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Crônica

A teoria das encomendas

24.fev.2012 por Matthew Shirts

Demorei para compreender o bilhete. Foi passado para mim na cama, pela minha mulher, Luli. Naquele momento relia com atenção o segundo romance da trilogia “Millennium”, do Stieg Larsson, “A Menina que Brincava com Fogo”. Gostei tanto do filme, “O Homem que Não Amava as Mulheres”, que precisava saber, logo que chegara em casa do Bristol, na Avenida Paulista, o que aconteceria com a personagem principal, a estranha e atraente Lisabeth Salander. O bilhete foi o expediente encontrado pela Luli para chamar minha atenção.

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Parece um papelzinho de estacionamento ou de jogo do bicho. Dobrei a página, fechei o romance e olhei para o texto, escrito a lápis: “Altura, 6,5 pés, largura, 4,5 pés, volume, 1 pé”. O que seria? Entendi, claro, que, no caso, “pé” era uma medida utilizada no meu país de origem, os EUA. Seis pés e meio é a altura de um jogador de basquete profissional. Mas 4,5 de largura... é muito. Um pé de volume? O que seria isso?

“São as medidas da roupa de cama”, diz a Luli. “Falei que iria pedir para você trazer dos Estados Unidos.”

Vou para lá a trabalho. Deitado aí na minha cama tive uma visão súbita e desconcertante do interior de uma megaloja americana, tamanho Maracanã, lotada até o teto de lençóis e toalhas de rosto em tons pastel. Mesmo com o papelzinho das medidas, o potencial para erros em uma encomenda dessas será imenso. Senti um arrepio. Coragem, pensei.

Luli sabe o que passa pela minha cabeça. Informou-me, sem hesitar, que há, sim, roupas de cama bacanas em São Paulo, lindas. Mas são caras. As americanas são boas e baratas. Daí a necessidade de eu trazê-las do outro lado do nosso continente.

Vou para os Estados Unidos e volto há trinta anos, antes mesmo de o Brasil entrar na moda. Em todas as viagens pediram para eu trazer alguma mercadoria. Há uma boa palavra em português para isto: a “encomenda”.

Já elaborei teorias a respeito das encomendas. Quem costuma pedir os itens mais difíceis de encontrar é o professor Antônio Pedro Tota. O problema não são os livros esgotados (“no sebo tem...”), nem os CDs do jazzista Thelonious Monk, que, apesar do melhor nome da história da língua inglesa, nunca frequentou as listas dos mais vendidos. A pior encomenda do Tota incluía anzóis de pesca. Precisavam ser de formatos, tamanhos e cores específicos. Senão, não pegariam o peixe, imagino. Descobri que não falta loja de pesca na Califórnia (uma informação de possível utilidade em algum momento da minha vida). Reclamo, mas Tota é meu amigo. Não haveria problema nenhum em gastar dias em busca de anzóis nos Estados Unidos — se ele pescasse. Mas, ao longo de trinta anos de amizade, nunca, nenhuma vez, ouvi o professor falar de peixe que não fosse comprado na feira.

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Daí a importância da teoria. A encomenda é mais forte do que a vontade individual do brasileiro. É cultura. Tem raízes. Para explicar o fenômeno são necessárias as ciências sociais.

Esta não é a primeira vez que abordo o assunto. Certa feita cheguei a elaborar uma lista de tudo que já me encomendaram. Vou poupá-lo. Saiba apenas que começa, pelo alfabeto, em autopeças e vai até vitaminas.

Minha tese é de que há, na encomenda, uma afirmação de carinho e brasilidade. Veja só. Pressupõe a volta ao país. Dá a oportunidade de conversar sobre os preços das coisas lá e cá, na ida e na volta. Apresenta uma oportunidade de se juntar ao amigo para driblar as gigantescas taxas de importação, herança espiritual dos tempos da colônia, através do jeitinho. Nada mais carinhoso. Nada mais brasileiro do que a encomenda.

E-mail: matthew@abril.com.br

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