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Sebastião Salgado: "'Genesis' fecha para mim um ciclo de histórias"

Resultado de uma viagem de oito anos, mostra do fotógrafo brasileiro reúne 245 imagens de desertos, tribos e animais de regiões remotas do planeta

Por: Bruna Ribeiro - Atualizado em

Sebastião Salgado - Genesis (17)
Sebastião Salgado durante coletiva no Sesc Belenzinho: "Este poderia ter sido meu primeiro trabalho, se eu tivesse maturidade para isso no início" (Foto: Bruna Ribeiro)

O fotógrafo Sebastião Salgado ficou consagrado por retratar a vida humana, nos famosos Trabalhadores (1986-1992) e Êxodos (1994-1999). Em Genesis, seu novo projeto em exposição no Sesc Belenzinho, ele apresenta 245 fotografias de montanhas, desertos, tribos e animais em regiões remotas da Terra. Radicado em Paris, o brasileiro viajou durante oito anos (de 2004 a 2011), em 32 reportagens, capturando imagens que foram divididas em cinco seções geográficas com curadoria de sua mulher, Lélia Wanick Salgado.

Planeta Sul, África, Terras do Norte, Amazônia e Pantanal e Santuários poderão ser vistas até 1º de dezembro pelos paulistanos. Salgado resume a mostra – que já esteve no National History Museum, de Londres, e no Jardim Botânico, do Rio – como seu desejo de despertar o interesse pelo cuidado com o meio ambiente. "Precisamos ter outro comportamento. É preciso aprender a respeitar o planeta de uma forma mais doce, pois achamos que ele é só nosso, mas não é."

A passagem por esses espaços e comunidades intocados pela modernidade encerram seu último grande trabalho. "Foram os anos mais ricos da minha vida e possivelmente será o meu último projeto nessa proporção, já que estou com quase 70 anos. Penso que  Genesis  poderia ter sido meu primeiro trabalho, se eu tivesse maturidade para isso no início. Mas acabou sendo o último."

Confira abaixo a entrevista completa com o fotógrafo e seus comentários sobre as obras na galeria de imagens:

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Como surgiu o interesse de retratar a natureza simplesmente?  Na metade dos anos 90, eu passei por um período muito difícil da minha vida. Fazendo fotografias nos meus projetos anteriores, eu vi momentos terríveis da nossa espécie. Cheguei a presenciar 20 000 mortos empilhados e fiquei doente com tudo aquilo. Comecei a morrer mesmo. Tive de parar e voltei ao Brasil com a minha esposa, Lélia Wanick Salgado, para o interior de Minas Gerais, no Vale do Rio Doce, onde nasci. Ficamos na fazenda onde fui criado e que herdei dos meus pais. Quando eu era criança, o lugar era um verdadeiro paraíso. Tínhamos 60% de cobertura florestal e eu convivi com jacarés e onças, em uma vida de sonho. Mas quando voltamos ela estava devastada, com uma cobertura ambiental de menos de 0,5%. Foi aí que iniciamos um projeto de replantar 2,5 milhões de árvores e, assim, começamos a reconstruir também a vida. Depois disso, voltou a vontade de fotografar e fazer praticamente uma nova apresentação do planeta às pessoas.

Foi complicado chegar a esses locais de Genesis? Por quais dificuldades passou? É necessária uma grande organização. Nós tivemos de conceber o projeto e fazer contatos com organizações com as quais não costumávamos trabalhar. Por isso, estudamos por dois anos e quando o conceito do projeto estava pronto, começamos a pensar nos financiadores. A burocracia é grande. Para conseguir um barco para me levar às Malvinas, por exemplo, tive de esperar quatro anos, pois já havia outras reservas. Tive também de pedir autorização das Forças Armadas do Reino Unido. Na Sibéria, eu cheguei a ficar 45 dias sem me lavar e os nômades me emprestaram roupas, pois eu não suportava mais o frio com as minhas, por mais quentes que elas fossem. 

Sebastião Salgado - fotografia elefante - Genesis
Elefante no Parque Nacional de Kafue, Zâmbia, em 2010 (Foto: Sebastião Salgado)

Como foi recebido nas comunidades que visitou e como é a vida dessas pessoas?  Em minhas viagens, encontrei grupos que vivem exatamente como se vivia há 50 000 anos. Como o projeto durou oito anos, fiquei cerca de dois meses com cada um e vivi o cotidiano. As pessoas passaram a ser minhas amigas e eu me integrei totalmente. A maioria não é agressiva. Na Ilha de Nova Guiné, a comunidade havia visto apenas um homem da América, há 20 anos. Eu fui o segundo. Aqui no Brasil, na Amazônia, os índios Zoé vivem em uma tribo de 250 pessoas. Quando passou um avião e dissemos que lá dentro havia cerca de 300 passageiros, eles demoraram para entender. Mas, apesar desse isolamento, valores como amor e solidariedade existem nesses lugares. Isso me faz pensar que a violência e o crime não deveriam existir.

O que espera com este trabalho?  Precisamos ter outro comportamento de vida e abandonar a ideia de que somos a única espécie racional. É preciso aprender a respeitar o planeta de uma forma mais doce, pois achamos que ele é só nosso, mas não é. Pode-se começar com atitudes práticas, como a reciclagem. 

Genesis recebeu críticas de ativistas ambientais por contar com o patrocínio da mineradora Vale. O que pensa a respeito? Acredito que o problema está no nosso modelo de vida. A demanda de energia é brutal na nossa sociedade, pois tudo é feito de metal. O primeiro julgamento deve ser sobre nós mesmos, pois a produção industrial foi criada por nós e para nós. Temos de mudar o nosso comportamento. Não vejo nenhuma contradição em trabalhar com a Vale, pois poucas pessoas já plantaram 1 milhão de árvores como eu. Nós não temos dinheiro para realizar essas ações sozinhos, mas temos capacidade de organização.

Qual será seu próximo projeto? Genesis para mim fecha um ciclo de histórias. Quando encerrei a minha viagem à Sibéria, fiquei por dias pensando por onde aquele grupo nômade que acompanhei andava. Mandei algumas fotos a eles, por meio de um amigo pesquisador, mas nunca mais vou voltar a vê-los. Esses foram os anos mais ricos da minha vida e possivelmente será o meu último projeto nessa proporção, já que estou com quase 70 anos. Penso que Genesis poderia ter sido meu primeiro trabalho, se eu tivesse maturidade para isso no início. Mas acabou sendo o último. Quero continuar fotografando, mas acredito que não farei nada mais desse tamanho.

Fonte: VEJA SÃO PAULO