“Precisamos escutar e respeitar a fé alheia”, diz J.P. Cuenca, alvo de assédio judicial pela Igreja Universal
Escritor apresenta documentário na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e dá detalhes do próximo livro
Em junho de 2020, J.P. Cuenca leu uma notícia que o deixou furioso: o governo Jair Bolsonaro gastara mais de 30 milhões de reais em campanhas veiculadas em rádios e TVs de pastores aliados. Uma frase atribuída ao pároco francês Jean Meslier, de quase 300 anos antes, lhe veio como um raio: “O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”. Abriu o Twitter (hoje X) e fez sua releitura da frase, citando Bolsonaro e a Igreja Universal.
Apagou a postagem intempestiva poucos minutos depois, mas já era tarde demais. Primeiro vieram os ataques, as ameaças de morte e a demissão da emissora Deutsche Welle Brasil. Depois, os processos. Um, dois, dezenas. Consultar o próprio nome no JusBrasil virou rotina. A conta chegou a 144 ações movidas por pastores da Universal pelo país.
Da situação adversa nasceu 144 — Apocalipse Não, documentário em que Cuenca percorre as cinco regiões do Brasil, tentando dialogar com os autores das ações e investigar a fé dos moradores. O filme será exibido na 50ª Mostra de Cinema em São Paulo no sábado (24) e na terça (27).
A saga inspirou também a exposição 144 — Fim É o Nome do que Vem Antes do Começo, com mais de setenta obras criadas como proteção espiritual durante os anos de ameaças. Gratuita, a mostra abre no sábado (24), na galeria NND | AZECO, no centro, e segue até fevereiro de 2027.
Confira a entrevista:
Na sua opinião, por que aquele tweet provocou uma reação tão grande?
É muito curioso que esse jogo de palavras com uma frase iluminista dê tanto barulho 300 anos depois. A gente achava que o republicanismo e a Revolução Francesa tinham enterrado essa promiscuidade entre a Igreja e o Estado, mas isso está na ordem do dia. Só tentei fazer uma sátira um pouco raivosa do que eu estava vendo e vivendo naquele momento, mas parece que eu acertei no nervo. Era uma época em que a direita precisava de vítimas de esquerda, de pegar pessoas de esquerda em algum tipo de deslize. E naquela semana eu fui essa pessoa.
Por que apagou a postagem logo em seguida? Foi arrependimento?
Não. Apaguei porque vi que as pessoas não entendiam que aquilo era uma paráfrase satírica de uma metáfora, não um clamor à violência. Essa frase já foi satirizada milhares de vezes, inclusive por pessoas de direita. Só o Olavo de Carvalho já usou essa formulação umas três ou quatro vezes.
Como os 144 processos afetaram sua vida pessoal e profissional?
Primeiro, não consegui mais emprego na imprensa. Escrevia colunas para veículos desde os 25 anos. Nunca mais consegui. Outra consequência é a ameaça de você ter que gastar um dinheiro que você não tem, pagando indenizações. O total chegava a 3,5 milhões de reais. E você se vê nesse imbróglio jurídico, em que nem o Estado brasileiro, nem a Defensoria Pública brasileira pode defender. Até eu conseguir o apoio de uma ONG para estabelecer uma defesa, eu não estava conseguindo dormir.
Em que momento percebeu que poderia gerar um documentário?
Quando vi no JusBrasil que os processos começavam a se multiplicar em lugares muito distantes, entrei no Google Maps e comecei a andar pelas ruas dessas cidadezinhas pelo Google Street View. Aí me deu muita vontade de conhecer alguns desses lugares e de tentar conversar com essas pessoas, uma conversa de boa-fé, em que eu explicasse a metáfora e também ouvisse como é a vida deles. E, para satisfazer essa curiosidade, escrevi um projeto de filme. Durante as gravações, falamos com todo tipo de fiel e de pastor. Não no sentido confrontacional, porque não é um filme para comprar briga com os evangélicos ou para responder aos processos com agressão. Tampouco me interessava fazer um filme investigando a Universal. Me interessava fazer um filme de escuta.
Aprendeu algo conversando com pessoas de visões políticas e religiosas tão diferentes das suas?
Percebi que nós, do campo progressista, precisamos ouvir o que os evangélicos têm a dizer. Escutar e respeitar a fé alheia é um bom ponto de partida para conseguirmos recuperar algum meio de campo neste país, especialmente quando a fé é instrumentalizada pela política dessa maneira. Considerar que todos os evangélicos são iguais e desconsiderar a experiência mística de fé dessas pessoas é um erro político. Se nós não conversarmos e ouvirmos essas pessoas, estaremos entregando-as de bandeja. Existe um país em disputa e, para disputá-lo, vamos ter que aprender a ouvir, porque a democracia é um lugar de diálogo. Também percebi que o Brasil não tem 50% de fanáticos de extrema direita. As pessoas caem nesse voto por uma série de motivos.
Você percorreu diferentes cidades brasileiras durante as filmagens. Elas tinham algo em comum?
Em todas elas havia uma tragédia ecológica acontecendo. Atafona, no norte do estado do Rio de Janeiro, por exemplo, é uma região que está sendo engolida pelo mar. Ou a foz do Rio São Francisco, que está sendo assoreada e os moradores não conseguem mais pescar. As igrejas já estão falando de apocalipse o tempo inteiro. Entendi que essas pessoas acreditam na narrativa do apocalipse porque existe um apocalipse concreto ali.
O que o fez trocar o Rio por São Paulo?
Comecei a vir a trabalho e fui perdendo a vontade de voltar. Gostava da vida noturna, da música eletrônica, da comida, do teatro, dos shows. Achava tudo mais variado. Aí fui ficando. Me mudei para o Copan, para um apartamento minúsculo no 23º andar, onde não tem brises. A sensação era de estar flutuando sobre a cidade. Lá de cima, você vê até a serra, com todo tipo de experiência humana acontecendo diante dos seus olhos.
O que pode adiantar sobre seu novo livro?
É um livro de ficção, previsto para metade do ano que vem, em que há, justamente, personagens evangélicos. Também estou tentando, através do livro, criar uma outra forma de meditação sobre a fé. Me interessa olhar para esse fenômeno contemplando a dimensão da fé e o que está acontecendo na vida dessas pessoas.
O que explica o fato de nenhum escritor brasileiro ter recebido o Nobel de Literatura?
Não é por falta de qualidade. Acho que é uma questão de política literária. O português é uma língua marginal dentro do panorama literário e não houve nenhuma política de Estado eficiente para fazer esses autores chegarem lá fora. O Prêmio Nobel é política.
Publicado em VEJA São Paulo de 23 de outubro de 2026, edição nº3018







