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Guerra ao mosquito

Por Ivan Angelo 15 jan 2016, 23h00 | Atualizado em 5 dez 2016, 11h43
Mosquito - Crônica
Mosquito - Crônica (Negreiros/)
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Esse mosquito nos atormenta há 330 anos. Veio da África, junto com as vítimas e os agentes da escravidão, e em 1685 causava a primeira epidemia de febre amarela, em Pernambuco. Desceu fazendo estragos até provocar mortandades periódicas no Rio deJaneiro do imperador Pedro II, desde 1850, sem que se suspeitassede que era ele o culpado. Só quando a ciência descobriu o processo de transmissão da febre e deu nome ao assassino — Aedesaegypti, ou egípcio odioso — foi que os sanitaristas começarama limpar o Rio. Já na República foi criado um exército sanitário que em cinquenta anos acabou com o tipo urbano da febre no Brasil. Mas, a partir de 1970, o mosquito voltou à guerra comoutras armas: dengue, chikungunya, zika. Para derrotá-lo, só igual vontade e poder. Eu, menino de 6 anos, vivi os últimos tempos daquela guerra, em 1942, e conto, recordo.

O homem da saúde passava a cada três meses, dia incerto, sem anunciar. As vizinhas e os meninos da rua se apressavam a anunciar de casa em casa a notícia da chegada do inevitável, o temível visitante que ninguém podia recusar. Mães percorriam a residência apressadas, corrigindo desarrumações. Ninguém podia detê-lo, estorvá-lo, questioná-lo. Ai daquele que deixasse solto,de propósito, um cachorro bravo!

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Corríamos para fora, a fim de vê-lo movimentar-se entre uma casa e outra. Uma bandeira amarela no portão indicava onde ele estava. Aguardávamos, e ele aparecia. Calças, dólmã e quepe amarelos; cinto e botinões pretos; no cinto de utilidades, um martelon de furar, outro de quebrar, lanterna, luvas de borracha; nas costas, uma bomba de cobre, de onde saía uma mangueira com borrifador. Voltava-se, desprendia a bandeira amarela, enrolava-a em seu cabo, botava-a debaixo do braço, atravessava a rua, batia palmas em outra casa e anunciava em alta voz:

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— Saúde pública!

Abriam, ele afixava no portão a bandeirinha e sumia lá paradentro. Saía, repetia o cerimonial, e era a vez da nossa casa.Chamávamos “Mãe!”, e, quando ela aparecia, ele anunciava,atitude de cumprimento cívico do dever:

— Saúde pública!

O anúncio deveria fazer parte do ritual, ou da norma. Entrava, íamos atrás. Primeiro ia até a porta da cozinha e lia as anotaçõesde uma papeleta branca colada ali por um deles, válida por um ano, tão intocável quanto ele. Ai de quem rasgasse ou adulterasse aquela papeleta! Ali se anotava o que fora encontrado de irregular na última visita, para conferir se o problema fora sanado. Se não, multa! Andava pela casa, absoluto, rei. Entrava nos quartos, afastava camas. Sabíamos o que procurava: rachaduras, buracos, barbeiros, percevejos. Suspeitasse, mandava tapar. Conferia a caixa-d’água, o destino das águas servidas. “Sanitário?” — perguntava, distinto, e minha mãe, constrangida,mostrava a casinha no quintal.

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Borrifava por onde passava uma mistura que cheirava a creolina e inseticida; saía, borrifava plantas, moitas, cantos, percorria o quintal e, ah!, lá no canto do muro, perto das bananeiras, a irregularidade: um monte de latinhas que meu irmão colecionava com zelo. O homem pegou o martelinho, desfez o monte com o pé e foi furando, uma a uma, indiferente aos gritos e lágrimas do menino: “Não fura! Não fura minhas latinhas! Não fura!”. Com prática e eficiência terríveis, o homem nem se agachava, firmava a latinha com o pé esquerdo, levantava a arma e paf! Acostumado com protestos, ainda mais de criança, nem os ouvia, olímpico, cumpridor. Ao fim, intocado pela dor que provocara, voltou para a cozinha, anotou sua visita na papeleta atrás da porta, despediu-se com uma leve continência, saiu, olhou a vizinhança, sabendo que a gritaria do meu irmão acrescentara poder à sua figura,e dirigiu-se a outra casa.

Guerra é guerra.

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