Máquinas

Estilo e velocidade

Visitamos a charmosa fábrica da Rolls-Royce, de onde saem os carros que estarão em breve na nova loja da marca em São Paulo

Por: Ilana Rehavia, de Londres - Atualizado em

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O modelo Ghost: a partir de 315 000 dólares (Foto: Divulgação)

A jornada de VEJA SP LUXO ao universo Rolls-Royce começa em grande estilo, em Londres, a bordo de um reluzente Ghost azul-marinho. “Novinho em folha”, segundo informa Colin, o simpático motorista impecavelmente uniformizado. No trajeto, de cerca de 100 quilômetros até a fábrica da montadora, fica claro que a Rolls-Royce não exagera quando compara a experiência de andar em um de seus carros à de flutuar em um tapete mágico. É fácil se afundar no couro macio dos bancos e aproveitar o silêncio para deixar lá trás o trânsito e o burburinho da hora do rush.

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Sinônimo de luxo e classe, a Rolls-Royce se prepara para abrir em junho sua primeira concessionária em São Paulo. O CEO da marca, Torsten Müller-Ötvös, conta que já estava de olho em nosso mercado automobilístico havia anos e que, recentemente, o interesse dos brasileiros pelos carros da marca aumentou. “O Brasil já é um mercado muito forte, com o potencial de se tornar o terceiro maior em menos de cinco anos”, acredita ele. “Agora é a hora certa de agir.” Hoje, quem lidera esse ranking é a China, seguida pelos Estados Unidos.

phantom na linha de montagem
Phantom na linha de montagem: cada estágio leva mais de duas horas (Foto: Divulgação)

 Conhecidos por combinar tecnologia de ponta com um trabalho manual minucioso, os carros que chegarão às mãos dos brasileiros começam sua vida em Goodwood, onde fica a fábrica da Rolls-Royce. A área, de propriedade do ducado de Richmond desde o século XVII, não poderia combinar melhor com a filosofia da fábrica. Abriga um aeroporto particular, pistas de hipismo, um campo de golfe e um circuito de corrida de automóveis. É um universo em que, assim como nos carros da Rolls-Royce, o estilo anda de mãos dadas com a velocidade, com uma mistura de construções no estilo art déco, mansões antigas e paisagens campestres cuidadosamente conservadas. De helicóptero, fica a apenas vinte minutos de Londres, uma vantagem para o cliente típico ó que, segundo a montadora, tem 30 milhões de dólares em ativos fixos, 5 milhões em rendimentos disponíveis e outros sete carros na garagem.

Logo na chegada, os visitantes precisam colocar sobre a roupa uma jaqueta especial para evitar que botões ou fivelas de cinto arranhem as carrocerias. O cuidado com a limpeza também é total. Diz a lenda que um cirurgião plástico famoso chegou a comentar que o chão da fábrica era mais limpo que o de sua sala de cirurgia.

Os carros são produzidos sob encomenda com base em dois modelos: o tradicional Phantom (com preços a partir de 430 000 dólares) e o Ghost (começando em 315 000 dólares). Com uma linha de produção quase toda manual, o silêncio e a tranquilidade na fábrica de Goodwood realmente impressionam. Um Phantom fica mais de duas horas em cada estágio da linha de montagem. Da encomenda até a entrega, ele leva pelo menos dois meses para ficar pronto. Para efeito de comparação, nas fábricas normais de série, um carro sai da linha de montagem a cada noventa segundos.

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O couro, costurado a mão, vem do gado dos Alpes: o revestimento dos bancos consome 450 pedações de pele (Foto: Divulgação)

A customização, que está no coração da marca, pode estender esse tempo de gestação por até nove meses. Em 2011, mais da metade dos 3 538 carros que saíram de Goodwood — um recorde de vendas na história da Rolls- Royce — foi adaptada com detalhes que podem até dobrar o valor inicial do veículo. Quando chega a hora de personalizar um automóvel, a cultura de cada país costuma ditar as preferências. No Oriente Médio, por exemplo, veículos coloridos são muito mais admirados que os de tons sóbrios. No Brasil, a expectativa é que aconteça o oposto. “Nossa clientela brasileira tem um gosto muito clássico, com uma preferência pela discrição europeia. Esperamos ver mais combinações de cores tradicionais, aliadas a itens de luxo e prazer como sets para champanhe e caixas especiais para charutos”, diz Müller-Ötvös.

