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Tudo bem não gostar de crianças?

A resposta é não; entenda o que é o adultismo e como ele naturaliza a intolerância a uma camada da sociedade

Por Laura Pereira Lima
9 out 2025, 15h04 • Atualizado em 10 out 2025, 08h36
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Camila Zanellatto e o filho Pedro, de 5 anos: vítimas de preconceito etário (Agliberto Lima/Veja SP)
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  • Você certamente já ouviu a frase “Eu não gosto de criança”. Dita em contextos semelhantes a “eu não gosto de cachorro”, a frase passa com surpreendente naturalidade, confundindo-se com uma preferência pessoal. Deveria soar no mínimo estranho declarar abertamente intolerância contra um grupo de seres humanos que compõe 17% da população brasileira. Mas um bar de São Paulo chegou a instalar placas estampando dizeres como “Não odiamos crianças, é só a sua mesmo” — caso que chocou a internet em 2022 — e companhias aéreas estão criando áreas onde os pequenos são bem-vindos. No mesmo espírito de estabelecimentos “pet free”, espaços de convivência têm, cada vez mais, proibido a presença de crianças por “perturbarem” a paz dos demais frequentadores.

    Não deixa de ser uma espécie de etarismo — ou, mais precisamente, adultismo. “Imagina você entrar em um espaço que não aceita pessoas com mais de 60 anos. Seria considerado um absurdo”, compara a pedagoga especialista em primeira infância, Thaís Lefcadito. Segundo ela, nossa sociedade cria uma hierarquia baseada no nível de desenvolvimento e, a partir disso, coloca a infância como uma subcategoria humana, menos merecedora de direitos e respeito. “Parece que a criança só é conveniente até onde esbarra no bem- estar do adulto”, completa, citando que eventuais choros e dispersões são comportamentos naturais da faixa etária e devem ser tolerados pela sociedade — na medida em que ela é composta por sujeitos diversos e com necessidades diversas.

    O termo adultismo define justamente esse conjunto de comportamentos e atitudes que partem do pressuposto de que adultos são superiores aos mais jovens — o que gera um preconceito etário e os pressiona a agir de forma mais madura, enquanto os pais acabam sentindo a necessidade de reprimir esse lado infantil. Soa familiar? É o mesmo movimento que naturaliza a ideia de crianças e adolescentes agindo em descompasso com suas idades nas redes sociais — e que gera a tão falada adultização. “Nós somos uma sociedade que não permite que a criança aja como tal”, resume Mariana Zan, advogada do Instituto Alana.

    Quando não são literalmente barradas, as crianças — e, por consequência, os pais — sofrem com a falta de acessibilidade e de tolerância nesses espaços, o que inclui xingamentos e olhares acusatórios por parte dos outros presentes. “Elas são cidadãs que ainda precisam pedir desculpas por existirem, e isso afeta também os pais”, pontua Thaís.

    Camila Zanellatto sentiu isso na pele. A produtora de conteúdo da página Passeios Kids lembra de quando fez um tour guiado em Paranapiacaba com o filho Pedro, de 5 anos, e recebeu olhares acusatórios dos outros visitantes porque o menino estava disperso e brincando durante as explicações. “As pessoas me olhavam como se eu tivesse que contê-lo, mas ele não estava fazendo nada demais”, conta. Constrangidos, ela e o marido decidiram não terminar o trajeto. “E é sempre comigo. Meu marido estava lá o tempo todo, mas em nenhum momento o olharam feio”, lembra.

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    O relato de Camila escancara como a segregação da infância também é, no fim, uma exclusão das mulheres. “Considerando as características das famílias brasileiras, em que as redes de apoio são majoritariamente formadas por mulheres e o trabalho do cuidado é feito por mulheres negras, também estamos falando de segregá- las”, explica Mariana.

    Solange Nogueira, mãe de Joaquim, de 9 anos, também foi vítima dessa exclusão e até parou de frequentar restaurantes com o filho, que tem autismo nível 3. “As pessoas se incomodam, acham que a gente não deveria estar ali”, conta a mãe, que já foi expulsa de lojas e até agredida verbalmente em laboratórios de exames clínicos por causa do comportamento do menino. “Eu sempre sinto como se eu fosse a errada da história”, lamenta.

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    Solange e Joaquim, de 9 anos (Agliberto Lima/Veja SP)
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    A proibição de entrada de crianças em locais comuns não é prevista na lei. O que se pode fazer, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é limitar a presença delas desacompanhadas de um responsável em locais que podem ser inadequados, como estádios de futebol, festas com música alta e bares.

    O dever de prezar pelo bem-estar das crianças, diga-se, não é só dos pais. Na Constituição de 1988, no artigo 227, firmou-se como dever “da família, da sociedade e do Estado” colocá-las “a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. Essa missão conjunta é fundamental para preservá-las, afinal, são o futuro da humanidade. “A criança tem uma compreensão limitada do que acontece. Então, é muito fácil perpetuar padrões de violência, porque é raro que elas resistam ou se rebelem, como fazem outras minorias”, afirma Thaís.

    A escolha de não ter filhos é válida e importante, mas isso não justifica a opção de não conviver com elas — da mesma forma que não se pode escolher não conviver com idosos ou pessoas com deficiência, explica a pedagoga. “Se a gente aceita que uma pessoa fale que odeia crianças, em alguma medida a gente está aceitando uma sociedade violenta contra elas e adolescentes”, completa Mariana.

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    Publicado em VEJA São Paulo de 10 de outubro de 2025, edição nº2965.

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