Gabriel Leone volta ao teatro como Hamlet em montagem inédita no Cine Copan
Ator também prepara o lançamento de seu primeiro disco, "Minhas Lágrimas", aguarda a estreia de filme e integra nova temporada da série americana "Citadel"
Era uma segunda-feira de folga dos ensaios de seu novo espetáculo quando nos encontramos para a sessão de fotos e a entrevista desta reportagem, realizadas no edifício do antigo Cine Copan. Sob as luzes do cinema abandonado, Gabriel Leone estava à vontade. Acostumado aos holofotes e às câmeras, movimentava-se com segurança pelo espaço, que lembra um teatro grego em ruínas. Sugeriu poses, mas também se deixou conduzir pelo fotógrafo Christian Gaul.
Vestido com elegância, mas com certo ar despojado e autêntico, mantinha o olhar atento, profundo, concentrado. Em coisa de vinte minutos: “Temos!”, exclamou Gaul. A entrevista seria mais longa, quase uma hora e trinta minutos. Apaixonado pelo que faz, o estudioso Gabriel se deixa levar pela conversa e não mede tempo para falar sobre arte.
Depois de oito anos afastado dos palcos, o ator de 32 anos está de volta ao território onde iniciou a carreira artística: o teatro. Leone é o protagonista de Hamlet, Sonhos que Virão, montagem inédita do clássico de William Shakespeare, em cartaz desde quinta (19) no imóvel onde funcionou, há quatro décadas, o Cine Copan, abandonado fazia vinte anos. “Num momento em que vemos tantos teatros e cinemas de rua fechando, promover esse resgate é espetacular”, diz.
Montar Hamlet é um desejo antigo de Leone, compartilhado com o diretor Rafael Gomes, que conheceu em 2018, quando participou do elenco de Meu Álbum de Amores, longa dirigido por Rafael. “Num café, eu disse que o sonho da minha vida era fazer o Hamlet. E ele respondeu que o dele era dirigir a peça.” Match instantâneo.
Agora concretizado, o projeto o coloca diante de um dos personagens mais emblemáticos da dramaturgia mundial. Na tragédia shakespeariana, o fantasma do rei da Dinamarca ordena ao filho, Hamlet, que vingue seu assassinato, matando o tio regicida que usurpou o trono e se casou com a mãe de seu herdeiro. Hesitante, o príncipe finge loucura, mergulha em reflexões sobre a vida e a morte e caminha para um desfecho trágico.
“É um personagem cheio de dualidades e nuances, um príncipe que, de alguma forma, renega a guerra, a espada, é um amante das artes”, comenta Leone, que divide a cena com outros doze atores, como Eucir de Souza, Susana Ribeiro e Fafá Renó.
O local no qual a peça é encenada, sob medida, é parte essencial da dramaturgia. “Eu sempre quis fazer em um cinema desativado. Interessame a arqueologia urbana, a ocupação desses lugares cheios de histórias, fantasmas e camadas de memória”, ressalta Gomes. A grandiosidade e a ruína dialogam com a dimensão épica da peça. Em pouco mais de dois meses de ensaios, Gabriel buscou construir um Hamlet multifacetado.
“Ele é perfeccionista e cuidadoso, de um detalhamento impressionante. Quando um ator tão cheio de recursos encontra um personagem tão cheio de possibilidades, é incrível”, elogia o diretor. Foi ideia do ator, por exemplo, levar as mudanças de comportamento do príncipe para o corpo, por meio de arquétipos da commedia dell’arte.
A dramaturgia visual se apoia nos figurinos de Alexandre Herchcovitch, que misturam referências de realeza ao estilo contemporâneo do designer de moda. A trilha sonora, por sua vez, concebida por Antonio Pinto e Davidson Soares (o Barulhista), funciona como elemento constitutivo da encenação, preenchendo o espaço cênico.
A adaptação, que Rafael assina com Bernardo Marinho, contou com a tradução de Wagner Moura, Bárbara Harrington e Aderbal Freire-Filho (1941-2023), a mesma que baseou a bem-sucedida montagem protagonizada por Moura em 2008. “Ele foi um dos que mais me incentivou”, conta Leone sobre o amigo.
A versão preserva a poesia e a complexidade do texto, mas busca se aproximar do público ao evitar o rebuscamento. “Queremos que o jovem de 15, 16 anos venha assistir e saia dizendo como Hamlet, Shakespeare e o teatro são incríveis.”
O espetáculo é mais um passo em um momento cintilante de sua carreira, que nos últimos cinco anos lhe trouxe protagonistas como Pedro Machado Lomba, da série Dom, e Ayrton Senna, além de destaques como Bobbi, de O Agente Secreto, papel que fisgou por seu desempenho em Ferrari, de Michael Mann — longa que marcou a estreia dele em Hollywood, em 2023.
Impressionado com a performance, Kleber Mendonça Filho logo pensou nele. “Ele disse que precisava de um ator com presença marcante”, recorda. Entre tantos personagens do longa de Kleber, Bobbi é o segundo com mais tempo de tela, depois do personagem de Moura. “Mas ele pouco fala. O cinema permite trabalhar o tempo, a respiração, o olhar. Às vezes, em um close, o silêncio diz mais”, observa, lembrando que Akira Kurosawa (1910-1998), o grande cineasta japonês, escrevia cenas sem diálogos e só depois inseria as palavras que julgava essenciais.
