficava próximo a 70. Se atingido o alvo, o rio não teria cheiro e a turbidez seria baixa. Teria a possibilidade de vida, mas não se espera que venha a ser coalhado de cardumes de tilápias tão cedo, para frustração de eventuais leitores-pescadores.

O valor de tal mudança na cidade seria incalculável. “Do ponto de vista dos imóveis da Marginal, seria uma valorização bem acima de 10%”, diz Martin Andres Jaco, CEO da BR Properties, que tem cerca de 200 000 metros quadrados de escritórios nas margens do rio, entre eles prédios icônicos como o “Robocop”, na região da Berrini. “O eixo já tem a maior concentração de escritórios ‘triple A’ (de luxo) e multinacionais da cidade”, ele afirma.

“A crítica (de que córregos seguirão sujos na periferia) é justa. Mas não foi desculpa para não despoluirmos o rio”, afirma secretário

Não é à toa que parte da iniciativa privada abraçou a revitalização. O exemplo mais evidente é o Parque Global, um megaprojeto imobiliário de 212 000 metros quadrados e valor total de vendas superior a 10 bilhões de reais, próximo ao Panamby (bairro onde as obras de saneamento, por sinal, encontraram prédios de luxo que jogavam o esgoto nos córregos para fugir da tarifa da Sabesp). Os sócios, junto a outros empresários, encamparam os custos de um novo parque linear entre as pontes João Dias e Cidade Jardim (na margem da USP), prometido para o fim deste ano. Terá uma estrutura parecida à da margem oposta, onde está a ciclofaixa que agora conta com cafés, quiosques de alimentação e pontos de convivência.

A iniciativa custará 30 milhões de reais e terá receita com publicidade. “É claro que valoriza muito o nosso negócio ter um ‘novo Ibirapuera’ em frente”, diz Adalberto Bueno Netto, presidente do grupo que constrói o Parque Global.

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Imagem vista de cima da ciclo faixa do Rio Pinheiros. Há ciclistas de capacete utilizando a pista em um dia com céu azul com apenas nuvens ao fundo
Melhorias na ciclofaixa: operação já é lucrativa Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente/Divulgação

A ajuda das empresas também revitalizou a ciclofaixa da margem leste (a da Berrini). Semanas antes do início da pandemia, o grupo Farah Service assumiu a gestão da área. O trato: a empresa paga a manutenção (à época, 200 000 reais por mês) e vende espaços publicitários. Um ano e várias melhorias depois, a operação já é ligeiramente lucrativa. “E olha que os gastos aumentaram para 300 000 por mês. Só de papel higiênico e limpeza, com que se gastava pouco mais de 1 000 reais, agora gastamos 12 000”, diz Michel Farah, à frente do grupo. Em março, 96 000 cidadãos pedalaram na ciclovia. Viram que, entre acertos e críticas, a solução para o Pinheiros nunca pareceu tão próxima.

“É claro que valoriza muito o nosso negócio ter um ‘novo Ibirapuera’ em frente”, diz Adalberto Bueno Netto, presidente do grupo que constrói o Parque Global

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Novas passagens

Apontada como o principal problema da ciclofaixa da Marginal, a falta de acessos deve ser atenuada com as passarelas do futuro parque linear da margem oeste (a da USP), prometido para o fim do ano.

Mapa das redondezas do Rio Pinheiros. Nele, há numerações do número 1 até 5, indo da da Ponte Cidade Jardim até o Parque Global, destacando os acessos, explicados na legenda abaixo.
Arte/Veja SP

1- Acesso ao parque do povo

A passarela que sai do Parque do Povo em direção à ciclofaixa será estendida para o outro lado do rio, de modo que os usuários possam acessar o futuro parque linear

2- Mirante

O parque linear prevê a instalação de um mirante sobre as águas do rio, com vista para a Ponte Estaiada

3- Nova vida à velha ponte

A antiga ponte perto do Morumbi Shopping com um simpático arco de concreto, há tempos sem uso, servirá para a passagem de bicicletas e pedestres entre as margens

4- Sobre a pista

O Parque Global, megaempreendimento imobiliário perto do Panamby, será ligado ao parque linear por uma passarela. Um estacionamento será emprestado, por ora, aos visitantes

5- Passagem flutuante

Talvez a novidade mais inusitada do futuro parque seja uma passarela flutuante, perto do Morumbi. Ela ainda depende de aprovações das autoridades para ser instalada. Teria uma abertura para a passagem de barcos

 

As tilápias famosas

Itamar Rodrigues (abaixo) gravou as cenas que circularam nas redes sociais, mostrando tilápias graúdas na região do Parque do Povo. “Vejo que os afluentes do Pinheiros estão mais limpos”, diz o funcionário da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae).

À esquerda, Itamar posa para a foto segurando um celular na horizontal e ao fundo está o Rio Pinheiros. À direita, a foto de Itamar com as tilápias no Rio Pinheiros, nadando na água.
Peixes no Pinheiros: Itamar (à esq) e a imagem das tilápias Alexandre Battibugli/Veja SP / Itamar rodrigues/Divulgação

 

Jantar sobre as águas

Uma das principais novidades prometidas para o Rio Pinheiros é a Usina SP, um projeto que deve ocupar o prédio e o entorno da atual Usina de Traição (ela seguirá funcionando para inverter o fluxo do rio e direcioná-lo à Represa Billings quando as chuvas encherem o leito). O prédio terá oito restaurantes no topo. Haverá elevadores dos dois lados, para permitir a travessia de pedestres entre as margens. No gramado onde hoje ficam as torres da subestação elétrica (na margem do Shopping Cidade Jardim), será feita uma área de bares e restaurantes junto à água. “É o único terreno ‘pé na areia’ do rio”, diz Thiago Nagib, sócio que está à frente do projeto. O grupo pagou 280 milhões de reais (mais parte dos lucros) pela área até 2042. A primeira fase está prometida para junho de 2022.

Montagem com quatro imagens. À esquerda, Nagib está de pé em uma ponte com capacete debaixo do braço e o Rio Pinheiros ao fundo.
Nagib e imagens projetadas da fachada da usina SP e da área gastronômica às margens do rio: “É o único terreno ‘pé na areia’ do Pinheiros” Divulgação/UsinaSP/ Alexandre Battibugli/Veja SP

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Publicado em VEJA São Paulo de 28 de abril de 2021, edição nº 2735

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