Contra o pessimismo: o movimento que quer mudar nossa visão do futuro
O movimento de Marcelo Gleiser e experimentos sobre imagens de futuro mostram que o antídoto para a distopia é a esperança ativa
Faça um teste. Abra o celular agora e conte quantos minutos leva até topar com o fim do mundo. Uma enchente, uma guerra, uma inteligência artificial que vai roubar o seu emprego ou uma série que imagina 2040 como um deserto vigiado por drones. Não precisa de muito, o apocalipse cabe no polegar.
Quem trabalha com futuros conhece bem essas narrativas: nunca se falou tanto do amanhã, e nunca foi tão difícil imaginar um amanhã em que valha a pena morar. A distopia ocupou o imaginário coletivo com a eficiência de um algoritmo. Ela vende, engaja e sobretudo, paralisa. Por isso, me chamou a atenção uma proposta que o físico Marcelo Gleiser vem divulgando nas redes, batizada de Movimento MAD ou Movimento Anti Distópico.
A sigla não foi escolhida por acaso. Durante a Guerra Fria, MAD era a abreviação de Mutually Assured Destruction, a destruição mútua assegurada. A lógica era tão simples quanto aterradora: Estados Unidos e União Soviética acumulavam arsenais nucleares capazes de aniquilar um ao outro e, justamente por isso, nenhum dos dois atacava.
A paz se apoiava no medo, no que ficou conhecido como equilíbrio do terror. O termo foi cunhado em 1962 por Donald Brennan, estrategista do Hudson Institute, e a ironia era proposital: em inglês, mad quer dizer louco. Brennan queria expor a insanidade de uma segurança sustentada pela promessa do fim. Gleiser pega a mesma sigla e inverte o sinal.
Se durante décadas a humanidade se manteve unida pela ameaça de destruição mútua, o MAD que ele propõe aposta na construção de um futuro coletivo sustentado pelo encantamento, não pelo medo. E começa por gestos pequenos: largar o celular por algumas horas e voltar ao mundo físico, uma trilha, um jogo com os amigos, um pôr do sol que não precisa ir para o story. Reencontrar a natureza não como cenário, mas como origem. E olhar para o milagre cotidiano de estar vivo: um coração que bate cerca de 100 mil vezes por dia, bilhões de vezes ao longo de uma vida, sem que a gente precise pedir.
O que o MAD propõe, no fundo, é uma higiene do imaginário. E é aqui que quero me posicionar. O futuro é uma imagem antes de ser um fato. Nos anos 1950, o sociólogo holandês Fred Polak estudou a ascensão e a queda de civilizações e chegou a uma conclusão que me acompanha nos palcos até hoje: sociedades florescem enquanto sustentam imagens positivas de futuro e entram em declínio quando essas imagens se apagam.
Para Polak, o futuro é primeiro uma imagem, só depois ganha forma de realidade. Por muito tempo isso soou como intuição filosófica. Agora começa a ganhar laboratório. Em 2024, um grupo de pesquisadores franceses publicou na revista Global Environmental Psychology um experimento com 300 pessoas. Parte delas foi exposta a visões positivas de um futuro descarbonizado; outra parte, não.
Quem teve contato com um amanhã desejável passou a se sentir mais capaz de imaginar alternativas, ganhou confiança na eficácia coletiva, a sensação de que, juntos, conseguimos e demonstrou mais disposição para agir, sozinho e em grupo. O detalhe que mais me interessa: pouco importava se a visão apostava em tecnologia verde ou em sobriedade de consumo. O que mobilizava as pessoas era a simples exposição a um futuro possível de ser desejado. Há um experimento ainda mais literal sobre o poder das imagens.
O pesquisador Hal Hershfield, hoje na UCLA, colocou participantes diante de versões digitalmente envelhecidas de si mesmos, em realidade virtual. Ao encarar o próprio rosto na idade da aposentadoria, adultos em idade produtiva se dispuseram a destinar cerca de 33% mais do salário à poupança de longo prazo do que o grupo de controle. A explicação é bonita: tendemos a tratar o nosso eu do futuro como um estranho.
Quando ele ganha rosto, ganhamos vínculo e passamos a cuidar dele. Imagens de futuro não são enfeite, são infraestrutura de decisão.
Esperança não é otimismo
Mas há uma ressalva, e ela é o coração deste texto: imaginar não é fantasiar. A psicóloga Gabriele Oettingen, da Universidade de Nova York, mostrou que quem apenas sonha com o futuro ideal perde energia para alcançá-lo. O corpo relaxa como se já tivesse chegado. O antídoto para a distopia, portanto, não é a utopia açucarada. É o que a ecofilósofa Joanna Macy chama de esperança ativa: olhar a realidade de frente, nomear o futuro que desejamos e dar passos concretos nessa direção.
Esperança, nesse sentido, não é algo que se tem, é algo que se pratica. Como futurista mas também coach ontológica, aprendi que a linguagem não apenas descreve o mundo, ela o gera. As histórias que contamos sobre o futuro abrem ou fecham possibilidades de ação. Uma liderança que só fala em ameaças cria times em modo de sobrevivência. Uma sociedade que só consome distopias perde o vocabulário para desejar. Por isso defendo que imaginar futuros desejáveis é uma competência a ser treinada, como qualquer musculatura. Não para negar a crise, ela é real e está aqui. Mas para não entregar a ela o monopólio da imaginação.
Durante quarenta anos, o mundo dormiu sob um MAD que prometia o fim. Talvez seja hora de acordar para outro, que promete um começo. Isso é o que torna a proposta de Gleiser tão oportuna. Ela não pede que a gente feche os olhos para o mundo, pede que a gente abra os olhos para o mundo inteiro, inclusive para o que ainda funciona, encanta e pulsa.
O maravilhamento não é fuga, é um combustível. Então fica o convite. Esta semana, desligue o celular por algumas horas, olhe para o céu e repare no coração batendo. Ele está fazendo isso por você agora, enquanto você lê. E depois faça a seguinte pergunta: quais futuros eu quero ajudar a construir? Imaginar não resolve tudo. Mas, sem imaginação, nada começa.







