Cúrcuma, eletrólito e arrependimento: o detox pós carnaval
O ritual de recuperação que a cidade repete todo ano diz menos sobre saúde do que sobre a necessidade humana de recomeçar
Quarta-feira de Cinzas. O sambódromo ainda cheira a purpurina e cerveja quente, as ruas da Barra Funda guardam confetes presos entre as pedras do calçamento, e a cidade acorda com aquela cara de quem sabe que foi longe demais, mas não se arrepende de quase nada.
É o dia em que São Paulo vira uma clínica de reabilitação espontânea e coletiva. Nas academias do Itaim, a fila para a aula de funcional às sete da manhã é maior do que o normal. As pessoas chegam com olheira e determinação em partes iguais. O instrutor, que também esteve na folia de sexta a domingo, faz de conta que não percebe o cheiro residual de cerveja artesanal e comanda os agachamentos com o entusiasmo de quem precisa acreditar em algo.
Nos bares naturais do Pinheiros, esses com nomes que parecem títulos de teses de nutrição, o green juice de couve com gengibre vira a nova caipirinha. As pessoas pedem como quem pede perdão. “Um shot de cúrcuma também, por favor.” A atendente não pisca. Ela já viu isso antes. Todo ano é assim.
O que ninguém conta é que o detox pós-Carnaval tem muito mais de ritual do que de ciência. Não que a ciência seja irrelevante. O fígado, coitado, passou dias recebendo álcool, frituras e aquele pastel de feira que foi comido de pé, às duas da tarde, depois de três blocos. O corpo pede água, sono e uma quantidade razoável de folhas verdes. Isso é real.
Mas o que move a cidade nas primeiras horas depois da festa não é exatamente a bioquímica, é a necessidade humana, profunda e meio enternecedora, de recomeçar. O Carnaval tem essa generosidade, ele autoriza o excesso e, ao mesmo tempo, entrega de volta o desejo de moderação. É um reset emocional fantasiado de abadá.
No metrô da linha verde, uma mulher com uma sacola de supermercado cheia de beterraba, cenoura e limão siciliano dorme encostada na janela. Ao lado, um homem de óculos de sol, dentro do vagão, às dez da manhã, segura um copo de água com eletrólitos como se fosse uma medalha. Dois homens à frente conversam sobre jejum intermitente com a seriedade de quem conversa sobre questões de Estado. Ninguém os julga. Carnaval cria cumplicidade.
Nas clínicas de nutrição da Vila Olímpia, as agendas lotam já na semana anterior à Quarta de Cinzas. Nutricionistas elaboram “protocolos de recuperação” com a mesma solenidade com que cardiologistas elaboram planos pós-cirúrgicos. Há cardápios de três dias, de cinco dias, de duas semanas. Há suplementos, chás, caldos de osso e uma variedade de sementes que parecem vir todas do mesmo lugar no interior do Maranhão.
O mercado do detox, aliás, movimenta cifras que fariam corar qualquer economista acostumado a falar de crise. Só não coram os próprios economistas, porque eles também estão no bloco.
Mas voltemos ao essencial, o que a cidade realmente faz, nessa semana pós-Carnaval, é respirar. E, ao respirar, lembrar que tem um corpo. Que esse corpo foi generoso o suficiente para aguentar quatro dias de sol, música, multidão e alegria concentrada. Que ele merece, agora, um pouco de atenção. Talvez o detox não seja sobre eliminar toxinas.
A ciência, inclusive, questiona se os “protocolos” populares realmente fazem isso com alguma eficiência. Talvez ele seja sobre a reconquista do cotidiano. Sobre acordar cedo, dormir cedo, comer com garfo e faca sentado numa cadeira. Sobre o prazer, igualmente real, da ordem depois do caos. O Carnaval nos lembra que somos capazes de ser completamente outra pessoa por alguns dias. O detox nos lembra, gentilmente, de quem somos de volta.
Na padaria do Jardins, o balconista me ofereceu, junto com o pão francês de sempre, um folheto sobre “semana de saúde pós-folia”. Tinha água de coco, acaí sem complemento e uma aula experimental de yoga. Eu peguei o folheto. Pedi o pão. E um café com leite. Recomeçar, afinal, não precisa ser dramático.





