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Nascido e criado no Jaçanã, Leonardo Martinelli é revelação na cena lírica paulistana

Primeiro artista da cidade a receber uma encomenda de ópera do Teatro Municipal, músico se prepara para voltar à cena no Teatro São Pedro

Por Arnaldo Lorençato Atualizado em 14 abr 2022, 00h34 - Publicado em 14 abr 2022, 06h00

Um personagem de São Paulo e particularmente apaixonado pela Zona Norte. Assim é o compositor paulistano Leonardo Martinelli, 43. O músico, nascido e criado no Jaçanã e, hoje, morador do vizinho Tucuruvi, é fã do bairro eternizado no samba Trem das Onze, de Adoniran Barbosa. Mas não é só. Devotado à música clássica, Martinelli se projeta como talentoso autor de óperas com a estreia de Navalha na Carne, no Teatro Municipal, um dos principais palcos líricos do país.

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Montado em seis récitas, a última delas nesta quinta (14), o espetáculo teve ingressos esgotados devido ao sucesso de público — é ovacionado todas as noites. Martinelli agora prepara-se para o retorno musical com O Canto do Cisne, a ser encenada no Teatro São Pedro, em agosto.

A revelação de novos nomes dedicados a esse tipo de composição é rara. “Até tem mais gente se interessando em compor ópera. Mas não são tantas pessoas, porque não há muitas oportunidades”, acredita Martinelli, autor também da adaptação do texto teatral de Plínio Marcos (1935-1999).

A chegada de seu trabalho ao palco do Municipal se deu por convite do maestro Roberto Minczuk, que se interessou em montar a obra contemporânea. “Descobri que o teatro em seus 110 anos nunca havia feito uma encomenda de ópera a um autor, brasileiro ou não. Entrei em contato com o Martinelli, que já o conhecia, mas não profundamente. Ele me mostrou os trabalhos para voz e fiz o convite”, conta o regente. Foi assim que a peça começou a ser composta no segundo semestre de 2019.

Roberto Minczuk regendo
Roberto Minczuk: autor da encomenda operística a Martinelli, a primeira em 110 anos do Teatro Municipal Rafael Salvador/Reprodução

O embrião de Navalha na Carne, porém, surgiu em 2009 em frente ao Estádio do Pacaembu numa tarde quente do verão. Martinelli estava em uma van com a equipe de produção da peça A Conversão de Mahler, de Ronald Harwood (1934-2020). Ao lado, encontrava-se o Oswaldo Mendes, diretor do espetáculo e também biógrafo de Plínio Marcos. Mendes disparou para o músico: “Se você um dia fosse compor uma ópera a partir de uma peça do Plínio, qual escolheria?”. Sem hesitar, Martinelli respondeu: “Navalha na Carne”.

A tensa peça de Marcos ganhou corpo nas interpretações do tenor Fernando Portari (o cafetão Vado), da meio-soprano Luisa Francesconi (a prostituta Neusa Sueli) e do barítono Homero Velho (a travesti Veludo), mais a orquestra de cinquenta músicos sob a regência de Minczuk. São 55 minutos desafiadores, o espectador fica na beira da cadeira pelos desempenhos superlativos dos cantores, dirigidos cenicamente por Fernanda Maia.

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Como se trata de uma obra curta, o maestro encomendou uma segunda ópera também com texto do dramaturgo — é o que se chama de double bill, ou uma dobradinha. A escolhida é Homens de Papel, composta pela venezuelana Élodie Bouny, casada com o violonista gaúcho Yamandu Costa, e residente em Lisboa.

No proscênio, estão treze protagonistas mais coro e orquestra para contar a vida dura de catadores de papel a partir do libreto de Hugo Possolo e direção cênica de Zé Henrique de Paula. “Queríamos adaptar uma peça de um autor paulista e que tivesse a ver com a realidade do centro de São Paulo, como a que vemos em torno do Municipal”, afirma Minczuk. Embora os textos sejam de 1967 e 1968, respectivamente, continuam atualíssimos.

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Filho de um casal de professores de história da rede pública, Martinelli começou a estudar piano aos 10 anos. “É considerado tarde. Mas acabei engrenando”, diz. Como não vem de uma família de músicos, ele se lembra de que antigos fascículos de Mestres da Música, lançados pela Editora Abril, que publica VEJA SÃO PAULO, foram fundamentais. “Em casa, ouvia música por conta dessa coleção em que vinham encartados vinis”, recorda-se.

Ainda traz na memória número dedicado a Pastoral, a Sinfonia número 6, de Beethoven. “Naquela época, eu dizia que não gostava de ópera. Acredite”, entrega. Foi fisgado pelo gênero quando fez a cobertura do Festival Amazonas de Ópera, como colunista da Gazeta Mercantil, em 2005.

Coisa praticamente impensável hoje, Martinelli passou a frequentar sozinho o Municipal com apenas 14 anos. “Vinha de ônibus de um bairro que é quase Guarulhos. Meus pais me deram essa liberdade porque eram outros tempos”, conta. Uma etapa fundamental em sua formação se deu em 1995. Com 16 anos na época, ele foi aceito para a classe de composição do Festival de Campos do Jordão.

“As quatro semanas de imersão com o compositor Flo Menezes, que era o professor, foram um momento decisivo e um divisor de águas”, afirma. A vocação para a música era tão grande que essa foi sua escolha no vestibular para o bacharelado em composição e regência da Unesp, que na época ficava no Ipiranga e, hoje, tem um moderno câmpus na Barra Funda.

Os cantores Fernando Portari,Luisa Francesconi e HomeroVelho em seus personagens
Os cantores Fernando Portari, Luisa Francesconi e Homero Velho vivem personagens criados por Plínio Marcos Stig de Lavor/Reprodução

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Martinelli não tem apenas essa ópera entre suas composições. Ele também escreveu O Peru de Natal, a partir do conto de Mário de Andrade, levado ao Teatro São Pedro, na Barra Funda, em 2019, e Três Minutos de Sol, uma web-ópera de câmara encomendada pelo 23º Festival Amazonas de Ópera exibida em 2021 — com 26 minutos, foi gravada previamente para ser assistida no celular. Retorna ao mesmo São Pedro em agosto, com O Canto do Cisne, a partir do texto de Anton Tchékhov (1860-1904), e direção da Livia Sabag.

Na história do grande autor russo, havia como protagonista um ator veterano, que recebe uma homenagem por sua carreira. Nesta versão, por sugestão de Livia, também autora do libreto, o protagonista se transforma em uma mulher, a ser interpretada pela soprano Eliane Coelho, com notável carreira na Ópera de Viena. Além dela, há apenas outro personagem no palco, o ponto (o tenor Mauro Wrona), responsável, no passado, por soprar o texto para os artistas. Trata-se de uma ópera de câmara para vinte integrantes, bem diferente de Navalha na Carne. Para pôr na agenda.

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Publicado em VEJA São Paulo de 20 de abril de 2022, edição nº 2785

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