Tirando o motor V12 e as linhas gerais do design, que precisam respeitar o tradicional estilo Rolls-Royce, nada é complicado ou extravagante demais para os cerca de 1 000 funcionários e fornecedores da marca. A jornada de personalização começa na oficina de pintura, onde é possível reproduzir mais de 45 000 tonalidades, como a cor de um esmalte ou de uma gravata preferida. Certa vez, um comprador pediu que seu carro fosse da cor de uma maçã do amor. O efeito foi obtido com dezesseis camadas de tinta aplicadas a mão ó e ele recebeu os direitos autorais da cor para garantir a exclusividade de seu modelo.

Essa mesma liberdade de escolha continua na hora de decidir como será o interior do carro. Para o painel de controle, já foi usado até o tronco da árvore do jardim de um comprador. A marcenaria mais parece o estúdio de um dedicado escultor. Em uma pequena sala fechada, lâminas de madeira usadas para os painéis são mantidas a exatos 25 graus e 75% de umidade, o que garante a flexibilidade do material. Funcionários debruçados sobre suas mesas trabalham cada detalhe com pequenos escalpelos.

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Fase final da produção do Phantom: teto decorado com 1 600 luzes (Foto: Divulgação)

Mais adiante fica a oficina de couro, na qual o processo também é todo manual. Cerca de 450 pedaços individuais de couro são utilizados para o revestimento dos bancos de um Phantom. O material vem dos Alpes, onde o gado leva uma vida mais tranquila, longe de arames farpados, mosquitos e outros perigos ou desconfortos que podem deixar marcas na pele. Um mostruário reúne algumas das cores e dos efeitos que já foram encomendados, como um laranja vivo pedido por uma consumidora do Oriente Médio (que lembra as embalagens da grife francesa Hermès). Um apoio para a cabeça também chama atenção, com um belo trabalho de bordado em que se lê: Sua Majestade Abdullah II (o rei da Jordânia).

“Nossos carros são o ápice da aspiração automotiva, o veículo de escolha de chefes de estado, realeza, estrelas dos palcos e telas, empresários abastados de todas as idades e aficionados de carros no mundo inteiro”, enumera Müller-Ötvös. De fato, em seus quase 108 anos de história, os carros da Rolls-Royce já tiveram e têm donos como a rainha Elizabeth II, o cantor Michael Jackson, o beatle John Lennon, o empresário Donald Trump, a atriz Brigitte Bardot, o sultão do Brunei, um dos maiores colecionadores do mundo, e, mais recentemente, o jogador de futebol David Beckham. Com uma clientela desse nível, a Rolls-Royce é cuidadosa na proteção da privacidade e da segurança de seus compradores. Por esse motivo, a última etapa do processo de produção, o teste de qualidade geral, fica longe dos olhos dos visitantes, já que muitos dos carros — como aqueles produzidos para presidentes e reis — levam detalhes que podem facilmente identificar seus futuros proprietários.

Criada em 1904 por Charles Rolls e Henry Royce, a marca passou por um período de reestruturação em 2003, quando foi adquirida pela montadora alemã BMW, depois de uma longa negociação com a Volkswagen, que também detinha parte dos direitos de produção. Desde então, as vendas vêm crescendo ano a ano, impulsionadas, em parte, pelo interesse dos mercados internacionais. Na América Latina, além da concessionária em São Paulo, a cidade de Santiago, no Chile, também ganhará uma loja da Rolls-Royce.

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Detalhes sob encomenda: porta-joias criado pela joalheria Asprey (Foto: Divulgação)

Para atender a essa demanda crescente, a fábrica de Goodwood passará em breve por uma ampliação de 2 500 metros quadrados, orçada em 10 milhões de libras, ou cerca de 30 milhões de reais. Criada pelo arquiteto Nicholas Grimshaw (conhecido pelo Projeto Eden, um complexo de biodiversidade loca- lizado na Inglaterra), ela ocupa hoje aproxi- madamente 32 400 metros quadrados e con- ta com o maior telhado vivo da Grã-Bretanha. Seguindo a linha elegante dos carros, é inteira rodeada por belas venezianas de madeira que se movem automaticamente para controlar os níveis de luz natural em seu interior. Apesar da expansão e do recorde de vendas, a marca não pretende perder de vista a atenção minuciosa a cada detalhe que a tornou um objeto do desejo. Caso dos mimos como os guarda-chuvas escondidos nas portas dianteiras ou a mascote Espírito de Êxta- se que decora cada capô. Seu charme está na elegância e na classe que vêm de uma longa tradição. Se fosse uma pessoa, um Rolls- Royce seria um impecável gentleman, bem inglês, daqueles que ainda insistem em abrir a porta do carro para as mulheres.

Fonte: VEJA SÃO PAULO