Castelinho da Rua Apa passa por reforma e abrigará sede de ONG

O imóvel com fama de mal-assombrado, palco de tragédia familiar em 1937, recebeu um investimento de 2,6 milhões de reais para ser renovado

Há quem jure sentir calafrios quando passa em frente ao número 236 da Rua Apa, na região central da cidade. Em uma das esquinas, aparece o Castelinho, que fez a (má) fama da via. O palacete foi palco da trágica morte dos irmãos Armando, de 42 anos, e Álvaro César dos Reis, 45, e de sua mãe, Maria Cândida, 73, em 12 de maio de 1937. Logo a polícia arquivou o caso ao concluir que Álvaro sacou uma pistola durante uma briga, assassinou os parentes e cometeu suicídio em seguida.

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A história é constantemente questionada. “Seria impossível ele dar dois tiros no próprio peito, como diz o laudo”, acredita Leda Kiehl, familiar distante do clã e autora de um livro sobre o caso. Tantas décadas se passaram e o clima de mistério ainda ronda o pedaço. De acordo com lendas urbanas, o imóvel de 180 metros quadrados receberia a visita dos espíritos em busca de justiça.

Nos últimos tempos, entretanto, o castelo dos horrores, tombado em 2004, sofria com um problema bem mais concreto do que os fantasmas: o descaso do poder público. Ostentava pichações e vivia cheio de ratos. Não era possível nem subir ao 2º andar, pois a escada desabara. Em outubro de 2015, porém, começou uma reforma, agora em fase final, no imóvel abandonado e de propriedade do governo federal (na época da tragédia, só filhos e cônjuges podiam reclamar heranças, e os irmãos eram solteiros). Sua entrega está prevista para o fim de novembro.

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A obra recebeu um investimento de 2,6 milhões de reais da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado. “Enchemos oito caçambas com lixo retirado de dentro do local nos primeiros dias”, conta o engenheiro Ronald Lofredo. Restaram poucos elementos da construção original, de 1912, para restaurar — apenas pedaços do piso e uma pintura similar a um papel de parede escondida sob várias demãos de tinta.

“O lugar ficou muitos anos sem teto e isso piorou bastante a situação”, diz Lofredo. Saques de material, como portas e janelas, ao longo do tempo também prejudicaram a memória do lugar. Atravessaram intactas as décadas, sem dúvida, as histórias sobrenaturais. Trabalhadores da obra dizem ter ouvido sussurros do além.

Igualmente jura de pés juntos ter visto aparições de outro mundo por lá Maria Eulina Hilsenbeck, uma espécie de guardiã do prédio. Em 1973, vinda do Maranhão, sem ter onde morar, ela chegou a dormir na área por algumas noites. Após cerca de vinte anos, já estabelecida na cidade, criou a ONG Clube de Mães do Brasil, que funciona em um prédio vizinho. A entidade oferece assistência a moradores de rua, com cursos profissionalizantes.

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Em 1993, ela começou a lutar para poder administrar o Castelinho, o que conseguiu quatro anos depois. Ao assumir a função, precisou entrar na Justiça para expulsar de lá um ferro-velho. Não podia ir muito além disso com seus planos, porém, por causa da escassez de verbas. Em 2015 o governo liberou o dinheiro para a revitalização. “Nos momentos mais difíceis, recebi sinais sobre estar no caminho certo”, relata Maria a respeito de supostas mensagens de espíritos para reconfortá-la. Sua principal vitória: o espaço abrigará agora a sede da sua organização. As visitas de curiosos serão possíveis, provavelmente nos fins de semana.

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Inicialmente, a reabertura estava prevista para outubro, mas o local teve os trabalhos paralisados no último dia 25 devido à falta de pagamento à construtora. Foi um problema burocrático provocado por atrasos na entrega de documentos à Secretaria da Justiça. A ONG confirma o caso e diz já ter encaminhado os papéis necessários. Com a pausa, a nova previsão para a conclusão da reforma mudou para novembro. “Já esperei tanto, estou ansiosa”, diz Maria.

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O prédio centenário ficou marcado como um sobrevivente de sua época. “A região dos Campos Elíseos exibia diversos castelinhos do tipo, outros até mais bonitos”, explica o jornalista Douglas Nascimento, do blog São Paulo Antiga. “Ele foi um dos últimos remanescentes.” O palacete não tem nada de pioneiro em questões arquitetônicas, mas perdurou por habitar o imaginário paulistano com seu ar macabro.

Há até passeio turístico mal-assombrado que passa por lá. “É uma das paradas mais aguardadas”, afirma Elaine Vilela, da Rhoxxi, uma das empresas que promovem tours desse gênero na cidade.

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