Cultura

Capital dos espetáculos

Megashows, filas para exposições, teatros lotados e polêmicas nas telas marcam nossa agenda há três décadas

Por: Dirceu Alves Jr.

Madonna - 1993
Musa pop: Madonna passou pela primeira vez na cidade em 1993 (Foto: Antonio Milena)

O furacão Madonna

Na época, a cantora americana não dava trégua. Vivia o auge com o álbum Erotica e o documentário Na Cama com Madonna, arrepiava os conservadores da Igreja e surpreendia em performances ousadas até os moderninhos, prontos para copiá-la.

Logo, a presença de Madonna já bastou para tocar fogo na cidade. A turnê The Girlie Show chegou ao Estádio do Morumbi em 3 de novembro de 1993, com um roteiro de dezesseis músicas em quase duas horas.

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A estrela trocou de roupa nove vezes, vestiu a camisa da seleção brasileira e usou seis pares de sapatos. Ela voltaria ainda outras duas vezes a São Paulo, em 2008 e 2012. Mas, paraos fãs, inclusive os mais ardorosos, nunca houve uma apresentação igual à da primeira vez.

Satisfaction na chuva

Levou mais de três décadas, mas, em 27 de janeiro de 1995, os ingleses do Rolling Stones finalmente pisaram em palco brasileiro. Sob fortíssima chuva, Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood invadiram a estrutura montada no Estádio do Pacaembu, no festival Hollywood Rock. A tempestade só deu trégua no bis, ao som de Jumpin’ Jack Flash.

Rolling Stones - 1995
Ron Wood e Mick Jagger no show de estreia dos Stones na cidade, em 1995 (Foto: Claudio Rossi)

O show do milênio

Os irlandeses do U2 tocaram no Estádio do Morumbi em 30 e 31 de janeiro de 1998. Marcada pela grandiosidade, a turnê PopMart esbanjou pirotecnia: Bono Vox dizia que era o“show do milênio”.

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O vocalista chegou à cidade com a garganta um tanto prejudicada por uma faringite, mas não negou fogo no palco. Pelo menos naquelas noites, mais de 150 000 pessoas concordaram com o ídolo.

U2 - Bono - PopMart
O vocalista do U2, Bono Vox, em apresentação na cidade em 1998: "show do milênio" (Foto: Evelson de Freitas/Folhapress)

Duas noites com o rei do pop

Em 1993, nos dias 15 e 17 de outubro, Michael Jackson trouxe ao Morumbi Dangerous World Tour, a primeira de suas turnês a chegar ao Brasil. Rebobinou clássicos e emocionou 200 000 fãs.

Por aqui, ficou hospedado no Sheraton Mofarrej (atual Tivoli São Paulo — Mofarrej), onde montou uma barraquinha de camping dentro da suíte de 750 metros quadrados do hotel para brincar com três crianças que, na época, o acompanhavam pelas viagens.

Michael Jackson - Morumbi
Rei do Pop: Michael Jackson durante show no Estádio do Morumbi, em 1993 (Foto: Marcos Rosa)

Eruditos e populares

Juntos pela primeira vez na América Latina, o italiano Luciano Pavarotti e os espanhóis Plácido Domingo e José Carreras cantaram no Estádio do Morumbi no fim da tarde de 22 de julho de 2000.

Como astros do pop, Os Três Tenores — o nome do trio — foram acompanhados por músicos da Orquestra Sinfônica Municipal e transitaram entre o clássico e o popular para uma plateia de 42 000 pessoas.

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O desfecho do concerto com Aquarela do Brasil levantou o público, e Plácido Domingo chegou a arriscar até alguns passos para testar o samba no pé.

Os Três Tenores
Domingo, Carreras e Pavarotti: exibição no Estádio do Morumbi, em 2000 (Foto: Divulgação)

João rouba a cena

Em 1999, São Paulo recebeu sua maior casa de espetáculos, o Credicard Hall, com capacidade para 7 000 pessoas. Na época, os hoje extintos Palace, Olympia e Via Funchal sediavam shows com ingressos disputadíssimos.

Para selar a festa, o exigente João Gilberto foi convidado a levar seu violão para a noite de gala, e mais de 4 000 vips enfrentaram a Marginal Pinheiros. O ícone da bossa nova mal entrou em cena e já reclamou do ar condicionado, logo depois do som e, por fim, da plateia barulhenta.

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Vaiado, mostrou a língua e, como uma criança birrenta, deixou o palco, fazendo com que a abertura do Credicard Hall, hoje Citibank Hall, entrasse para a história do showbiz nacional.

João Gilberto
Irreverente: João Gilberto se estranhou com o público na inauguração do Credicard Hall, em 1999 (Foto: João Wainer)

Um marco na Pinacoteca

Filas ininterruptas que alcançavam 1 quilômetro assinalavam um feito inédito. Entre 8 de junho e 13 de julho de 1995, mais de 150 000 pessoas passaram pela Pinacoteca do Estado para ver de perto as obras do francês Auguste Rodin.

Trazidos de Paris, do museu batizado com o nome do artista, 58 esculturas de bronze, um gesso e 85 fotografias — 25 originais e sessenta ampliações — encantaram os paulistanos e turistas de várias partes do Brasil.