Para filmar Ferrari, no qual interpreta o piloto espanhol Alfonso de Portago, Leone passou quatro meses em Módena, na Itália. Durante as filmagens, proporcionou ao pai, Luís Frota, a primeira viagem à Europa, levou-o ao set e o apresentou a Mann, de quem era fã. “Lembro de assistir a ‘O Último dos Moicanos’ com meu pai. Anos depois, me tornei admirador do diretor também.”
A experiência o conduziu a mais um trabalho internacional: a segunda temporada da série americana Citadel, no Prime Video, ainda sem data de estreia. Para abril, ele aguarda o lançamento de Barba Ensopada de Sangue, dirigido por Aly Muritiba e baseado no romance de Daniel Galera.
“É a história de um homem que perde o pai e vai em busca das próprias raízes por meio da história do avô gaúcho. Meu avô paterno também era gaúcho. Fui o primeiro neto e tinha uma relação muito próxima com ele. O filme me tocou fundo”, revela. No ano passado, filmou Véspera, série da HBO Max dirigida por Joana Jabace e baseada no livro de Carla Madeira, na qual interpreta os gêmeos Caim e Abel. Além de atuar, é roteirista e idealizador da produção, com estreia prevista para este ano.
Nascido e criado na Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, torcedor do Fluminense e da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, Leone começou no teatro aos 15 anos, no Colégio Marista São José, ao interpretar Cazuza em um trabalho escolar. “Lembro da sensação da luz quente no meu rosto. E da reação das pessoas, das risadas, da emoção. Essa troca humana mexeu muito comigo.” E foi decisiva.
Depois de entrar para a Companhia Teatral Notre Dame e estrear A Megera Domada, outra peça de Shakespeare, não parou mais. Lapidou o talento em musicais, fez muitos testes, recebeu muitas negativas até que, enfim, na novela Verdades Secretas, na TV Globo, veio a projeção nacional, que se consolidaria depois, em Velho Chico.
Leone se prepara ainda para se lançar como cantor. Dono de uma coleção de 3 000 vinis, ele sempre cultivou a música em sua vida pessoal e profissional. Tocou em banda na escola, estudou canto e fez diversos papéis que tinham a música como eixo.
Em março, lança pela Som Livre Minhas Lágrimas, álbum de dez faixas que revela um garimpo pelo repertório de artistas como Djavan, Caetano Veloso, Guinga, João Bosco, entre outros. “Digo que são pérolas que fui colecionando, são canções menos conhecidas destes compositores.” Um exemplo é Nós Dois, de Celso Adolfo, já lançada na forma de um single. O músico ficou tocado com a versão de Leone e comentou num post com o vídeo musical publicado no Instagram.
Em meio a tanto trabalho, tornou-se pai de Benjamin, de 5 meses, fruto do relacionamento de uma década com a atriz Carla Salle. Discreto, ele evita falar da vida pessoal. Voltemos, então, à expectativa em torno de O Agente Secreto, que concorre a quatro estatuetas no Oscar. “Não acho que precisamos de validação externa, mas, depois de anos de golpes duros contra a cultura, ver o Brasil dois anos seguidos com esse reconhecimento é maravilhoso. Mais importante do que qualquer prêmio é termos mais filmes sendo feitos e valorizados aqui. O povo indo ao cinema, ao teatro, orgulhoso da própria arte”, defende. Que assim seja.
Menino do Rio
Os pontos que o ator considera imperdíveis para quem visita sua cidade natal:
Prainha
A pequena enseada encravada entre Grumari e a Praia da Reserva, abrigada da zona urbana pela floresta da Tijuca, é um pedaço de paraíso frequentado por surfistas. O acesso é via carro particular ou aplicativo, não há transporte público que leve até lá.
Santa Teresa
Um dos bairros mais charmosos da cidade, conhecido por suas ladeiras, casarões históricos e o icônico bondinho que passa sobre os Arcos da Lapa. Com uma atmosfera boêmia e artística, abriga ateliês, museus, bons hotéis e oferece vistas panorâmicas inesquecíveis da cidade.
Theatro Municipal
Joia arquitetônica e cultural, o edifício na Cinelândia, inspirado na Ópera de Paris, foi inaugurado em 1909. Abriga orquestra, coro e companhia de balé, oferecendo espetáculos de alta qualidade, como óperas.
Urca
O bairro da Zona Sul, em que prevalecem casas e prédios baixos, é vizinhança da concorrida Mureta da Urca, local em frente ao Bar Urca onde se toma cerveja e comem-se petiscos com linda vista da Baía de Guanabara.
Hamlet, Sonhos que Virão. Nu Cine Copan. Avenida Ipiranga, 200, centro. Qua. e sex., 20h. Qui., 17h e 20h30. Sáb.,16h e 20h. Dom., 17h. R$ 25,00 a R$ 250,00. Até 19/4. nucinecopan.byinti.com





