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Antigas namoradas

Por Ivan Angelo 22 Maio 2010, 00h37 | Atualizado em 5 dez 2016, 18h47
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Qual é o encanto das antigas namoradas? Temei, esposas, noivas, amantes, pretendentes, temei o mistério das antigas namoradas. Temei seu assédio volátil, sua presença incorpórea, seus apelos inaudíveis, seus dedos pianíssimos, seus pés passarinhos. E consolai-vos, pois sois vós mesmas antigas namoradas de algum marido, noivo, amante — hoje de outra.

Por que não se esquece uma antiga namorada? O cérebro, que apaga tantas coisas de que gostaríamos de nos lembrar, ou que as mantém no fundo de um quartinho escuro, traz para a luz uma ou outra antiga namorada e dá-lhe um banho de sol.

As antigas namoradas vão conosco ao cinema, deitam-se ao nosso lado na areia da praia, visitam amigos que visitamos. Preferem nossos momentos de solidão, mas não se importam com presenças.

O curioso é que nem todas foram boas namoradas, e isso não as impede de pretensiosamente encontrar espaço entre as benfazejas. Como se o tempo fosse desbastando a pessoa real, depurando-a, e acabasse por deixá-la enxuta, encaixada nesse conceito simples: ex-namorada. E como tal terá dado ao namorado, a seu tempo, o que é da essência das namoradas. Porque a má namorada não é como a bruxa dos contos de fada, que é sempre má, ou como a vilã de telenovela. Teve seus bons momentos, ou não seria namorada, tenha feito o que tiver feito por defeito. As falhas passadas já não a impedem de ir chegando, simplesmente porque é, como as outras, uma antiga namorada.

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Podemos até passar por uma antiga namorada na rua e não a reconhecer. O tempo delas não é o de hoje. Seu momento foi fixado em algum lugar do passado, quando a beleza do olhar, do sorriso, da voz, do gesto, do ato nos emocionou e gravou imagens que voltam em flashback. Um dos prováveis encantos das antigas namoradas é que o tempo não as destrói, antes conserva e recupera. Adoça.

Homens têm afeições mais difusas do que as das mulheres. Não ficam se lembrando de roupas que tiveram, sapatos, escolas, casas, quartos, brinquedos, cães — ou quando se lembram não devaneiam. No geral, escorregam da realidade para o devaneio ao se recordar de duas coisas: seu primeiro carro e as antigas namoradas. Às vezes de ambos, nos momentos em que os aproveitaram juntos.

O apelo das antigas namoradas dispensa fotografias desbotadas ou cartas amareladas, e lenços, luvas, calcinhas, pétalas secas de flor. Elas não precisam disso para se insinuar e além do mais as esposas, noivas, amadas ou pretendentes não permitiriam nas gavetas da casa esse tipo de fetiche.

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Nada pedem. Fazem companhia num cinema sem disputar o braço da poltrona, sem gastar entrada, na cama sem ocupar espaço, no trânsito sem desviar nossa atenção. De quem é artista, povoam telas, páginas, cenas. O mistério delas é estar sem estar. É não ter hora. Por que vão e voltam, anos sem vir, dias sem ir? Por que sumiços e um dia insistências?

Será o encanto delas o nos terem amado, egoístas que somos, vaidosos que somos? Ou o terem sido amadas? Será o terem chorado, o termos chorado? A entrega? Será o termos pensado que ninguém mais caberia na vida delas, ou na nossa, ninguém além de nós? O encanto delas será as incluirmos no nosso confronto de hoje com as ilusões do passado, a nossa ingenuidade, o nosso romantismo? Temos saudade de nós?

Pertencendo elas a outro tempo, seu encanto é não terem realidade, não serem tocadas pelas imperfeições do presente e da presença. Quando provocam o reencontro, as perdemos.

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