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Love Cabaret abre as portas no Centro com shows eróticos e fetichistas

Demonstrações de sadomasoquismo, poledance e "sexo invisível" farão parte da programação em espaço que já abrigou a Love Story; conheça os artistas da casa

Por Humberto Abdo
9 jun 2023, 06h00

A partir de 23 de junho, o espaço que abrigou a Love Story por trinta anos deixará de ser balada, after e “a casa de todas as casas”. Rebatizado de Love Cabaret pelos sócios Caire Aoas, Facundo Guerra e Lily Scott, o endereço em frente ao Copan vai ganhar ares de casa de espetáculos com mesas ao redor de um palco circular (onde antes ficava a pista) e passará a funcionar de quarta a sábado, até 3 horas da manhã, com shows de dança e fetiches inspirados em antigos cabarés paulistanos.

“Há anos tenho a vontade de repensar um ambiente desses, que foi uma instituição importante na noite das décadas de 1960 e 1970, além de ter feito parte do movimento LGBTQIA+”, diz Facundo.

Serão cerca de cinco a sete shows por noite, com vertentes do burlesco, poledance, drag, voguing e sadomasoquismo, além de várias modalidades menos conhecidas. Entre as categorias mais esperadas e inusitadas estão o shibari, arte de origem japonesa com o uso de cordas para amarrar um parceiro de forma planejada e erótica, e o ASMR, com experiências auditivas — ou “sexo invisível”.

Três pessoas posam no centro de um palco iluminado e com faixas em preto e branco. Ao fundo, fileiras de esferas iluminadas aparecem no topo da foto. A partir da esquerda, o homem branco posa com as mãos unidas, veste calça jeans e camiseta longa cinza. A mulher é loira, veste terninho preto com faixa branca, salto preto e posa com os braços cruzados. O homem à direita veste jeans clara, camiseta branca, paletó cinza e posa com as mãos no bolso.
Facundo Guerra, Lily Scott e Caire Aoas: sócios do novo Love Cabaret. (Wanezza Soares/Veja SP)

“A Nestor Pestana tinha espetáculos de sexo ao vivo e eu fui quando era adolescente. A gente queria trazer o sexo, mas não de maneira explícita, então gravamos um casal transando em estúdio profissional com doze microfones”, explica Facundo. Atrelados ao áudio, os efeitos e luzes do palco vão simular o movimento desses corpos. “É potente, te deixa constrangido e com tesão, mas mais constrangido no meu caso, que ouvi tudo isso junto com os funcionários.”

O novo slogan, “a casa de todos os corpos”, resume a proposta de dar palco a desejos e artistas fora do padrão. “Eu pensava que sabia o que me dava prazer até ter contato com todos eles”, conta a drag queen Ikaro Kadoshi, que participa como curadora artística ao lado de Mayumi Sato, criadora da plataforma Sex Log, e da artista Indra Haretrava.

Definida após uma série de audições, a equipe composta de dezoito performers deve ser renovada a cada seis meses. “Teremos muito chicote, couro, velas, cera, essa parte de dominação, além de látex, balões e outros elementos que nem imaginamos que são capazes de despertar a sensualidade”, adianta Mayumi.

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O menu do restaurante será elaborado pelo chef Matheus Zanchini, do Borgo, e Michelly Rossi assina a carta de coquetéis. As entradas vão custar de 30 a 360 reais, com assentos em mesas, arquibancadas e camarotes do mezanino, cujos sofás vermelhos foram substituídos por um discreto roxo no projeto assinado pelo arquiteto Maurício Arruda. No total, o investimento foi de 5 milhões de reais, incluindo “lotes” vendidos para investidores por uma plataforma de financiamento coletivo.

Sem previsão de abertura, a outra novidade será o motel da rede Lush nos andares acima do edifício. “O acesso será pela rua e a pessoa vai poder reservar o quarto pelas nossas plataformas”, diz Caire. “E o nome será Andar de Cima, para se desgrudar dessa imagem de motel”, completa Lily. Nas mãos do trio de empresários, a nova fase da casa também promete se desgrudar cada vez mais do passado da Love Story, muito ligado ao sexo e à prostituição, para dar espaço aos rostos (e corpos) menos contemplados pelos holofotes da vida noturna paulistana até hoje. Conheça alguns deles:

Indra Haretrava

Travesti com cabelo preto preso e barba posa cantando em microfone e segurando um grande chapéu preto com material parecido com penas.
Indra Haretrava, curadora artística do Love Cabaret. (Wanezza Soares/Veja SP)

“Peregrinei pela Índia por um ano e escolhi aquele lugar para morrer.” Essa foi a viagem que serviu para deixar para trás seu eu do passado, explica Indra, e se reconhecer travesti. “Então digo que lá morri de fato para ser uma nova pessoa.” Descendo as escadas do Love, ela deve abrir as noites com uma apresentação musical e será ao mesmo tempo Indra e Maria Padilha — “a energia que me acompanha e protege” —, além de atuar como coordenadora artística da casa. “Sou filha de pastor e cresci cantando e achando que minha voz era do Espírito Santo, mas entendi que a voz é minha. Com ela, hoje posso conectar as pessoas.”

