‘Ópera do Malandro’ renova clássico de Chico com força política e visual
Espetáculo protagonizado por José Loreto e dirigido por Jorge Farjalla está em cartaz no Teatro Renault
Concebida por Jorge Farjalla com direção musical de Gui Leal, Ópera do Malandro — Musical, em cartaz no Teatro Renault, é uma versão inédita do clássico de 1978 de Chico Buarque, que adaptou para a realidade brasileira as obras A Ópera do Três Vinténs (1928), do alemão Bertolt Brecht (1898-1956) e A Ópera do Mendigo (1728), do inglês John Gay (1685-1732).
No centro está Max Overseas (José Loreto), contrabandista que se casa às escondidas com Teresinha (Carol Costa), filha de Duran (Ernani Moraes) e Vitória Régia (Totia Meirelles), donos de um bordel. Entre chantagens e alianças promíscuas com o delegado Chaves (Amaury Lorenzo, irreconhecível), instala-se uma guerra de interesses em que todos negociam vantagens morais e financeiras.
Comentário contundente sobre intolerância, hipocrisia e jogos de poder, a leitura de Farjalla mergulha no sincretismo da umbanda, evocando as entidades do “povo da rua” como camada simbólica para as personagens.
A encenação aposta em atmosfera festiva e num tom melodramático reforçado pelo visagismo de Simone Momo, que transforma a maquiagem em máscaras, e os sofisticados figurinos de Ùga Agú e Farjalla.
É no número de Geni, vivida por Valéria Barcellos, aplaudida de pé por sua interpretação visceral, que a montagem explicita um de seus eixos mais fortes. Ao sublinhar a violência dirigida à personagem — alvo de desejo e, ao mesmo tempo, de repulsa coletiva — duplicada na atriz Marina Mathey, também trans, que performa em sincronia com Valéria, cria um libelo contra a homofobia e outras exclusões. É impactante ver a enorme bandeira da comunidade transgênero cravejada de tiros flamulando no centro do palco enquanto o coro acusatório pede seu apedrejamento.
Farjalla reafirma a vitalidade da obra de Chico Buarque, que com sátira, lirismo e crítica social, encanta, mas também alerta (120min). 14 anos.
Teatro Renault. Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista. → Sex., 21h. Sáb., 17h e 21h. Dom., 15h e 19h. R$ 50,00 a R$ 350,00. Até 15/3. ticketsforfun.com.br.
Avaliação: ÓTIMO (quatro estrelas)
Publicado em VEJA São Paulo de 13 de fevereiro de 2026, edição nº2982





