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Silvio Baccarelli: músico

Com o coral e a orquestra de crianças da favela de Heliópolis, que está sendo ampliada e neste ano tocou para o papa Bento XVI, Baccarelli mostra o caminho da promoção social

Por Thales Guaracy
18 set 2009, 20h32 • Atualizado em 5 dez 2016, 19h26
  • Heliópolis, que tem 120 000 moradores, é a maior favela de São Paulo e uma das maiores do país. Ali, na Estrada das Lágrimas, na Zona Sul, numa paisagem caótica onde ruas semi-urbanizadas cheias de lixo disparam o senso de perigo, o maestro Silvio Baccarelli produziu um milagre. No edifício de 1 300 metros quadrados alugado de uma antiga fábrica de suco, ele mantém 650 crianças da favela estudando música. A orquestra ensaia em um salão nos fundos. Em pé nos corredores, ou nas salas fechadas com portas de aço dos antigos frigoríficos, as crianças tocam seus instrumentos com a ajuda de professores bem remunerados. Elas entram no Instituto Baccarelli pelo coral e depois passam aos instrumentos musicais. O maestro, que começou um esforço solitário depois de ter sido enxotado da escola local, na qual foi oferecer aulas de música gratuitas, mudou o cenário da favela. Jovens que poderiam trabalhar para traficantes circulam entre os barracos com uma caixa de violino nas costas.

    Poderoso exemplo de promoção social, o coral e a orquestra do Instituto Baccarelli tiveram seu ponto alto neste ano com duas apresentações para o papa Bento XVI, que se encantou com as crianças e, conforme o protocolo, ouviu o Te Deum completo na cerimônia de encontro com os bispos na Catedral da Sé. O projeto, que existe desde 1996 e teria fechado há três se o empresário Antônio Ermírio de Moraes não desse uma importante ajuda, está crescendo para atender outros 1 200 menores de Heliópolis à espera de uma vaga. Em 2008, deve ser inaugurada a primeira parte do prédio novo, logo ao lado, em terreno da prefeitura, construída pela instituição Pró-Vida. Numa área de 6 000 metros quadrados, a sede terá 32 salas de estudo individual e, no seu segundo estágio, um teatro de 600 lugares. “Isso para mim é uma missão”, diz o maestro.

    Único homem que freqüenta a favela de terno azul-marinho e gravata, Baccarelli é mesmo um missionário. Entrou no seminário aos 11 anos de idade, no interior mineiro. Ao deixar em meados da década de 60 o sacerdócio, que lhe permitiu se especializar em música sacra, tornou-se o maestro mais solicitado de São Paulo em casamentos na fina flor. Foi sua orquestra, por exemplo, que tocou no fim de novembro na missa de casamento do piloto de Fórmula 1 Felipe Massa. No entanto, o maior prazer de Baccarelli é o trabalho na favela, de onde já saíram músicos contratados para a sua orquestra profissional e até para a Filarmônica de Israel, do célebre maestro Zubin Mehta. “É por falta de responsabilidade que o Brasil está nessa… situação”, diz ele, quase perdendo a postura sacerdotal ao conter, indignado, um palavrão.

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