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As personagens femininas nas esculturas de Flávio Cerqueira

Cinco obras suas estão em exposição virtual na Galeria Leme; artista já passou por Pinacoteca e Masp

Por Tatiane de Assis Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
9 abr 2021, 06h00 • Atualizado em 27 Maio 2024, 20h25
Escultura de Flávio Cerqueira em bronze com uma menina de coque no cabelo segurando dois copos em cada ouvido
Como Se o Silêncio Dissesse Tudo (2020): foco nas mulheres (Romulo Fialdini/Divulgação)
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  • O artista paulista Flávio Cerqueira, de 37 anos, constrói sua fala em um fôlego só, enovelando episódios de sua vida. Esse jeito de estruturar o discurso, de algum modo, orienta sua produção, composta de esculturas de meninos, meninas e mulheres, em bronze. “Eu conto a história do meu pessoal, de gente que esbarrou comigo”, explica Cerqueira, que traz ainda dois pilares da sua pesquisa artística. “Há também narrativas históricas, que abordam temas como educação e racismo, e ficcionais, coisas que eu simplesmente crio, sem ter referência com a realidade”, conta.

    Escultura de Flávio Cerqueira em bronze com uma menina de pendurada no teto da Galeria Leme por três bexigas
    Atalho para a liberdade ( 2019): obra de Flávio Cerqueira, suspensa no teto da Galeria Leme (Romulo Fialdini/Divulgação)

    Cinco obras suas, como Atalho para a Liberdade (acima; 2019), estão em cartaz na Galeria Leme, na exposição virtual Um Mundo de Cada Vez. “A maioria dos meus personagens são homens. Minha mãe via isso e falava: ‘Quando você vai fazer uma menina?’. Fiquei com essa pergunta na cabeça e, nesta mostra, as esculturas são todas de mulheres.” Para entender a mudança, é preciso colocar em foco dona Floricélia Maria, matriarca baiana que veio para São Paulo com o primogênito na barriga.

    O artista Flávio Cerqueira posa ao lado de sua escultura, que mostra duas crianças em bronze, um no ombro do outro, pintando uma parede
    Flávio Cerqueira junto à escultura Better Together (2020) (Romulo Fialdini/Divulgação)

    “Fiquei a vida toda sendo chamado de ‘bicha’ pelos meus tios, porque minha mãe trabalhava o dia inteiro e eu tinha de cozinhar, lavar as roupas lá em casa”, recorda ele, que dá outra dimensão para essa questão quando fala de onde morava: “Eu cresci no bairro dos Pimentas, em Guarulhos, que é muito perigoso. Lá, ter pai é um luxo. O meu morreu de câncer, mas os outros pais ou sumiram ou tinham sido presos. A maior força das periferias são as mães, as mulheres”.

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    Escultura de Flávio Cerqueira em bronze com uma menina com uma placa STOP (de trânsito) na cabeça
    Cansei de Aceitar Assim (2020) (Romulo Fialdini/Divulgação)

    As obras de Cerqueira também estão nos acervos de museus. Amnésia (2015), que traz um garoto negro derrubando sobre si um balde de tinta branca, integra a coleção do Masp. Antes que Eu Me Esqueça (2013), protagonizada por um menino branco, com traços corporais relacionados à ascendência africana, foi adquirida pela Pinacoteca. De forma curiosa, os dois trabalhos parecem cenas de um mesmo filme. Se o primeiro garoto está em vias de se embranquecer, deixando a história de seus ancestrais de lado, o segundo parece já ter realizado essa operação.

    Escultura de Flávio Cerqueira em bronze de um menino jogando tinta branca em sua cabeça
    Amnésia (2015) (Romulo Fialdini/Divulgação)
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    O tom alvo de sua pele, por sua vez, precisa ser examinado com atenção. A textura com ar industrial sugere a artificialidade do processo, que não se dá propriamente na epiderme, mas no vestir, falar, no encrespar ou não do cabelo. Ao final, parece sobrar dessa necessidade de adaptação o olhar do personagem, um tanto perdido, diante do espelho.

    Vários quadros dispostos em uma parede branca, um deles é um espelho e da para ver o fotógrafo tirando a foto
    Antes que Eu Me Esqueça (2013): obras no Masp e na Pinacoteca (Levi Fanan/Pinacoteca/Divulgação)

    Mesmo com a viabilização por financiamento coletivo de um livro, que cataloga sua produção entre 2009 e 2019, com participação em exposições em países como Portugal, África do Sul e Japão, e com obras alcançando valores de até 150 000 reais, Cerqueira mantém os pés no chão e descarta a capa de herói: “Sou dedicado, ‘sangue nos zói’, mas não cheguei aqui sozinho. Tive a ajuda de muitas pessoas”. Uma delas foi a também artista Nazareth Pacheco, que o conheceu nos anos 2000, quando ele dividia sua vida entre a criação das esculturas e o trabalho de montagem de exposições na galeria paulistana Casa Triângulo.

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    Escultura de Flávio Cerqueira em bronze de um menino observando em uma luneta
    Para Dar Nomes às Coisas (2021): um convite, em bronze, para mirar o céu (Romulo Fialdini/Divulgação)

    “Desde o início, via-se que o Flávio ia além do saber fazer, ele sempre incluía questões relacionadas à identidade, à memória”, recorda ela. Hoje, quinze anos depois, Nazareth ainda o acompanha, em tom de admiração: “Ele está indo muito bem. Meu conselho agora é continuar, seguir firme”.

    Livro chamado Flávio Cerqueira. Capa mostra uma obra dele de uma escultura um garoto em bronze
    Livro sobre a produção de Cerqueira: viabilização veio de um financiamento colaborativo (André Ricci/Divulgação)
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    Publicado em VEJA São Paulo de 14 de abril de 2021, edição nº 2733

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