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Mostra reúne pinturas inéditas no Brasil feitas por Antonio Dias durante exílio na Itália

'Image + Mirage', em cartaz na Gomide & Co, traz obras políticas, em resposta ao fracasso dos movimentos de libertação no mundo no fim da década de 1960

Por Laura Pereira Lima
11 fev 2026, 19h19 •
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Terror Square: o jogo de palavras é um dos destaques da exposição (Edouard Fraipont/Divulgação)
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  • Nome central da arte contemporânea brasileira, Antonio Dias (1944-2018) tem uma produção marcada pelo ecletismo. O artista paraibano, que se mudou para o Rio de Janeiro aos 14 anos, circulou por diversos movimentos artísticos do Brasil e do mundo — explorando ora leituras irônicas da pop art, ora proposições austeras e mais minimalistas.

    Um desses movimentos de mutação no seu trabalho é o cerne da exposição Image + Mirage, composta por obras produzidas por Dias enquanto ele viveu em Milão, entre 1968 e 1971. Em cartaz na Gomide & Co até 21 de março, a mostra exibe nove pinturas preservadas por Gió Marconi, filho de Giorgio Marconi (1930-2024), galerista que acolheu a produção de Antonio Dias em sua passagem pela Itália.

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    (Edouard Fraipont/Divulgação)

    O conjunto traz obras em cores sóbrias e com poucos elementos, reflexo de um momento em que ele se aproxima da arte conceitual e questiona o sentido da própria arte.

    São trabalhos, em sua maioria, inéditos no Brasil — apenas dois deles cruzaram o Atlântico, na ocasião da Bienal de Arte de 2021. “Acho que vai ser uma ótima oportunidade para que os brasileiros conheçam essa série, que é tão única e política”, afirma Gió Marconi.

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    (EdouardF raipont/Divulgação)
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    Além das pinturas, a exposição exibe um curta produzido por Dias e documentos inéditos guardados no acervo do Instituto de Arte Contemporânea (IAC), como rascunhos, anotações e críticas de sua produção que saíram na imprensa italiana — traduzidas por ele mesmo e armazenadas em seu arquivo pessoal.

    “O trabalho que ele produz nessa época é notável por ser de um artista brasileiro, da periferia do capitalismo, em exílio político na Europa”, explica Gustavo Motta, curador da mostra, que tem expografia de Deyson Gilbert. Dias foge do Brasil em 1967, por conta do clima opressivo da ditadura — apesar de não ter sido extraditado oficialmente, ele estava na mira da polícia, que chegou a sondar com viaturas a casa de sua mãe. Aproveitando que tinha ganhado um prêmio em Paris, se instalou na cidade, mas, após se envolver com as greves estudantis e operárias de maio de 1968, teve o visto revogado e precisou se mudar novamente, desta vez para Milão.

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    (Edouard Fraipont/Divulgação)

    A nova fase artística que protagoniza a exposição surge à luz dessas sucessivas derrotas dos movimentos de libertação que vivenciou ao redor do mundo. ”Não é à toa que os quadros têm uma coisa meio funérea, pesada, com uma linguagem mais seca. São como grandes lápides”, nota o curador.

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    A obra que dá título à exposição, Image + Mirage, é um bom exemplo do caráter reflexivo e crítico que domina sua produção no período. Sobre o quadro de grandes proporções, linhas simulam a tela de uma câmera, ou a mira de uma arma, com uma cruz no centro. Por trás da mira, contudo, não há imagem para ser vista. “Ele faz um jogo de ampliar o campo visual, trazendo um quadro grande, mas não dá o elemento de gozo, que seria a imagem”, aponta Motta.

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    Obra ‘Image/Mirage’, que dá título à exposição (Edouard Fraipont/Divulgação)

    Outra característica do conjunto é a utilização de palavras em inglês. “Era um uso um pouco ironizado, um mecanismo de sobrevivência. Ele pegava a linguagem do outro, a linguagem dominante, e tentava trabalhá-la de forma crítica”, diz Motta, citando Terror Square, que traz um quadrado no centro da tela e que brinca com os dois sentidos da palavra “square” em inglês: por um lado, o “quadrado do terror”, algo que remete a uma jaula, por outro, a “praça do terror”, que dialoga com o histórico da repressão policial, segundo o curador.

    A exposição em cartaz na Gomide & Co é a continuação de uma outra realizada em outubro de 2025 na galeria Sprovieri, em Londres, que reuniu outras obras da mesma época, também preservadas por Gió Marconi. “Meu pai vendeu muitas obras de Antonio, mas também guardou várias para si”, explica o galerista italiano.

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    Apesar de Gió ter tido pouco contato com o brasileiro, o pai, Giorgio, foi uma das figuras centrais na trajetória de Antonio Dias. “Ele e o Marconi eram muito próximos”, lembra Iole de Freitas, casada com Dias entre 1970 e 1978. “Antonio constantemente reivindicava seus direitos e interesses como artista, e por isso eles brigavam muito. Mas, no fim, Giorgio sempre atendia seus pedidos”, completa Iole, citando que foi a galeria que arcou com os custos do aluguel do ateliê do ex-marido em Milão.

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    Exposição de Antonio Dias na Itália em 1971 (Enrico Cattaneo/ Studio Marconi/Reprodução)

    Além dele, o Studio Marconi também representou artistas como Joan Miró, Man Ray, Alexander Calder, Joseph Beuys e Sonia Delaunay. “Milão era uma cidade que tinha uma atmosfera de artistas muito presente”, conta Michela Scotti, especialista em arte contemporânea e amiga de Dias. Ela conta que por seu ateliê passavam nomes como Alighiero Boetti (1940-1994) e Haroldo de Campos (1929-2003).

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    Antonio Dias (à dir.) em temporada italiana (Enrico Cattaneo/ Studio Marconi/Reprodução)
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    Depois do período em Milão, ele partiu para Nova York, após ganhar uma bolsa no Museu Solomon R. Guggenheim e passou o resto da vida entre Colônia, na Alemanha, Milão e Rio de Janeiro. “Ele estava sempre em movimento, sempre viajando. Nunca gostou da ideia de ser considerado um artista brasileiro, se sentia mais um artista internacional”, aponta Scotti. No campo pessoal, contudo, ele tinha suas filiações emocionais, lembra a amiga italiana. “Milão era sua segunda casa, mas no fim, Brasil era seu país”.

    Gomide & Co. Avenida Paulista, 2644, Jardim Paulista, 3853- 5800. → Seg. a sex., 10h/19h. Sáb., 11h/17h. Grátis. Até 21/3.

    Publicado em VEJA São Paulo de 13 de fevereiro de 2026, edição nº2982

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