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Em Terapia

Por Arnaldo Cheixas
Terapeuta analítico-comportamental e mestre em Neurociências e Comportamento pela USP, Cheixas propõe usar a psicologia na abordagem de temas relevantes sobre a vida na metrópole.
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A culpa dos pais e a poça de lama

É comum ouvir de meus pacientes adolescentes e adultos jovens que determinado problema que estão enfrentando “é culpa” do modo como os pais os criaram. “Meu pai gritava demais comigo!”, “Minha mãe me impedia de fazer as coisas do meu modo!”, “Eles me batiam!”, “Meus pais sempre preferiram meu irmão!” ou “Fui protegido demais!” são […]

Por VEJASP
Atualizado em 26 fev 2017, 23h26 - Publicado em 27 nov 2013, 21h19

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É comum ouvir de meus pacientes adolescentes e adultos jovens que determinado problema que estão enfrentando “é culpa” do modo como os pais os criaram. “Meu pai gritava demais comigo!”, “Minha mãe me impedia de fazer as coisas do meu modo!”, “Eles me batiam!”, “Meus pais sempre preferiram meu irmão!” ou “Fui protegido demais!” são exemplos de frases bastante presentes na clínica. Os problemas que seriam frutos dessas ações equivocadas dos pais passam por consumo de substâncias químicas, abandono dos estudos ou da profissão, dificuldade em estabelecer um relacionamento afetivo saudável, timidez etc., muitas vezes em intersecção com psicopatologias como depressão, ansiedade, traços compulsivos etc. Mas, afinal, o que podemos fazer em relação a esses equívocos?

Sempre que um paciente me conta repetidamente (ao longo de semanas ou meses) como seus pais são culpados por ele não ter terminado a faculdade ou não ter conseguido o emprego ideal (e, sendo assim, “Para quê vou arrumar um emprego que esteja abaixo do que eu poderia ter conseguido se eles tivessem agido da maneira certa no passado?”), eu lhe conto a história da poça de lama. Digamos que o paciente Teobaldo tenha me dito que não conseguiu concluir a faculdade de Direito porque sofria muita pressão dos pais. Hoje, aos 28 anos, ele não trabalha, mora com os pais e começou a consumir álcool exageradamente. Eu explico que a situação difícil em que ele se encontra é a poça de lama. E que ele está ali porque foi jogado pelos pais (ou intencionalmente – raro – ou porque esbarraram nele sem intenção, o que fez com que ele caísse na lama). Na metáfora, eu digo que o início da terapia representa o momento em que eu passei pela calçada e o vi largado na poça de lama, ocasião em que ele me diz: “Você viu só que me jogaram aqui nessa lama? Estou com a roupa toda suja! Que droga, eu estava indo numa festa!” Eu me solidarizo, digo que realmente aquela atitude de empurrá-lo na poça de lama foi lamentável e que foi uma pena ele ter perdido a festa.

Façamos uma pausa antes de chegarmos ao fim da história. Na metáfora, segui caminhando para fazer compras no supermercado. E aproveitamos para falar de um princípio importante sobre o que causa os comportamentos.

A forma como cada um de nós é recebe influência de diversos fatores. Somos resultado de uma combinação de elementos da genética e da nossa história de interação com o ambiente. Quando queremos entender um determinado comportamento, é comum que nos debrucemos sobre o problema com uma dúvida dualista, do tipo “nature X nurture” (natureza X criação). Quando uma criança, por exemplo, comete um crime, assistimos a uma enxurrada de especialistas e jornalistas discutindo na imprensa se aquela criança teve uma criação que a transformou numa assassina ou se, na verdade, aquele comportamento foi determinado por alguma anomalia genética. Não é fácil responder a essa questão, mas parece cada vez mais claro que a explicação passa tanto pela genética quanto pela criação.

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Um modo interessante de observar como tanto a criação quanto a genética são importantes na determinação do comportamento é notarmos o que acontece com gêmeos idênticos criados separadamente. Embora possuam configuração genética idêntica, desenvolverão repertórios comportamentais muito distintos. Um, se criado por artistas, pode desenvolver habilidades musicais, sensibilidade aguçada para cores e assim por diante. O outro, se criado por engenheiros, poderá desenvolver habilidades relacionadas à lógica. E, no fundo, serão diferentes ainda que criados pelos mesmos pais. Claro que estamos elaborando exemplos grosseiros. Mas eles nos dão uma ideia consistente de como a genética não explica tudo. Inversamente, todos nós já ouvimos sobre alguém cujo pai ou cuja mãe morreu quando ele próprio era ainda muito jovem que, ainda que não tenha crescido com o progenitor, apresenta algum comportamento “igualzinho” ao dele(a): “Essa menina tem uma mania de morder os lábios exatamente como o pai dela fazia!”.

Muito bem. Já está claro que o modo como somos, sentimos e nos comportamos é determinado tanto pela criação (história de vida) quanto pela genética (Céus! Os pais são, ainda assim, culpados!). Mas então não há nada que possamos fazer em relação aos nossos “defeitos” comportamentais e emocionais? A boa notícia é que há sim!

Voltemos a nossa metáfora da poça de lama. Como disse, eu havia ido ao supermercado fazer compras. Gastei mais de duas horas nessa ação. Pois bem. Acontece que, na volta, passo pelo mesmo local da poça de lama. Que situação eu encontro? Lá está o Teobaldo, ainda caído na poça, vociferando com ainda mais intensidade para mim: “Você viu só que me jogaram aqui nessa lama? Estou com a roupa toda suja! Que droga, eu estava indo numa festa!” Você deve estar se perguntando: “Por que raios esse Teobaldo ainda não se levantou dessa poça de lama?”. Pois é exatamente isso o que muitas vezes fazemos em relação a situações que gostaríamos que fossem diferentes. Perceber que está na lama é um passo importante para mudar a situação. Mas o passo seguinte é levantar-se, ainda que com a ajuda de alguém. Responsabilizar nossos pais pelo que deu errado faz sentido… só que apenas até a página 2. Dali por diante, é importante que nos mobilizemos de algum modo para buscar as mudanças que queiramos em nossas vidas. Sem que nós mesmos nos mobilizemos, é pouco provável que a situação melhore. Após a mobilização inicial, é certo que podemos contar com o apoio de outras pessoas, sejam elas amigos, familiares e mesmo profissionais de saúde. Temos sempre de refletir se a dificuldade de mudança é realmente porque não há saída ou se, na verdade, é porque nos acomodamos em nossa zona de conforto, na qual podemos responsabilizar os pais pelas dificuldades que temos. Teobaldo ficou ali na lama por semanas, meses, anos… e cada vez que alguém passava por ele, ele repetia de forma cada vez mais passional: “Você viu só que me jogaram aqui nessa lama? Estou com a roupa toda suja! Que droga, eu estava indo numa festa!”. E tantos anos passaram que Teobaldo perdeu dezenas de outras festas enquanto ficava na lama repetindo a mesma história.

E aí, você quer agir como o Teobaldo ou quer ir na festa da semana que vem?

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