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O sucesso popular abriu caminho na cidade para mostras de grandes nomes, como Salvador Dalí e Pablo Picasso, realizadas no Masp, respectivamente, em 1998 e 1999.

Pinacoteca - 1995
Fila para ver obras de Rodin na Pinacoteca, em 1995 (Foto: Alexandre Tokitaka)

Uma dupla arrasa-quarteirão

Marco Nanini e Ney Latorraca estrearam O Mistério de Irma Vap em 13 de abril de 1988 no Teatro Procópio Ferreira e arrancaram gargalhadas de 105 000 espectadores até o fim do ano.

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Dirigida por Marília Pêra, a hilária dupla deixava a plateia de queixo caído graças à capacidade invejável de trocar de roupa em segundos 54 vezes, dando vida a oito personagens. Fenômeno, a comédia mudou de endereço, dessa vez para o Teatro Cultura Artística, com o dobro de cadeiras, e bateu o recorde da casa.

Ficou cinco anos em cartaz, entre idas e vindas, com filas que chegavam até a Praça Roosevelt e ingressos adquiridos, no mínimo, duas semanas antes. Em 2008, um incêndio destruiu o tradicional teatro paulistano. A reconstrução segue em ritmo lento até hoje.

O Mistério de Irma Vap
Marco Nanini e Ney Latorraca na peça 'O Mistério de Irma Vap': sucesso de público (Foto: Lenise Pinheiros)

Sexo soft

Em agosto de 1986, uma multidão se aglomerava no Cine Belas Artes (atual Caixa Belas Artes). As filas eram para ver os jogos sexuais de Mickey Rourke e Kim Basinger em 9 e 1/2 Semanas de Amor. Odrama erótico nem era grande coisa, mas, um ano depois, 300 000 pagantes já tinham passado pela sala para espiar o animado casal.

9 e 1/2 Semanas de Amor
Rourke e Basinger: drama erótico levou milhares aos cinemas da capital (Foto: Divulgação)

Sapatilhas

Os russos do Balé do Teatro Bolshoi comoveram o Municipal paulistano em 1989. A lendária bailarina Galina Ulanova comandou o técnico elenco, que contava ainda com Irek Mukhamedov, entre outros, e exaltava o orgulho da era comunista.

Balé do Teatro Bolshoi
Os bailarinos do Teatro Bolshoi: temporada no Municipal em 1989 (Foto: Emidio Luisi)

Circo chique

Em 2006, a companhia canadense Cirque du Soleil passou pela primeira vez por aqui. A temporada de dois meses do espetáculo Saltimbanco estreou com ingressos esgotados — cada sessão recebeu 2 500 pessoas. A companhia virou figurinha fácil nos anos seguintes, sempre com as bênçãos do público.

Saltimbancos - Cirque du Soleil
Cena de 'Saltimbanco', do Cirque du Soleil: primeiro espetáculo da companhia na capital (Foto: Marcelo Rossi)

O MIS é pop

O Museu da Imagem e do Som (MIS) causou burburinho no Jardim Europa em 2014. Mais de 500 000 visitantes passaram por lá em nome das exposições dedicadas ao programa Castelo Rá-Tim-Bum (foto), ao cineasta Stanley Kubrick e ao cantor David Bowie. A vizinhança até se revoltou, mas a arte pop venceu.

Castelo Ra Tim Bum - MIS
A exposição dedicada ao 'Castelo Rá-Tim-Bum': mais de 500 000 visitantes no MIS (Foto: Lucas Lima)

Monet no Masp

O pintor francês Claude Monet teve 23 telas impressionistas expostas no Masp em 1997. Mais de 400 000 pessoas encararam horas em filas na Avenida Paulista em nome do programa obrigatório.

Terra à vista

Maior exposição de artes plásticas realizada no país, a Mostra do Redescobrimento levou, em 2000, 1,4 milhão de visitantes aos três pavilhões do Parque do Ibirapuera para ver 15 000 obras.

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Comédia e política

Como dramaturgo, o ator Juca de Oliveira virou expert em extrair graça da realidade. As comédias Meno Male (1987), Caixa Dois (1997) e Às Favas com os Escrúpulos (2007) explodiram nas bilheterias dos teatros.

Quarteto bárbaro

Caetano, Gil, Gal e Bethânia reuniram 110 000 fãs no Parque do Ibirapuera em 7 de dezembro de 2002. A tarde nublada terminou em temporal, mas o público saiu feliz de ver os Doces Bárbaros juntos e ao vivo.

26 anos no palco

A comédia Trair e Coçar... É Só Começar, de Marcos Caruso, já virou um cartão-postal da cidade. Estreou em 1989, com a atriz Denise Fraga, e, entre idas e vindas, com diferentes elencos, continua em cartaz até hoje.

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Nossa Broadway

Desde 2001 os musicais firmaram presença por aqui. Les Misérables e Chicago são exemplos iniciais. O Fantasma da Ópera (2005) consagrou o gênero — em dois anos, 880 000 pessoas lotaram o Teatro Abril.

Fonte: VEJA SÃO PAULO