Avatar do usuário logado
Usuário

1º Cartório de Notas existe desde 1740

O cartório guarda escrituras de imóveis, cidades e escravos

Por Sara Duarte 15 out 2009, 15h54 | Atualizado em 5 dez 2016, 19h07
1º Cartório de Notas existe desde 1740 Priorizar nos meus resultados Google

Visitar o 1º Cartório de Notas da Capital, em Santa Cecília, é como fazer uma viagem ao passado do estado. O estabelecimento pioneiro da então província de São Paulo foi fundado em 1740, pouco depois de um decreto imperial ordenar que as funções notariais, até então exclusivas da Igreja Católica, passassem a ser realizadas por tabeliães civis. Em seu cofre climatizado estão guardados 3.933 livros, boa parte deles preenchidos à mão. O titular aposentado Aldo Neves Godinho, de 84 anos, herdou o negócio de um tio. Começou como contínuo, aos 14 anos, e passou por todos os setores até adquirir experiência suficiente para se tornar notário. Ele ensinou o ofício ao filho, Aldinho, que se formou bacharel em direito para poder seguir a mesma carreira. Godinho, embora já não trabalhe, não passa um dia sem ir ao cartório. Sua neta Rachel desempenha as funções de escrivã. ‘O tabelionato é uma das carreiras mais bonitas que existem, pois ajuda a regular os direitos das pessoas’, diz o patriarca. ‘Por meio dos registros, garante-se que os acordos que regem a vida em sociedade sejam estritamente respeitados.’

Criado quase 180 anos antes do Código Civil, de 1916, o 1º Cartório de Notas tinha a função de tornar públicas as transações envolvendo propriedades — fossem casas, fazendas, terrenos, fábricas ou até mesmo escravos. Estão registradas ali, por exe¬mplo, as escrituras de fundação de cidades co¬¬mo Piracicaba e Campos do Jordão. Ou ainda doações de terrenos onde seriam construídos car¬¬tões-postais paulistanos como o Museu do Ipiranga e o Cemitério da Consolação. Até o início do século XX, toda escola que fosse erguida na capital tinha de ter um registro lá — caso do Colégio Mackenzie, instalado inicialmente na casa de um reverendo presbiteriano, no ano de 1862. Naquela época ainda havia escravidão no Brasil e, de acordo com a lei, transações de compra, venda ou alforria de escravos tinham de ser lavradas em escrituras no cartório. Por isso, registros como o da venda de ‘um escravo de canelas finas e com todos os dentes’ figuram ao lado de escrituras como a da fazenda Cumbica, em Guarulhos, que daria origem ao aeroporto de mesmo nome. Perso¬nali¬dades conhecidas se dirigiam para lá a fim de resolver assuntos do cotidiano. Em 1892, o pai do futuro inventor Alberto Santos Dumont assinou o documento de emancipação do filho, que estava de mudança para Paris. Em 1915, o conde Francisco Matarazzo, o mais célebre industrial da história do país, registrou a venda da Cia. de Fósforos Fiat Lux a uma empresa do Rio de Janeiro.

De lá para cá, o ramo dos cartórios se modernizou. As páginas preenchidas com bico de pena deram lugar a escrituras lavradas em computador. Aquele barulho constante de pessoas batendo carimbos também ficou no passado: hoje, o reconhecimento de firma é feito eletronicamente e uma etiqueta com código de barras substitui a assinatura do tabelião. Para recordar os velhos tempos, Aldo Godinho mantém em sua sala um testamento cerrado. Lavrado nos anos 20, o documento foi escrito à mão, costurado e lacrado com cera quente. ‘Ele permanece aqui fechado há mais de oitenta anos porque a pessoa que mandou fazê-lo provavelmente não comunicou essa decisão aos herdeiros’, conta o notário.

1º Cartório de Notas da Capital. Rua das Palmeiras, 353, Santa Cecília, 3667-6185. 9h/17h (seg. a sex.). https://www.primeirocartorio.com.br. Visitas de pesquisadores podem ser agendadas pelo e-mail rachel@primeirocartorio.com.br

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

Revista em Casa + Digital Completo
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Completo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 39,99/mês