Theatro Municipal vira tema de força-tarefa da Secretaria de Cultura
Sob troca de acusações de má gestão e ingerência entre a Fundação Theatro Municipal e o Instituto Odeon, a casa de espetáculos está no centro de uma fuzarca
As acusações da Fundação Theatro Municipal relativas ao primeiro ano do Instituto Odeon à frente da gestão da casa de espetáculos da Praça Ramos de Azevedo são estridentes: incluem irregularidades na captação da Lei Rouanet, divergências nas informações e repasses de bilheteria, compra de passagens aéreas para pessoas que não eram funcionárias do teatro e até aquisição de partituras erradas para um recital. Os apontamentos foram reunidos num relatório apresentado em novembro que pedia o fim do termo de colaboração assinado em setembro de 2017 (o valor do contrato supera os 500 milhões de reais por cinco anos de administração). O distrato foi acordado, e o Odeon, dirigido por Carlos Gradim, deveria sair no início de fevereiro.
Com a demissão de André Sturm da Secretaria de Cultura, em janeiro, houve um revés: Alê Youssef assumiu o cargo e suspendeu a rescisão para que os questionamentos tanto da fundação quanto do Odeon fossem analisados. A fuzarca lírica continuou com a saída da diretora da fundação Patrícia de Oliveira. Na carta de exoneração, do início de fevereiro, Patrícia foi categórica: “Parece-me que vocês não querem saber das práticas imorais ocorridas. Parece-me que há intenção de abafar o caso para não gerar polêmica”. Na quarta (13), Youssef, que foi procurado pela reportagem de VEJA SÃO PAULO mas não aceitou conceder entrevista, anunciou no Diário Oficial a criação de uma “força-tarefa” para resolver a questão no prazo de vinte dias úteis.
Com um escândalo recente de corrupção — em 2016, um rombo estimado em até 20 milhões de reais que envolvia notas fiscais superfaturadas, contratos de fachada e desvio de dinheiro público culminou no afastamento do maestro John Neschling e na abertura de processo contra William Naked, do IBGC, a organização que geria o teatro, e José Luiz Herencia, que presidiu a fundação controladora entre 2013 e 2015 e assinou em 2016 um acordo de delação premiada —, o teatro ainda se recupera da mancha na sua reputação e do vácuo de programação. Depois de dois anos quase estagnados, com exibições minguantes, em 2018 registraram-se 186 apresentações, sendo quatro óperas e quatro balés. “Tivemos 219 dias de atividade; foi um bom ano para o Municipal”, afirma Carlos Gradim, diretor do Odeon.
Criado em Belo Horizonte (MG), o instituto, também responsável pela administração do Museu de Arte do Rio, assumiu o Municipal após a concorrente Casa da Ópera ter sido desclassificada na seleção pública promovida pela gestão João Doria, do PSDB, por falta de documentação. “Entramos a toque de caixa, e desde o começo a relação com a secretaria foi tensa”, diz Gradim.
Segundo a fundação, as primeiras prestações de contas já apresentaram divergências. O relatório afirma que as planilhas dos repasses da bilheteria eram feitas de forma desordenada, a fim de confundir a fiscalização. Já o instituto argumenta que nunca foi enviado o manual sobre como transmitir tais informações. Um dos pontos mais controversos, porém, diz respeito à Lei Rouanet. A empresa Levisky foi contratada e, de acordo com o relatório, recebeu mais do que a norma prevê. O Odeon diz que o valor excedente foi pago por outra fonte, o que não é irregular. Há também um apontamento de que o Odeon quis se autorremunerar pelo serviço de captação, embora terceiros sejam contratados para a mesma tarefa.
Para o Odeon, não haveria impedimento, pois a OS também pode cumprir esse papel de captador e receber por isso. “Mas, já que a fundação é contra, nós abrimos mão dessa remuneração”, diz Gradim. Sobre o pagamento de passagens aéreas a pessoas que não eram funcionárias diretas, foi declarado em nota que os deslocamentos se deram “em função de compromissos profissionais vinculados ao Municipal”. Responsável por fiscalizar e monitorar a instituição, a fundação aponta trapalhadas de bastidores, como a substituição de última hora de um solista convidado. Na ocasião, o violinista William Hagen se apresentaria com a Orquestra Experimental de Repertório em São Paulo.
Segundo o Odeon, o contratado recebeu orientação por telefone de que deveria dar entrada no visto, mas o músico não o fez e foi impedido de embarcar. A fundação diz que a falha é grave e que monitorar esse procedimento simples de viagem é responsabilidade do contratante. Mesmo exibições de sucesso, como a comemoração dos cinquenta anos do Balé da Cidade com a Sagração da Primavera, são motivo de discórdia. No relatório, emails nervosos do diretor Ismael Ivo ressaltam atrasos na produção. “Não vou arriscar e empurrar os bailarinos com pouco ensaio no palco… Vocês precisam realizar que o mundo não gira ao redor do Odeon”, escreveu Ivo.
Segundo o documento, o então secretário Sturm precisou intervir e convencer o diretor a seguir com a apresentação. “Quase cancelamento não é cancelamento. O importante foi que as cortinas se abriram”, ratifica Gradim. Nesta quinta-feira (14), a primeira ópera do ano entra em cartaz: O Barbeiro de Sevilha. A depender das investigações da nova gestão, o drama pode ir bem além do Rigoletto, do italiano Giuseppe Verdi, que está previsto na sequência da programação de 2019.
Cinco pontos de discórdia
As principais discordâncias entre a fundação e o Odeon
1. LEI ROUANET
Tentativa de autorremuneração do Odeon pelo serviço de captação, além de comissão excedente recebida pela empresa Levisky
2. FALTA DO SOLISTA AMERICANO
O violinista William Hagen foi substituído numa apresentação com a Orquestra de Repertório porque seu visto não ficou pronto a tempo
3. SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA
Processo aponta atrasos na produção do Balé da Cidade. “Quase cancelamento não é um cancelamento”, diz Gradim
4. PASSAGENS AÉREAS
Bilhetes foram emitidos para funcionários que não faziam parte do quadro. O Odeon afirma que todas as viagens tinham relação com funções do teatro
5. TROCA DE PARTITURA
Foram adquiridas partituras erradas para Fellini e Nino Rota em Concerto. O Odeon diz que elas foram emprestadas e que o maestro Roberto Minczuk demorou para perceber a troca e pedir a alteração
Publicado em VEJA SÃO PAULO de 20 de fevereiro de 2019, edição nº 2622.
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