Avatar do usuário logado
Usuário

Reforma da natureza

Por Mário Viana 17 set 2016, 00h00 | Atualizado em 27 dez 2016, 15h29
cronica Reforma da natureza
cronica Reforma da natureza (Attílio/)
Continua após publicidade
Reforma da natureza Priorizar nos meus resultados Google

Como se fosse a letra de um bolero antigo, assim se passaram dez anos e chegou a hora de renovar a carteira de identidade. Na minha parcial opinião, a foto do RG e a realidade combinavam perfeitamente, mas a mocinha do Poupatempo da Sé não quis nem saber: “Vai tirar foto nova”. De nada valeram meus apelos. “Coloca uma do Brad Pitt. Ou do Rodrigo Santoro. Ninguém vai reparar.” Ela riu — e ainda me mandou tirar os óculos. Ou seja, o meu documento novo terá a imagem de um panda sonado. Mais magrinho, é bom que se diga, mas panda.

+ Crônica: Coisas muito estranhas

A outra atendente, responsável pela atualização dos meus dados, foi simpática, mas direta. “Cabelos? Grisalhos!”, ela disse, sem querer ouvir minha explicação sobre o efeito da baixa umidade do ar nas minhas madeixas. E os olhos, que eu sempre acreditei serem castanho-esverdeados, ela reduziu a castanho claros. Só aceitou mesmo minha versão para a altura, mas nessa hora eu já havia desistido de vender uma imagem melhorada e disse a verdade mesmo.

Em menos de quinze minutos numa tarde quente paulistana, eu tinha protocolado uma nova carteira de identidade, com o bônus indesejável da inexorável passagem do tempo. Por melhor que seja o atendimento no Poupatempo — e ele é bem bom —, acredito que há uma enorme lacuna aí a ser preenchida. Por que, ao renovar o RG, nós não ganhamos o direito a uma verdadeira identidade nova? Não me refiro a um nome novo. A não ser que você se chame, sei lá, Clozimério ou Assassina. Quando falo de identidade nova é isso mesmo: um novo eu. Ou um novo você, depende. Não foram poucas as vezes em que estivemos numa situação arrematada pela frase lapidar: “Ah, como eu queria ser diferente!”. Renovar o RG no Poupatempo poderia ser essa oportunidade.

Imagine a maravilha. Não era apenas o documento: você mudava por inteiro. O tímido ia pedir uma dose maior de ousadia. A assanhada poderia querer um pouco, só um pouco, de contenção. O ansioso, mais calma. O preguiçoso, mais ânimo. Alterar um tico que fosse o nosso jeito de ser. Ou a cor dos olhos. Quem sabe dessa vez a coisa andasse? Talvez não fosse necessário — ou recomendável — passar dez anos com a mesma persona transformada. Até porque, com o avançar da idade, os desejos e impulsos mudam e se adaptam. 

Continua após a publicidade

+ Crônica: Enjeitados

Talvez valesse a pena um detector de bom-senso, para evitar desencontros entre aspirações e realidade. Tipo os testes que proliferam nas redes sociais (“Que personagem dos filmes do Zé do Caixão você é?”). Haveria uma série de perguntas capciosas, daquelas que fazem o inocente se entregar sem perceber. Sairíamos da sala com um receituário mais preciso: falta uma dose de malícia, 20% de malemolência e um bocadinho de romantismo nos momentos íntimos. Pequenas aplicações levariam felicidade a muitos lares.

Definitivamente, renovar um documento só para ganhar oficialmente uma cabeleira grisalha é muito pouco. Saber que está dez anos mais velho, qualquer tabaréu que estudou aritmética sabe. Não preciso agendar atendimento para chegar a essa conclusão. Nem anseio por uma reforma da natureza feita à moda da Emília, no Sítio do Picapau Amarelo. Infelizmente, a tecnologia ainda caminha a passos de tartaruga manca e não atende à real carência de nosso povo tão sofrido. E grisalho.

 

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

Revista em Casa + Digital Premium
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Premium

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 39,99/mês