Aquele Mario

Homem branco sem camisa posa de braços e pernas abertos no centro de palco circular. Veste um shorts preto similar ao que é usado por boxeadores, e no ombro segura um pano preto com detalhes em néon, como uma toga.
Mario Filho (Aquele Mario): mestre de cerimônias do Love Cabaret. (Wanezza Soares/Veja SP)

Mestre de cerimônias do cabaré, Mario Filho (ou Aquele Mario, como costuma ser chamado) vai acolher os frequentadores e apresentar todas as cenas da noite. Formado em artes cênicas e visuais, ele veio de Fortaleza até São Paulo, onde chegou a trabalhar com Zé Celso e Antônio Abujamra. “Alguém me disse que eu deveria fazer teatro e, de baixista em banda de punk, passei a treinar balé clássico e fazer curso de palhaço”, diverte-se.

Após ser convidado para ensinar interpretação para atores pornôs, começou a produzir conteúdo adulto com performances artísticas. “Assim como nos números de palhaçaria que já apresentei em rodas de rua, quero trazer ao palco essa mesma figura que atrai pela sedução e pelo afeto.”

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Jelly Bunny

Mulher loira posa com uma das pernas dobrada, no centro de um palco circular preto e branco, segurando dois grandes leques vermelhos feitos de pluma atrás dela. Veste uma lingerie vermelha.
Jelly Bunny: shows burlescos. (Wanezza Soares/Veja SP)

“Trabalho com algo que ninguém espera: a gorda que sensualiza, acredita ser sexy e faz os outros acreditarem também.” Com vinte anos de experiência, Jelly canta e dança em sua versão burlesca, a estética e gênero teatral criados na Itália do século XVII. “É uma persona feita a partir dos meus medos e inseguranças, pois por muito tempo achei que não era digna ou bonita”, admite. “Eu pensava que seria sempre a coadjuvante, afinal essa é a ideia da sociedade para qualquer mulher fora do padrão.”

Além de performer, Jelly também é costureira e muitos dos figurinos são feitos por ela. “Tenho um closet enorme, a casa do chapeleiro maluco. Para os shows de junho, vou vestir vermelho com um leque grande de plumas, cristais e uma bela cabeleira… Adoro ser a Hebe Camargo”, brinca. “É uma camada de glamour, depois outra e ainda joga um glitter para finalizar.”

Gama Higai

Uma pessoa com vestido prateado, máscara de rosto feminino humano e peruca vermelha posa com uma mão na cintura e a outra estendida segurando um balão transparente gigante.
Gama Higai: apresentação com balões, látex, living doll e dog play. (Wanezza Soares/Veja SP)

Vários apetrechos compõem as cenas de Gama, que explora prazeres envolvendo máscaras, balões e controle de respiração — ou breath control, no termo em inglês. “São fetiches bem ‘lado B’, assim como eu”, resume, fazendo charme. “Para o Love, juntei todas as performances que criei desde 2018 e decidi dar uma roupagem burlesca, mas contemporânea.”

Batizado de Bubble Gama, o número terá elementos de striptease, sua máscara de boneca (chamada de living doll) cobrindo o rosto e as demonstrações com látex e balões gigantes, inflados na hora. “Nessas eu sou pioneiro no Brasil, além de mim só tem meu ex-namorado, e eu sou muito melhor que ele!”, alfineta, aos risos. “Parte da atração nos balões está no toque e no barulho, assim como a tensão e antecipação pelo momento em que ele estoura.”

Bela Violence

Mulher de cabelos pretos encaracolados aparece com adereços prateados que cobrem seus mamilos e saia com tiras na cor cinza. ela posa em frente a uma barra de poledance, com pernas abertas, as mãos segurando a barra no alto, e encara a câmera. Ao fundo, um salão com mesas redondas, cortina e iluminação néon.
Bela Violence: poledance e striptease interativo. (Wanezza Soares/Veja SP)

“Gosto de andar entre o que chamam de sensual e vulgar”, provoca Bela, responsável pelas sessões de striptease interativo e movimentos acrobáticos. “A pedido do Facundo, minha performance será inspirada em um trecho do filme Um Drink no Inferno, de Tarantino.” Na cena, a atriz Salma Hayek circula por um bar interagindo e atiçando a imaginação da plateia.

