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“2021 vai ser para a cultura um ano tão difícil quanto 2020”, diz Sérgio Sá Leitão

Secretário de Cultura e Economia Criativa do estado fala sobre os gargalos do setor, a vida digital do Museu da Língua Portuguesa e o fim do ProAC ICMS

Por Tatiane de Assis 19 fev 2021, 02h21

Quais são as perspectivas para o setor cultural em São Paulo em 2021?

Na nossa avaliação, no âmbito da produção cultural independente, vai ser um ano muito difícil. Tão difícil quanto foi 2020. Seguindo os apontamentos do estudo que fizemos com a FGV, a recuperação desse setor será lenta e gradual, de maneira que nós somente retomaremos o mesmo patamar de atividades e geração de PIB em meados de 2022.

2020 trouxe algum aprendizado?

A grande lição do ano passado foi a necessidade de interatividade no campo da cultura. Nós tivemos uma aceleração imensa desse processo de virtualização da oferta e do consumo de bens e serviços culturais.

Quais são os gargalos da cultura nos próximos doze meses?

Uma questão bastante séria é o financiamento da cultura. Como ainda estamos em um contexto de crise, há um grande refluxo geral no que diz respeito a patrocínios. Isso evidencia a importância do investimento público.

E a lentidão na vacinação?

É outro problema. Há atividades culturais que só voltarão quando nós tivermos 80% da população vacinada. Quando isso vai acontecer, no fim do ano, no começo de 2022? Nós não sabemos.

Há ainda outros obstáculos?

Outro ponto preocupante é o descaso absoluto em relação à cultura por parte do governo federal, que se materializa na interrupção do fluxo de investimentos, no caso do audiovisual, por parte da Ancine. No que diz respeito às demais áreas, há ausência total de programas de fomento por parte da Secretaria Especial da Cultura e pela paralisia da Lei Rouanet, que não tem a aprovação de nenhum projeto desde novembro do 2020.

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Pensando na necessidade de fomento estatal, por que suspender nos próximos três anos o ProAC ICMS (programa de estímulo paulista que funciona por meio de patrocínios incentivados e renúncia fiscal)?

Essa foi uma medida de política fiscal, não de política cultural, tomada com o intuito de cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal. Substituímos o ProAC ICMS, que é um incentivo, pelo ProAC direto, que vai ser feito com recursos orçamentários, que estarão no mesmo patamar do ano passado, 100 milhões de reais.

Foi apresentada representação no Ministério Público Estadual (MPE-SP) em que se levantava a suspeita de que a Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA) teria uma ligação próxima com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado por meio da contratação de empresas e pessoas próximas ao senhor, exemplo da diretora da APAA, Danielle Nigromonte. O senhor tinha alguma relação com ela?

Sim, eu a conheço, é uma profissional altamente gabaritada. Independentemente disso, o que importa é que o Ministério Público não instaurou o inquérito e arquivou a representação (que deve seguir para o Conselho Superior do MPE-SP para que o arquivamento seja confirmado ou não). O promotor foi taxativo na ausência de indícios mínimos que pudessem dar continuidade a uma investigação. Em toda a minha carreira, já trabalhei com mais de 20 000 pessoas. Considerando isso, nenhuma dessas pessoas poderá ser contratada por uma organização social que preste serviço para a secretaria?

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“Teremos no MIS Experience em 2022 uma grande exposição sobre Portinari, com 100% do conteúdo feito no Brasil e curadoria de Marcello Dantas”

Em uma carta pública, mais de 300 organizações sociais ligadas à cultura pedem mais diálogo com a secretaria. Como o senhor avalia essa reclamação?

Ela não procede. O que há aí, na minha opinião, são diferenças políticas. São pessoas ligadas ao PT e ao PSOL, partidos que fazem oposição ao governador de São Paulo. O que há são visões divergentes sobre política de cultura. A gente ouve, tenta ao máximo absorver as sugestões, mas, no fim das contas, um gestor público tem de tomar decisões. E toma decisões de acordo com as suas convicções e o programa de governo.

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Ambiente da mostra:
Ambiente da mostra: “Leonardo da Vinci – 500 Anos de um Gênio”, no MIS Experience, Divulgação/Divulgação

Museus internacionais têm cobrado por visitas virtuais. É possível vislumbrar algo parecido em museus do estado?

A princípio, não, porque nós encaramos essa virtualização como uma ampliação do grau de acesso da população a bens e serviços de qualidade.

E quanto à criação de uma visita virtual à exposição d’OSGEMEOS, há previsão?

É um projeto em andamento, nós já estamos trabalhando nisso. Fizemos algo nesse sentido na exposição sobre o Da Vinci, que está em cartaz no MIS Experience e que durante o fechamento da unidade ganhou uma versão virtual.

Sobre o MIS Experience, quando a produção de videomapping paulista e brasileira vai ocupar aquele espaço?

Nós teremos em 2022 uma grande exposição sobre Portinari, com 100% do conteúdo feito no Brasil, com curadoria de Marcello Dantas, mas não posso falar ainda o nome dos artistas que estão participando.

Quanto ao Museu da Língua Portuguesa, como será a presença dele no ambiente digital?

Não vamos ter uma visita virtual pelo prédio, mas a nossa primeira exposição temporária deve estar disponível on-line a partir de março, antes da abertura, que ocorre em 17 de julho.

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Publicado em VEJA São Paulo de 24 de fevereiro de 2021, edição nº 2726

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