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A Indesejada

Por Ivan Angelo 6 nov 2015, 23h00 | Atualizado em 5 dez 2016, 11h54
Crônica Ivan Ângelo - Indesejada
Crônica Ivan Ângelo - Indesejada (/)
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Quando a Indesejada das gentes chegar, diz o poeta Manuel Bandeira em Consoada, encontrará lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, cada coisa em seu lugar. Ele, tuberculoso de muitos anos, assumira a atitude estoica de estar preparado, “viver como que provisoriamente”.

Lá no fundo, consideraria ele a sua condição um triste handicap? Há certo orgulho humilde, se é possível isso, na atitude do poeta. Nem todos poderão ter o campo lavrado. Muitas vezes a Indesejada vem de supetão, pega a casa desarrumada, coisas por fazer.

Em setembro passado, falou-se muito da morte trágica do jovem ator James Dean, ocorrida há sessenta anos, quando um carro em alta velocidade espatifou o seu Porsche na estrada. O que não se falou foi que, dias antes do acidente, Dean havia gravado um comercial para seu último filme, Giant, no qual o entrevistador lhe perguntou se teria algum conselho para dar aos jovens. “Tome cuidado ao dirigir”, ele respondeu.

“A vida que você salva pode ser a minha.” Nesta semana pós-Finados, desculpem o assunto da crônica: mortos que não tiveram tempo de arrumar a casa. Como o impressionante caso do ator, autor teatral e apresentador Gláucio Gil, que morreu ao vivo, na TV Globo, também há sessenta anos.

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A emissora tinha apenas cinco meses de vida, e Gláucio Gil, 33 anos, apresentava o Show da Noite. Naquele dia, abriu seu programa de entrevistas dizendo: “Hoje é sexta-feira, 13 de agosto, mas até agora vai tudo caminhando bem, felizmente”. Dez minutos depois, no ar, sofreu um infarto brutal. A câmara desviou-se, o programa saiu do ar e o apresentador morreu no sofá do estúdio.

Outro caso de morte súbita na televisão: conta o escritor Humberto Werneck, em O Desatino da Rapaziada, que o exprefeito de Belo Horizonte Otacílio Negrão de Lima (criador da Lagoa da Pampulha, do Estádio Independência e do Minas Tênis Clube) fazia uma saudação ao candidato a governador Tancredo Neves na Associação Comercial de Minas, em 30 de maio de 1960, quando morreu de infarto “diante das câmaras da TV Itacolomi”.

Mais televisão fatal: em 1971, o escritor e defensor da vida saudável Jerome I. Rodale, de 72 anos, era entrevistado no programa The Dick Cavett Show e acabara de proclamar “Decidi viver até os 100 anos” e “Nunca me senti tão bem na minha vida!” quando morreu de um ataque cardíaco, sentado na cadeira do estúdio.

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Pois é, muitas vezes a vida saudável não faz bem. O esportista Jim Fixx passou parte da sua existência defendendo o jogging como cura para tudo, e sofreu morte súbita correndo. Não imaginava que tivesse artérias entupidas.

Durante muitos anos, a propaganda dos cigarros Marlboro apresentava aqueles garotões saudáveis tipo caubóis em paisagens selvagens de grande beleza, ligando fumo a saúde, e atraía incautos com a frase “Venha para o mundo de Marlboro”. Dois desses garotões, Wayne McLaren e David McLean, morreram de câncer no pulmão, em 1992 e 1995.

Não foi morte súbita, mas morreram jovens. A mais insólita visita da Indesejada de que tenho notícia, e que encontrei em uma miscelânea de fatos esquisitos, The Book of Weird and Unusual Trivia, aconteceu num tribunal de Justiça. O advogado Clement Vallandigham argumentava que a vítima não fora assassinada, mas se matara acidentalmente ao sacar a pistola.

Na demonstração que o advogado fez perante o júri, sua arma disparou, atingindo-o mortalmente. Foi uma vitória póstuma: o júri absolveu o acusado. Melhor voltar a Manuel Bandeira e a seu estoicismo. Quando a Indesejada chegar, diz ele, “Talvez eu tenha medo, / Talvez sorria, ou diga: / — Alô, iniludível!”. Só quem viveu, como ele, a longa espera pode tratá-la assim, como companheira de estrada.

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