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“Sempre falo antes do show com quem vou interagir, só para deixar claras minhas regras e não quebrar o conceito”, explica. “Geralmente chamo a pessoa, faço acrobacias, dou um giro pela barra e caio em cima dela.” Na infância vivida no Chile, sua primeira experiência artística foi com a tradicional dança hebraica Harkadá. Após passar por várias modalidades, se apaixonou pelo pole dance. “Hoje em dia treino balé clássico, pilates e musculação para me aprimorar.”

Subby

Mulher de cabelos curtos posa em barra de poledance com uma mão erguida, o corpo de lado, as pernas abertas. Ela veste um vestido cor de vinho bem curto. Ao fundo, um salão com mesas redondas, cortina e iluminação néon.
Subby: danças em poledance na modalidade low flow. (Wanezza Soares/Veja SP)

“Vou dançar o desejo”, promete Subby, uma das artistas contratadas para se apresentar no pole dance. Professora desde 2017, ela chegou a treinar dança tribal e do ventre na adolescência, mas se conectou com a modalidade low flow. “O estilo resgata a sensualidade com transições no plano baixo da barra e envolve várias dificuldades técnicas, apesar da crença de que não tem valor por lidar com o erótico. Preciso sempre reafirmar a importância dessa dança.” E o efeito que as apresentações provocam no público não está necessariamente atrelado ao sexo, acredita ela. “É algo que causa um comichão nas pessoas e isso motiva meus movimentos, me dando mais força criativa.”

Preto Fetichista e Vanilla Mon

Uma mulher com top e saia vermelhos, de látex, aparece de lado sendo segurada por um homem negro, sem camisa, que veste calça cinza e um harness (peça em formato de cinto usada na altura do peitoral). Ela encara ele e ele encara a câmera. Ao fundo, um salão com mesas redondas, cortina e iluminação néon.
Preto Fetichista: BDSM no palco. (Wanezza Soares/Veja SP)

Sigla em inglês para “bondage, disciplina, dominação e submissão”, a prática do BDSM permeia todas as cenas de Preto Fetichista, que descobriu esse universo há onze anos. “Eu trabalhava como auxiliar de bar quando vi um casal usando uma coleira. Me peguei querendo ser o homem na coleira e comecei a vivenciar fetiches como esse.” Ao conviver com uma dominadora, o artista passou a entender a dinâmica de jogos de poder, podolatria (o prazer com os pés), chicotes e outros acessórios, sempre com o consentimento de todos os participantes — elemento indispensável em todas as cenas e técnicas do gênero.

“Comecei essa jornada no papel de submisso, a ponto de não poder ver uma masmorra (como são chamados os espaços de BDSM) e já querer colocar minha bunda para apanhar”, diverte-se. “Mas tudo é sempre muito acordado e cada um diz o que está disposto a fazer.”

No cabaré, o auge do seu show será o fire play, que consiste em acender uma chama na pele de sua parceira usando espuma (que evita queimaduras) e apagá-la com as mãos. “Fazer uma performance dessas ajuda a mostrar que essa é uma maneira de se libertar e se conectar. Existem muitos prazeres além da penetração.”

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Luiz Lobassi

Homem grisalho de barba se equilibra em monociclo e veste calças volumosas e ombreias com aparência de penas cinzas. Ele está em um palco circular iluminado e ao fundo aparecem esferas de luz branca.
Luiz Lobassi: malabarismos e poledance. (Wanezza Soares/Veja SP)

Malabarismo, palhaçada e erotismo se misturam na presença de Luiz, que tem um pouco de tudo no currículo. “Com 17 anos, já estava nos semáforos trabalhando como pirofagista (que faz números com fogo) e com malabarismo clássico”, relembra. Ao participar do projeto Luxúria, festa mensal dedicada ao público sadomasoquista, descobriu a modalidade, que acabou virando seu “carro-chefe”.

“Precisavam de um homem no pole dance e agora vivo disso há doze anos. No começo não davam aulas para homens, então meu professor foi o YouTube.” Para a estreia no cabaré, ele pretende assumir o papel de palhaço “bufão”, com direito a monociclo, fio-dental em formato de coração e suas acrobacias na barra. “Mas já sou um palhaço 24 horas por dia”, brinca.

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Publicado em VEJA São Paulo de 14 de junho de 2023, edição nº 2845

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