Avatar do usuário logado
Usuário

De menor

Por Ivan Angelo
8 nov 2013, 17h31 • Atualizado em 5 dez 2016, 15h28
  • Já tivemos um imperador de 14 anos. Hoje, com essa idade, não podemos ter um contínuo de repartição pública. Mas adolescentes que se tornaram assassinos, assaltantes, delinquentes e drogados temos aos milhares.

    Não eram pequenos os problemas que esperavam o adolescente Pedro II, elevado a imperador. O país andara e andava lidando com revoltas armadas: a dos Cabanos no Norte, a dos Farrapos no Sul, a Balaiada do Maranhão, a Sabinada da Bahia e a dos Malês em Salvador; grupos políticos rivais disputavam poderes; províncias enciumadas se inquietavam; e foi sob esse clima que uma delegação parlamentar procurou o rapazinho, que aguardava os 18 anos para ser coroado (era julho, e ele completaria 15 anos em 2 de dezembro), a fim de perguntar-lhe se aceitava ser imperador, e quando.

    “Aceito” e “já” foram suas respostas curtas. Então, a Assembleia Geral Legislativa do Brasil, “reconhecendo o feliz desenvolvimento intelectual de S.M.I. o Senhor D. Pedro II”, decidiu “declará- lo em maioridade, para o efeito de entrar imediatamente no pleno exercício desses poderes como Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil”. Governou durante 49 anos, e foi um bom governante, até ser deposto pelo golpe republicano de 15 de novembro de 1889.

    Se um adolescente pôde governar bem o Brasil, por que as capacidades dos garotos de hoje são menosprezadas? Por que se cobram tão poucos dos seus deveres, por que se aproveitam tão poucas das suas habilidades e se punem tão levianamente suas infrações? Empurramos cada vez para mais tarde as responsabilidades dos maiores de 14, as obrigações, o trabalho… Quando o Brasil precisou, o juvenil Pedro II estava pronto, instruído, com discernimento.

    Continua após a publicidade

    Há gente séria e bem-intencionada contra qualquer tipo de trabalho para menores de 18 anos, porque lugar de criança é na escola. A maioria das famílias precisa do trabalho dos filhos adolescentes. O trabalho digno educa, mostra aos aprendizes da vida que o dinheiro do consumo é o mesmo do trabalho.

    Vacilo quanto às punições, porque há gente séria e bem-intencionada contra qualquer punição penal antes dos 18 anos. Já tivemos leis severas que puniam até com prisão perpétua a partir dos 15 anos, conforme previa o Código Criminal do Império, apoiado no critério do discernimento, ou seja, caso o autor de crime soubesse distinguir entre o bem e o mal, o lícito e o ilícito.

    O objetivo reformador das punições evoluiu com a República. Vigora hoje o Código de 1940, que tornou inimputáveis os menores de 18 anos. Mas a sociedade mudou muito — eis por que vacilo —, as drogas alteraram a face do crime juvenil, a televisão tornou banal e visível a violência, estetizou a violência, as famílias perderam a capacidade de exemplar, em muitos casos perderam a vontade de exemplar.

    Continua após a publicidade

    Faz sete meses, a mãe de um daqueles criminosos que queimaram a dentista, entre os quais havia um menor, duvidava da participação do filho, maior, com esta frase estarrecedora, dita à imprensa: “Acho estranho, porque ele só saía para roubar às 6 horas, e esse caso foi à tarde”.

    Não adianta nos queixarmos da impunidade. Ela começa em casa.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.
    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja SP* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do SP

    A partir de 29,90/mês