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O pagador de promessas

Por Matthew Shirts
28 fev 2015, 00h00 • Atualizado em 5 dez 2016, 12h45
O pagador de promessas
O pagador de promessas ( Attílio/)
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    Dou de cara com o aparelho novo e chamativo, logo na entrada da academia de ginástica. Ocupa um espaço grande ao lado das esteiras, maior que o das outras máquinas de fazer exercícios físicos. Rio sozinho, uma reação que venho tentando controlar, diga-se. Pega mal em público. É melhor rir acompanhado, como se sabe, ou, no mínimo, com um fone nos ouvidos. Chama menos atenção. Mas, convenhamos, o aparelho de ginástica novo parece uma escada rolante portátil, com uns seis ou sete degraus, que vão dali do chão da entrada para lugar nenhum. Acabam no ar.

    É essa aparente inutilidade que o torna tão desengonçado, deduzo, enquanto faço abdominais no piso de baixo. Não sei se é comum ou não essa máquina. Nunca havia visto nada parecido. É uma escada para o… nada. Lembra aquelas utilizadas para entrar nos jatos no meio da pista no Aeroporto de Congonhas, só que menor e sem avião no topo. Seu formato explicita, mais do que as bicicletas estacionárias, ou mesmo as esteiras de correr sem sair do lugar, o lado cômico da condição humana, concluo.

    Não me entenda mal. Tornei-me adepto da malhação há alguns anos, seguindo ordens médicas. Levo a sério. Tenho até uma professora, a adorável, mas exigente, Cris. Não tarda para ela me colocar na geringonça. Escolhe uma velocidade baixa para começar, “4”, se não me engano. Os degraus passam a se mexer, tal como numa escada rolante, só que ao contrário. Começo a rir tudo de novo. Você há de convir: é engraçado. Só mesmo nossa espécie forma engenheiros para conceber escadas rolantes invertidas que não vão para lugar nenhum. Tenho de me concentrar um pouco, no entanto, quando a Cris aumenta a velocidade para “7”. Nesse momento, aparece outro professor, ali do lado, com a informação de que esse aparelho é conhecido, popularmente, como “o pagador de promessas”. Nada mais brasileiro, penso. Ele diz, ainda, que uns quinze (ou eram vinte?) minutos nele equivalem à subida dos 382 degraus da Igreja da Penha. Vem daí, inclusive, o apelido: o pagador de promessas. Pergunto-me se é só no Brasil que os aparelhos de ginástica têm apelidos religiosos. Mas não tenho nenhuma resposta para essa questão, concluo, enquanto os dois professores conversam.

    Quando a Cris aumenta a velocidade da máquina para “9”, ocorre-me que não conheço a Igreja da Penha. E essa me parece uma falha indesculpável na minha cultura de brasilianista amador (“9”, diga-se de passagem, é bastante naquele aparelho). Sofro para manter o ritmo sem ser sugado por baixo dele pelos degraus em movimento. E faço, ali na hora, uma pequena promessa: se eu sobreviver à aula de ginástica, pegarei a linha Vermelha do metrô até a Penha e subirei os 382 degraus.

    Sobrevivi. Tanto é que estou aqui a escrever estas mal traçadas. Mas descubro na internet que minha ignorância é mais profunda do que imaginava. A Igreja da Penha, conhecida pelas escadarias, fica no Rio de Janeiro. E os pagadores de promessas sobem os 382 degraus de joelhos! Irei até a nossa igreja da Penha, resolvo, aqui em São Paulo, que também não conheço. De onde mandarei um relato no futuro.

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