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Torturas estéticas

Por Walcyr Carrasco 1 set 2011, 20h10 | Atualizado em 14 Maio 2024, 11h58
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Quando minha fiel escudeira, Célia, serviu o jantar, percebi que ela respirava com dificuldade.

— Você está bem? — perguntei.

— Botei uma cinta modeladora. Olha como estou magrinha.

Apertei os olhos. Na minha opinião, continuava igual. Só um pouco azul por falta de ar.

— Desista, isso só vai deixar você nervosa. Também pare de tomar remédios para emagrecer. Daqui a pouco você vai chorar sem saber por quê.

Ela concordou. Mesmo porque a cinta já estava apertando demais. Tentei ajudá-la:

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— Depois dos 50 não tem mais jeito. Conforme-se.

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Foi aí que ela caiu em lágrimas!

Sei o que é viver sob o jugo de uma modeladora! Quando fiz lipoaspiração, tive de usá-la por dois meses. Bem apertada. Nos primeiros dias, tive a impressão de que o coração ia sair pela boca, literalmente. Andava ereto, com o queixo empinado para a frente. Mexia os braços como se estivesse embaixo d’água. Quando ia pegar o avião, os sensores de metais gritavam. Era levado para uma salinha, onde mostrava o colete fechado por ganchos metálicos. Mesmo assim, era esquadrinhado de cima a baixo. Os agentes perguntavam, solidários:

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— O senhor operou o coração?

— Não, foi para perder a barriga — respondia sem jeito.

A atitude amigável transformava-se em completo desprezo. E pior: durante o voo, minha barriga inchava. Quase morri sufocado várias vezes. O que se faz por vaidade! Uma atriz aceitou o papel de gorda da história numa novela que escrevi há algum tempo. Mal começou a gravar, iniciou o regime. Mandei um aviso:

— Seu papel é de gorda!

Ela insistiu com os amigos:

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— Quero ficar bem, para estourar como estrela.

Como no íntimo rejeitava o peso, também não incorporou a personagem. Os remédios a deixaram muito nervosa. Ouvi falar de crises de choro nas gravações. O que teria sido uma gratificante estreia transformou-se num sofrimento.

Dia desses uma amiga apareceu com três manchas de queimadura no rosto.

— O que houve?

— Fiz um procedimento para eliminar marcas de expressão e rejuvenescer a pele. Como você percebeu?

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Outra amiga lutou contra a celulite com a ajuda de um aparelho que emite algum tipo de raio, enquanto a esteticista dá beliscões bem fortes para queimar as gorduras.

— Doeu, mas suportei!

— Deu resultado?

— Ainda não sei, comprei um pacote de dez sessões…

Gemi por ela!

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Um personal trainer que conheço é mais radical. A partir de setembro, só se alimenta de clara de ovo e batata-doce.

— É para estar com o corpo trincado no verão.

Para quem não sabe, um abdômen trincado é o mesmo que sarado, tanquinho… e não me perguntem por que essas palavras são sinônimo de beleza. Importa saber que, ao ouvir o personal trainer, entendi do que ele falava. Quer estar no auge para ir de sunga à praia. Explicou:

— Clara de ovo é proteína pura e não engorda.

Não sei se as informações procedem. Eu, pessoalmente, jamais iniciaria um regime sem base médica. Mas vale a pena viver de clara de ovo? De que me adiantaria conquistar uma barriga, digamos, “tanquinho” se entraria em crise histérica ao me lembrar de uma lasanha ao forno?

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Penso muito sobre isso. Qual o motivo de sofrer tanto por meras questões estéticas? (Mesmo porque há outros tratamentos torturantes que não citei.) Terminei a conversa com minha escudeira com um conselho:

— Sabe, Célia, você não tem de emagrecer. Precisa é de um amor.

— Será?

Fiz que sim. Todo mundo diz que quer ficar bonito. Mas o que falta é amor. Simplesmente, um novo ou antigo, mas um maravilhoso amor.

E-mail: walcyr@abril.com.br

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