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Prédio centenário que abrigou colégio começa a ser restaurado no Ipiranga

Um dos prédios mais antigos do Ipiranga, vazio desde 2008, é restaurado para voltar a receber alunos a partir do ano que vem

Por Ana Garcia
Atualizado em 8 set 2022, 23h33 - Publicado em 8 set 2022, 21h00

Um dos prédios mais antigos do Ipiranga está prestes a voltar à ativa. Construído em 1926 pelo conde José Vicente de Azevedo, um advogado e político ilustre no período da industrialização paulistana, o edifício abrigou originalmente o Grupo Escolar São José, que funcionou ali até o fim dos anos 1950.

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Na década de 60, serviu de sede para um curso técnico e depois, de 1967 a 2008, para a Universidade São Marcos. De lá para cá, a estrutura de arquitetura eclética e 6 200 metros quadrados de área construída ficou vazia. Mas um restauro cuidadoso (feito por um ex-aluno que se tornou referência no ramo) e uma série de obras para equipá-lo, ao custo total de 35 milhões de reais, vão permitir que volte a ter alunos nas carteiras em 2023.

Imagem mostra fonte em área externa, perto de árvore. Ela é cinza e tem formatos de cavalos e anjos.
Arquitetura centenária: fonte na área externa do colégio. (Leo Dias/Veja SP)

O edifício quase centenário, localizado na Avenida Nazaré, vai virar uma unidade da Escola Mais, a oitava do grupo na cidade. Terá até 1 200 alunos de ensino fundamental e médio, em período integral, com mensalidades de 1 300 reais. “É um modelo de preço justo e com atividades práticas fora da sala de aula, de forma contemporânea”, diz José Aliperti, sócio da Escola Mais e um dos idealizadores do projeto — que ainda aguarda aprovação da Secretaria de Educação.

“O prédio nasceu com vocação para o ensino”, diz Carlos Eduardo Vecchio, 80, presidente da Fundação Nossa Senhora Auxiliadora do Ipiranga (Funsai), a dona do prédio. Bisneto do conde Azevedo, Vecchio ocupou os bancos do antigo grupo escolar dos 7 aos 11 anos. “Não era muito disciplinado, costumava ir para a diretoria. Mas a diretora era minha tia”, ele conta.

O restauro foi feito por Antonio Sarasá, 54, que já recuperou locais como a Pinacoteca, a Sala São Paulo, o Museu de Arte Sacra de Ouro Preto (MG) e o Casarão Nhonhô Magalhães, em Higienópolis (capa da Vejinha em junho).

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Imagem mostra escultura religiosa em teto de construção antiga.
Arquitetura centenária: escultura do lado de fora da mansarda (ou “andar falso”). (Leo Dias/Veja SP)

O prédio tem um significado especial para o restaurador: nascido e criado no Ipiranga, ele foi aluno ali nos tempos da Universidade São Marcos, quando cursava administração de empresas. “Tenho paixão pelo lugar”, diz. Sarasá e a equipe se debruçam sobre detalhes ricos do edifício, como a mansarda, uma espécie de sótão com cômodos — ou “andar falso”.

Na futura escola, o piso abrigará a sala dos professores e um ateliê. A cal do restauro será aplicada com a mesma técnica da construção original, que deixa o ambiente mais transpirável. Também um “patrimônio” do Ipiranga, o pai do restaurador, Gerardo Sarasá, teve um importante ateliê no bairro após emigrar de Girona, na Espanha, voltado a azulejos e vitrais.

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O conde Azevedo (que, na verdade, tinha o título de conde romano, outorgado pelo papa Pio XI em 1935) era católico fervoroso e filantropo. Além do grupo escolar, fundou o Instituto para Cegos Padre Chico (agora Colégio Vicentino de Cegos Padre Chico) e a Clínica Infantil do Ipiranga (o atual Hospital Dom Alvarenga).

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Junto do colégio, as edificações fazem parte da primeira ocupação do bairro, a partir de 1890. Em 2007, o conjunto foi tombado pelo Conpresp (o conselho municipal de preservação do patrimônio).

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A primeira unidade da Escola Mais surgiu em 2018, na Penha. De lá para cá, outras filiais abriram as portas em bairros como Vila Sônia e Jardim Marajoara. A fórmula aposta em preço acessível e rápida multiplicação — o plano dos acionistas é chegar a trinta endereços em São Paulo.

Imagem mostra escadaria interna, com os degraus sujos de pó.
Arquitetura centenária: a escadaria que corre risco de desaparecer. (Leo Martins/Veja SP)

A marca pertence à Bahema, grupo de investimentos em educação que comprou a Escola da Vila, em 2017. Talvez nem todos os aspectos históricos do edifício no Ipiranga sejam mantidos como no original. Um ponto de tensão são as escadarias (foto acima). Distribuídas pela ala direita e esquerda do prédio de forma simétrica, elas podem precisar ser refeitas, porque são mais estreitas que a norma de segurança exigida pelos bombeiros.

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Comovido com o possível fim dos degraus do início do século XX, Vecchio rememora os tempos de criança. “Os professores diziam: meninas sobem por uma ala, meninos pela outra. Tem de respeitar as meninas!”, ele relembra.

Também o guarda-corpo de balaústres de ferro fundido deve ser modificado, dada a dificuldade em adaptá- lo às regras contemporâneas. De qualquer maneira, a vida se restabelece no edifício histórico do bairro da Zona Sul, que volta às manchetes no Bicentenário da Independência — o colégio e o recém-reinaugurado Museu do Ipiranga são separados por apenas 600 metros. A mudança emociona o ex-aluno meio indisciplinado do velho “grupo”. “O prédio vai voltar a respirar as crianças, e crianças vão voltar a respirá-lo”, diz Vecchio.

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Publicado em VEJA São Paulo de 14  de setembro de 2022, edição nº 2806

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