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“Temos muitas vagas em aberto para pessoas trans”, diz Maite Schneider

Fundadora de uma plataforma de empregos para transgêneros, a ativista fala de mercado, do plano para fazer um censo nacional e de suas 14 cirurgias

Por Pedro Carvalho
28 jan 2022, 06h00

No Dia da Visibilidade Trans, em 29 de janeiro, a ativista, atriz e consultora Maite Schneider, 50 anos, tem nada menos que treze palestras agendadas. Quase todas para empresas, universo onde ela se destacou com a plataforma TransEmpregos, que apenas no ano passado encontrou 794 vagas de trabalho para a população trans. (Maite é parceira da cartunista Laerte Coutinho e da advogada Márcia Rocha na iniciativa.) O portal não tem fins lucrativos e quase a metade das palestras, ela afirma, é educacional e gratuita. Curitibana de família “privilegiada” (segundo a própria), mora desde 2017 em um apartamento no Largo do Arouche, na República.

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Você tem planos para fazer o primeiro “censo trans” do Brasil?

Vamos fazer. Sem dados, fica difícil implementar políticas públicas. Quem está à frente é a TransEmpregos, a Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra) e o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades, as três maiores entidades do país. A pesquisa deve começar no primeiro semestre. Tem um pessoal da USP ajudando na metodologia. Estamos atrás de empresas para financiar o projeto. Além de quantificar a população trans, queremos mapear questões de trabalho, educacionais e sociais.

Mesmo na crise, as contratações na TransEmpregos têm aumentado?

Ano a ano, as contratações sempre crescem. Em 2020, foram 707 vagas preenchidas. Em 2021, subiu para 794. Mas o que aumenta, mesmo, é o número de vagas disponíveis: são mais de 4 600, triplicou em 2021. As contratações não aumentaram na mesma proporção. Temos muita vaga não preenchida.

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Por que sobram vagas?

Porque muitas (empresas) têm exigência alta, querem experiência. Os profissionais trans estão entrando agora no mercado, como podem ter experiência? A área da tecnologia, que tem problema crônico de falta de mão de obra, responde por quase 30% das contratações. Isso ajuda a explicar a sobra de vagas na plataforma. Os ramos que mais contratam são o telemarketing (a Atento, líder no ranking, tem 1 300 profissionais transgêneros), a tecnologia e o varejo. No começo, a gente ia atrás das empresas, hoje não consigo nem olhar meu e-mail do LinkedIn, são 100 mensagens por dia.

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Muitas empresas entram nessa porque “pega bem”?

Sim, a maioria. No começo, eu me preocupava com o diversity wash (empresas que abraçam causas pelo marketing). Hoje, não. Ninguém é perfeito, a sociedade não é perfeita. A empresa começa com um propósito errado, mas vive essa experiência e passa a acreditar na causa. A única preocupação é se o ambiente não é hostil ao profissional. Tirando isso, a gente faz (a inclusão na plataforma), mesmo se a marca só quiser divulgar uma foto da pessoa trans comendo um bolo de arco-íris. Não posso esperar por um mundo perfeito para fazer o trabalho em que acredito. Enquanto isso, busco conscientizar a empresa. É um jogo de estratégia.

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Mesmo empresários bolsonaristas estão na plataforma?

Sim, temos empresas onde claramente o CEO tem essa postura. Contratam pessoas trans porque veem que é bom para o negócio, para atingir outros públicos. É o capitalismo. Se for um espaço seguro para a profissional, tudo bem. Recentemente, um escritório de advocacia me procurou. Acertamos tudo. Quando foram divulgar a vaga, escreveram: “Queremos uma secretária que saiba se portar como pessoa do sexo feminino”. Avisei que o anúncio seria linchado, mas divulguei. Tiveram dez pessoas que se interessaram. Tem trans que é bolsonarista. Se a Havan quiser participar, vamos conversar. O importante é só que seja um lugar que não cause mais sofrimento a essas pessoas que já sofreram tanto. Não posso ser um Greenpeace da diversidade.

Como foi sua transição de gênero?

Precisei fazer catorze cirurgias, após tentar eu mesma remover os testículos e ter complicações de saúde. Estava com quase 30 anos. Não queria mais tomar hormônio, que tomava desde os 16. Comprei agulha, fio e tentei fazer sozinha. Desmaiei e acordei na Santa Casa. Aí começou meu inferno. Passei por catorze cirurgias (para construção da vagina), tive catorze virgindades. Sempre que ia “testar”, tinha um ponto errado, ou a posição do canal não estava certa, ou dava uma fístula… Só ficou tudo certo sete anos atrás.

Na parede do apartamento, você tem enquadrada uma carta de suicídio, escrita na juventude. Por quê?

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Essa carta meu pai me devolveu quatro dias antes de morrer (em dezembro de 2020). Tive duas tentativas de suicídio, uma aos 14 anos e outra aos 16. Essa (da parede) foi aos 16. Meu pai me deu a carta e falou: “Lembra disso? Viu o tanto de gente que você acabou ajudando na vida? Então, prometa que nunca mais vai pensar nisso, mesmo quando eu não estiver aqui”. Suicídio é uma atitude definitiva para problemas temporários.

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Por que quis se matar?

Pela sensação de desenquadramento, de não ser parte de nada, de não pertencer a nenhuma turma. Não me sentia como meu irmão, nem tinha o corpo da minha irmã. Também não me sentia gay. Quando vejo o pessoal reclamando que a cada hora tem uma letra nova (para LGBTQIA+), penso que quero mais é que elas multipliquem, que tenham 8 bilhões de letras, uma para cada pessoa no planeta. Senti uma alegria enorme quando me descobri parte de uma letra, entendi que não estava sozinha. Tudo que a gente quer é ser parte de um grupo. Eu não tinha nenhum, era muito triste, me sentia uma pessoa com um problema.

Teve dificuldade, também, para mudar o nome (chamava-se Alexandre)?

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Sim. Era 2006. Na época, era preciso autorização de um juiz. Fui para Porto Alegre, porque Curitiba era mais conservadora e a Justiça costumava negar. O juiz não aceitou só os laudos da cirurgia, me encaminhou para uma junta médica. Fiz um papanicolau com dez médicos e assessores me tocando, conferindo: “Tem clitóris? Sim. Entumece? Sim. Tem lábios?” — e assim por diante. Não fui um caso especial, quase todos os casos passavam por junta médica. Hoje, mudou tudo.

São Paulo tem vereadoras trans, como a Erika Hilton (PSOL) e o Thammy Miranda (PL). O que acha dos mandatos?

Acompanho de perto. Acho que a Erika tem uma importância de cobrar e fazer um controle social da Câmara. Gosto muito que não fica só em assuntos LGBTQs, mas discute questões dos servidores municipais, de previdência, está ligada em tudo.

Tem exemplo de o que pode dar errado na contratação de pessoas trans?

Recentemente houve um caso de assédio moral, no qual a profissional era pressionada a dar palestras mesmo não se sentindo à vontade. Falta muito para termos empresas humanas de verdade. A gente comemora migalhas, ainda. E eu comemoro cada migalha, devoro com voracidade.

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Publicado em VEJA São Paulo de 2 de fevereiro de 2022, edição nº 2774

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